Sufoco num Everest de dólares
Fernando Ós
No meio da palestra que me parecia muito interessante, comecei a tomar nota dos assuntos e frases singulares que o orador ia dizendo. Temas abrangentes eram abordados e eu ia resumindo as palavras cuidando para não fragmentar as ideias. Sendo o orador médium, médico e professor, adquiriu uma bagagem pessoal com muitas experiências sociais e espirituais, antenado num leque bem aberto de conhecimentos.
Peço ao leitor que me acompanhe nas linhas e entrelinhas deste texto, pois todos sempre podemos aprender um pouco mais. Após saudar a nossa Mãe Natureza, o orador fez as seguintes abordagens:
- A civilização do homem está dando extraordinária ênfase às iniciativas do prazer imediato e a tudo que é lúdico e atrai os sentidos, em detrimento ao que é elevado e espiritual, ou seja, perseguir sempre o prazer e dedicando pouca ou nenhuma atenção às necessidades da alma. A competitividade torna intensa, em todos os setores, a busca recorrente pelo dinheiro, mola mestra do progresso globalizado.
- A juventude contemporânea debate-se em intenso conflito. Principalmente nas classes B, C e D, o jovem busca outros valores, através da TV, da internet e dos grupos de amigos. Em meio aos conflitos e preconceitos que daí ressurge, quando chega a ser apresentado ao mercado de trabalho o jovem está despreparado e desorientado. A primeira dificuldade que enfrenta é a nova realidade que deve assimilar para seguir: a da disciplina e do dever, para os quais não foi educado nem conscientizado. Tendo percebido que seu pai se atrasou ou não conseguiu êxito profissional, ele tem pressa em alcançar objetivos financeiros e econômicos. Tem pressa em tudo o que pensa ou faz. Ao dever, prefere o prazer. É também uma questão da cultura ocidental.
As mordomias
O jovem acha que tudo pode ser percebido e solucionado pela internet. A chamada Geração Y, carente de experiências que amadurecem a alma, entende que é ou vai ser, desde logo, dona da verdade. O mundo é um balão colorido e os outros existem para servi-lo. Os pais são caretas, apenas têm a obrigação de mantê-los e satisfazer-lhes as vontades múltiplas. Muitas mães estragam seus filhos pelo excesso de zelo, ou obsessões ativa ou passiva. E a juventude se cria na certeza de que o mundo é uma espécie de “mãezona”, ou um “parque de diversões intermináveis” à sua espera desde sempre. A maioria desses jovens despreparados irá naufragar no mar revolto da vida, nos desafios da futura família e nas exigências da profissão que terá de adotar. Resumindo, ele foi previamente estragado para alcançar sucesso. Tendo ele sido educado sem a pontuação religiosa, evidente será o seu ateísmo ao longo da vida adulta. Não se estranhe, portanto, o choque das gerações que não se entendem e nem se toleram.
Dado o excesso de prazeres a que o jovem é submetido, quando até o sexo ficou banalizado, muitas vezes vai chegar o dia em que, através dos grupos de “amigos”, será apresentado às sensações do crack. É o encontro com as adrenalinas fortes que o vício sabe administrar ou acalmar. No dia em que fumar a “pedra maldita” pela terceira vez, ele perderá a família, deixará os estudos e, para manter o vício, terá de escolher entre roubar ou traficar. Bem difícil e desafiador se torna, desse modo, proteger o jovem contra as armadilhas que o cercam, sendo que a pior delas é a dos lares desestruturados, sem rumo e sem Deus.
Quando a reencarnação pode mudar o destino
Nem vamos aprofundar aqui as leis que regem a sorte de cada um moldando as personalidades no caminho da evolução. Para ilustrar, damos aqui um exemplo significativo. É o da criança que, em encarnação anterior, tenha sido um viciado ou malfeitor e que, portanto, já venha com fortes tendências destruidoras em seu espírito. Se esse espírito tendencioso renascer num lar espiritualista, a educação e o carinho podem decisivamente redirecionar o seu destino para o bem. Mas, se tal criança renasce num lar de poucos valores morais e muito mundanismo, é evidente que nela se incrementarão os vícios preexistentes no inconsciente profundo. E aí só muita prece poderá possibilitar a retomada de novos caminhos.
Sim, em tudo e por tudo temos de apelar à misericórdia de Deus. Todos somos frágeis criaturas. Os alicerces da presente civilização do homem são predominantemente egoístas e autodestruidores. Algo está sendo preparado para acontecer no mundo. O perigo ronda os nossos hábitos e empreendimentos globalizados. Um bilhão de criaturas passa fome na Terra em meio a “Everests de dólares” impregnados de vícios civilizatórios. Não, o sonho não acabou. O que deve acabar perante a mocidade é a desinformação educativa. Mais do que criar, cada mãe tem o dever de educar lucidamente. Que nunca nos afastemos da misericórdia de Deus.
Fevereiro de 2010 - Edição 426

