Nosso Lar - Capítulos 43 e 44
Capítulo 43 - Em conversação
O governador retirara-se da reunião, mas os servidores do Ministério da Regeneração continuavam discutindo os últimos acontecimentos. Centenas ofereciam-se para os trabalhos de defesa. André Luiz procurou Tobias para saber se deveria oferecer-se também. O amigo ponderou que a sua tarefa nas Câmaras de Retificação mal começara; era preciso não esquecer que 30 mil servidores sairiam para auxiliar na defesa permanente, abrindo claros enormes, que precisariam ser preenchidos, sobretudo nas Câmaras, onde o serviço funciona dia e noite. Aconselhou-o a matricular-se na escola contra o medo.
Agradável surpresa: André Luiz abraçou Lísias, que viera para a reunião, integrando a caravana do Auxílio. Ambos dirigiram-se ao grande recinto verde, consagrado aos trabalhos do ministro Benevenuto, da Regeneração – dileto amigo de Lísias –, que André só conhecia de vista. Feitas as apresentações, o ministro acolheu-o bondosamente e ambos entraram para a sua roda de discussão, entre as copas das árvores. Benevenuto fizera parte da caravana que voltara a dois dias da Polônia.
Ele comentava: Não se pode, ali, esperar claridades de fé nos agressores, tampouco na maioria das vítimas, que se entregam totalmente a pavorosas impressões. Os encarnados não nos ajudam, apenas consomem nossas forças. (...) Nunca vi tamanhos sofrimentos coletivos.
Durante todo o tempo que estiveram por lá, os caravaneiros permaneceram focalizados na tarefa a executar com vistas à aquisição de experiência. A posição deles, porém, estava muito distante da extraordinária capacidade de resistência dos abnegados servidores espirituais que ali se encontram de serviço. Todas as tarefas de assistência imediata funcionam perfeitamente, a despeito do ar asfixiante, saturado de vibrações destruidoras. Invisível aos olhos humanos, o campo de batalha é um verdadeiro inferno. Nunca, como na guerra, evidencia o espírito humano a condição de alma decaída, apresentando características essencialmente diabólicas.
Benevenuto viu homens inteligentes e instruídos empenhados em jogar bombas de alto poder de destruição sobre setores pacíficos.
O que mais nos contristou, porém, foi a triste condição dos militares agressores, quando algum deles abandonava as vestes carnais (...). Dominados, na maioria, por forças tenebrosas, fugiam dos Espíritos missionários, chamando-lhes a todos “fantasmas da cruz”. Estes não puderam ser atendidos, porque estavam na condição de loucos furiosos, que somente são passíveis de tratamento nas regiões das Trevas, onde naturalmente serão compelidos ao reajustamento. É quase incrível que a Europa, com tantos patrimônios culturais, se tenha abalançado a semelhante calamidade, ponderou um dos interlocutores.
Falta de preparação religiosa; não basta ao homem a inteligência apurada, é-lhe necessário iluminar raciocínios para a vida eterna, ressaltou o ministro. As Igrejas são sempre santas quando cuidam essencialmente da Verdade de Deus, mas o sacerdócio político jamais atenderá à sede espiritual da civilização. Somente os religiosos que têm o sopro divino poderão inspirar fé e confiança. Com relação a isso, um dos interlocutores lembrou a missão do Espiritismo.
Sim, disse Benevenuto, o Espiritismo é a nossa grande esperança e, por todos os títulos, é o Consolador da humanidade encarnada; mas a nossa marcha é ainda muito lenta. Isso porque a maioria dos homens ainda não possui “olhos de ver”. Além disso, esmagadora porcentagem dos espíritas ainda copia antigos vícios religiosos. Querem receber proveitos, mas não se dispõem a dar coisa alguma de si mesmos. Invocam a verdade, mas não caminham ao encontro dela. (...) Enfim, enquanto os encarnados se entretêm com as sessões de materialização de espíritos, os desencarnados estão à procura de homens espiritualizados para o trabalho sério.
Com isso, são astronômicos os serviços dos desencarnados. Mas, segundo Benevenuto, todo homem é semente da divindade, por isso, é preciso que cada um cumpra o seu dever com esperança e otimismo. Estejamos sempre convictos de que, se bem fizermos a nossa parte, podemos permanecer em paz, porque o Senhor fará o resto.
Pontos de destaque para estudo
1) Excursões de aprendizado em tempo de guerra.
2) A guerra eclode o que existe de pior no ser humano.
3) Apesar do clima infernal, a ajuda dos servidores espirituais não cessa.
