O suicídio de Leila Lopes | Folha Espirita online

O suicídio de Leila Lopes

Richard Simonetti

Sempre nos entristece saber que alguém se suicidou, furtando-se às dores e problemas do mundo, como o fez a atriz Leila Lopes.

É uma porta falsa que precipita o espírito em tormentos inenarráveis. Isso é ressaltado pelas religiões de um modo geral e demonstrado à saciedade pelo Espiritismo, que abre a cortina que separa o mundo espiritual do mundo físico, mostrando-nos, em toda sua terrível extensão, o tormento dos suicidas.

Para um entendimento melhor sobre o assunto, consideremos, leitor amigo, que todos temos um corpo espiritual, o perispírito, que é o veículo de manifestação do espírito no plano onde atua, e seu elo com o corpo enquanto encarnado.

Não se trata de uma invenção da Doutrina Espírita. Desde as culturas mais remotas há notícias a esse respeito. No budismo esotérico chama-se Kama-rupa; imago no tradicionalismo grego; Pitágoras o chamava carne sutil da Alma; Leibnitz falava em corpo fluídico; para os hermetistas era o corpo astral. A lista vai longe...

O Apóstolo Paulo o denominava Corpo Celeste. Explica na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo XV, que há corpos terrestres e corpos celestes. Morre o corpo carnal, permanece o espírito imortal em seu veículo etéreo. Uma interpretação equivocada dos teólogos medievais suscitou a fantasia da ressurreição dos corpos em suposto juízo final.

Em relação ao suicídio, se alguém me dá um tiro e venho a desencarnar, retornarei ao mundo espiritual traumatizado, mas, tão logo supere o trauma, seguirei meu caminho, sem maiores problemas.

Mas se eu tomo de um revólver e atiro em mim, o perispírito será atingido, porquanto ele só pode ser afetado por nossas próprias ações. Retornarei ao mundo espiritual em estado de lastimável destrambelho, habilitando-me a longos sofrimentos em regiões purgatoriais.

No livro Memórias de um Suicida, psicografado pela médium Yvonne Pereira, o escritor português Camilo Castelo Branco relata seus sofrimentos, após matar-se com um tiro na cabeça. Diz ele que o pior tormento da Terra não se compara aos sofrimentos do suicida.

Depois de muito penar, até superar os desajustes maiores que provocou com seu gesto insano, o suicida é socorrido em hospitais da espiritualidade, preparando-se para um retorno à carne, onde reencontrará as mesmas situações das quais tentou fugir, em regime de débito agravado, com limitações físicas que funcionarão como válvulas de escoamento dos desajustes que provocou em si mesmo.

É um longo e doloroso processo de reabilitação. Chico Xavier dizia que o suicida levará pelo menos 200 anos para se recompor.

Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, Wolfgang Goethe (1749-1832), fala dos amores atormentados do personagem-título por uma jovem casada, apaixonada por seu marido, que não via nele senão um amigo de muitas afinidades. Vendo frustradas suas esperanças, ele se matou. O lamentável é que o livro situa o suicídio como uma solução heroica e romântica para as frustrações da vida. Muitos leitores embarcaram nessa canoa furada.

Em manifestação na Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, Goethe mostrou-se arrependido do desfecho que deu ao romance. Reconhece que seu livro inspirou a loucura do suicídio em muita gente.

Infelizmente, leitores desavisados poderão seguir esse mesmo caminho espelhando-se na justificativa tresloucada de Leila Lopes, em carta dirigida à família. Ela situa seu suicídio como um ato de coragem, de alguém que decidiu ir ao encontro de Deus, como se Deus estivesse alhures, em algum lugar no Além.

Não conseguiu entender que Deus, consciência cósmica do universo, está em tudo e em todos e que a caminhada para Deus deve ser efetuada na intimidade de nossas próprias consciências, superando mazelas e imperfeições, como destaca Jesus, em O Sermão da Montanha: Bem-aventurados os que têm limpo o coração, porque verão a Deus.

Richard Simonetti é autor do livro "Suicídio, Tudo o Que Você Precisa Saber"

Janeiro de 2010 - Edição número 425