Haiti: busca pela compreensão

Marlene Nobre

Por que o Haiti? Por que tanto sofrimento para o povo mais pobre das Américas?

Um povo já de si tão sofrido, que está na faixa quase absoluta da miséria; espoliado repetidamente por ditadores, dominado por gangues que marcam território, como se fossem bandos de irracionais; que corre de um lado para outro, sem chegar a lugar nenhum.

Diante das cenas terríveis do último terremoto, as interrogações são muitas; as dos ateus que procuram justificar a própria descrença em um poder superior, as de alguns crentes que tentam explicar o “castigo divino”. É inútil procurar respostas de um lado ou de outro. Deus não é cruel, nem vingativo, nem tampouco injusto. O Ser Supremo tem leis e as executa segundo critérios de justiça pura, que estamos longe de compreender na sua totalidade, dada a imperfeição que oblitera o nosso discernimento.

Somente com o auxílio da Lei de Ação e Reação e da Lei de Destruição é possível entender os mecanismos dos flagelos naturais. (Ver destaque no final da página).

Um rápido olhar sobre a nossa história milenar evidenciará o estágio de indigência espiritual em que nos encontramos. Nas guerras sucessivas deixamos um rastro de violência, desamor e impiedade. Somente no século passado o saldo foi de 220 milhões de mortos nas duas guerras mundiais e diversos morticínios. Aliás, nunca ficamos alguns minutos sem morticínios na superfície do planeta. Não é difícil compreender que, nos escombros do terremoto do Haiti, talvez tenhamos milhares de europeus, revestidos de outros corpos, os mesmos espíritos agressores, responsáveis por uma ou pelas duas guerras mundiais. Talvez estivessem, ali, resgatando parte da culpa, para poderem reiniciar um novo caminho de redenção no terceiro milênio. Afinal, onde renasceriam esses europeus belicosos senão nos países pobres das Américas, onde existem mães dispostas a recebê-los, uma vez que o planejamento familiar e o aborto legalizado, vigentes na maior parte dos países europeus, fecharam-lhes as portas de acesso aos antigos ninhos terrestres. Certamente não seriam apenas eles os comprometidos com as guerras recentes que terão encontrado o caminho da transformação no terremoto do Haiti, mas igualmente espíritos outros necessitados de progresso espiritual acelerado.

Assim, para os que creem na reencarnação e sabem da existência de uma outra lei vigente em todo o Universo – a da destruição – fica bem mais fácil explicar os flagelos naturais. Conforme ensinam os Espíritos Superiores (O Livro dos Espíritos, Q. 728): “Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Porque o que chamais destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos.”

A grande transformação

Até 2019, segundo Chico Xavier, as grandes transformações geofísicas do nosso planeta terminarão, e os que herdarão a Terra estarão comprometidos com uma luta sem descanso contra toda sorte de situações adversas para garantir a continuidade da vida física. Tem se falado muito em 2012, mas esse é apenas um dos marcos do caminho, em que ocorrerão acontecimentos dolorosos, que nos conduzirão rumo à data-limite, 2019, escolhida pela falange de Espíritos Puros que comandam o nosso sistema planetário e que tem em Nosso Senhor Jesus Cristo um dos seus veneráveis membros.

No livro A Gênese, lançado em Paris, em 1868, Allan Kardec deixou lições muito claras no último capítulo (XVIII), denominado Os Tempos São Chegados, a respeito do período de transição para o qual o planeta já teria entrado.

O Espírito Arago fala no item 8 desse capítulo: “Quando vos dizem que a Humanidade chegou a um período de transformação, e que a Terra deve se elevar na hierarquia dos mundos, não vejais nessas palavras nada de místico, mas, ao contrário, o cumprimento de uma das grandes leis fatais do Universo.”

Em 1938, escrevendo sobre a história dos povos (A Caminho da Luz, cap. XII), Emmanuel lembra: “Uma nuvem de fumo vem-se formando, há muito tempo, nos horizontes da Terra, cheia de indústrias de morte e destruição. Todos os países são convocados a conferirem os valores da maturação espiritual da Humanidade, verificada no orbe há dois milênios.”

Compreende-se, assim, que a Terra viveu o crepúsculo doloroso da civilização ocidental no século XX, e começa, agora, o mergulho na noite profunda, devendo deixar o campo de trevas, dentro de dez anos, quando emergirá para uma nova aurora. Segundo o benfeitor, “isso acontece porque são chegados os tempos em que as forças do mal serão compelidas a abandonar as suas derradeiras posições de domínio nos ambientes terrestres, e os seus últimos triunfos são bem o penhor de uma reação temerária e infeliz, apressando a realização dos vaticínios sombrios que pesam sobre o seu império perecível”.

Emmanuel ainda enfatiza que não devemos nos esquecer de Jesus, “cuja misericórdia infinita, como sempre, será a claridade imortal futura, feita de paz, de fraternidade e de redenção”.

Unamo-nos no trabalho de amor e misericórdia.


Destaque
Destruição, conservação, evolução

Quando incorporamos a Lei de Destruição à Lei da Reencarnação fica fácil explicar os caminhos evolutivos da alma e da nossa Casa Planetária. O Livro dos Espíritos (cap. VI) ensina que destruição é, na verdade, transformação. A destruição da vida corpórea não pode ser feita antes da hora, por isso Deus conferiu a cada ser o instinto de conservação e o de reprodução. A Lei de Destruição existe para manter o equilíbrio entre esses instintos mais grosseiros e servir de contrapeso a eles, caso contrário, o apego do espírito à existência material seria muito maior do que realmente é. Os seres vivos destroem-se reciprocamente a fim de que haja manutenção do equilíbrio na reprodução e para que sejam utilizados os despojos do invólucro exterior dos seres que sofrem destruição. A parte essencial é o princípio inteligente que não se pode destruir e que é elaborado nas diversas metamorfoses por que passa. Aprendemos que os flagelos naturais são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, diminuindo o seu egoísmo.

A Lei de Destruição, contudo, não é igual em todos os mundos; ela cessa, quando o espírito se depura, física e moralmente. Por isso, são muito diversas as condições da Terra e as dos mundos moralmente mais adiantados. Será que um dia a Terra se libertará dessa necessidade de destruição? Sem dúvida que sim, quando os seres humanos sobrepujarem a matéria, porque só então reinará, entre eles, a concórdia, a paz, a fraternidade. Assim, pois, os flagelos destruidores têm a finalidade de fazer a humanidade progredir mais depressa; realizar em alguns anos o que exigiria muitos séculos. Com eles, o espírito aprende a moderar o seu orgulho e a admitir a existência de um poder superior. Compreende, enfim, que, em outra vida, as vítimas dos flagelos destruidores, se souberem suportar com resignação a provação, acharão ampla compensação aos seus sofrimentos.

Fevereiro de 2010 - Edição número 426