4) Altos patrimônios culturais de nada valem se há falta de preparação religiosa.
5) Somente os religiosos com sopro divino inspiram fé e confiança.
6) Espiritismo é a grande esperança, caso os espíritas se espiritualizem.
7) Cada servidor deve fazer a sua parte.
Capítulo 44 - As Trevas
Enriquecendo as alegrias da reunião, Lísias dedilhou com maestria as cordas da cítara, tocando velhas canções e melodias da Terra. A sós, André Luiz falou ao amigo da sua enorme alegria por aquele dia perfeito. Sentia-se no paraíso.
Lísias explicou-lhe: É o alimento do amor, André. Quando numerosas almas se congregam no círculo de tal ou qual atividade, seus pensamentos se entrelaçam, formando núcleos de força viva, através dos quais cada um recebe seu quinhão de alegria ou sofrimento, da vibração geral. (...) Cada criatura vive daquilo que cultiva. Quem se oferece diariamente à tristeza, nela se movimentará; quem enaltece a enfermidade, sofrer-lhe-á o dano.
Tudo era novo para André Luiz. É lei da vida, continuou Lísias, tanto nos esforços do bem, como nos movimentos do mal. Nas reuniões em que predominam os sentimentos de amor, colhemos amor; nas assembleias de sentimentos inferiores, colhemos vibrações destrutivas. André Luiz complementou lembrando que o mesmo ocorria nos lares terrestres; quando pairava a harmonia e a compreensão, vivia-se próximo ao céu, mas quando havia discórdia e maldade, o clima era infernal.
Apesar da experiência própria e do convívio com os enfermos das Câmaras, o médico tinha dificuldade em distinguir a diferença entre os círculos do Umbral e o das Trevas.
Chamamos Trevas as regiões mais inferiores que conhecemos, esclareceu Lísias. Para compreendermos melhor, é preciso pensar na evolução como se estivéssemos percorrendo um caminho. Alguns poucos seguem resolutos, visando ao objetivo essencial da jornada. São os espíritos nobilíssimos, que descobriram a essência divina em si mesmos, marchando para o alvo sublime, sem vacilações. A maioria, no entanto, estaciona. Temos então a multidão de almas que demoram séculos e séculos, recapitulando experiências. Os primeiros seguem por linhas retas. Os segundos caminham descrevendo grandes curvas. Estes existem aos milhões perambulando no Umbral. Outros preferem caminhar às escuras, absorvidos por preocupação egoística, estacionando no fundo do abismo por tempo indeterminado.
Quanto às quedas, elas podem ocorrer em qualquer lugar. Quando ela se dá nas esferas superiores, a intensidade da culpa é maior. André Luiz julgava que a paisagem divina, o conhecimento da verdade e o auxílio superior eram antídotos infalíveis ao veneno da vaidade e da tentação. Lísias ressaltou que o problema da tentação é mais complexo. As paisagens do planeta terrestre estão cheias de ambiente divino, conhecimento da verdade e auxílio superior. Apesar disso, muitos travam batalhas destruidoras entre as árvores acolhedoras e os campos primaveris; muitos cometem homicídios ao luar, insensíveis à profunda sugestão das estrelas; outros exploram os mais fracos, ouvindo elevadas revelações da verdade superior.
André Luiz ainda tinha dúvidas quanto à localização espacial da zona das Trevas. Para compreendê-la, é preciso lembrar que há vida em toda parte, o vácuo sempre será mera imagem literária. Em tudo há energias viventes e cada espécie de seres funciona em determinada zona da vida.
As Trevas localizam-se da superfície do globo para baixo.
A vida, contudo, palpita na profundeza dos mares e no âmago da terra. (...) A Terra é organização viva, possuidora de certas leis que nos escravizarão ou libertarão, segundo nossas obras. É claro que a alma esmagada de culpa não poderá subir à tona do lago maravilhoso da vida. Resumindo, devo lembrar que as aves livres ascendem às alturas; as que se embaraçam no cipoal sentem-se tolhidas no voo, e as que se prendem a peso considerável são meras escravas do desconhecido.
E Lísias concluiu a lição dizendo que o planeta traz em si expressões altas e baixas, com que corrige o culpado e dá passagem ao triunfador para a vida eterna. Lembrou que há elementos no cérebro do homem que lhe presidem o senso diretivo. E que esses elementos não são propriamente físicos e sim espirituais, na essência. Quem estime viver exclusivamente nas sombras, embotará o sentido divino da direção. E se precipitará nas Trevas, porque o abismo atrai o abismo e cada um de nós chegará ao local para onde esteja dirigindo os próprios passos.
Pontos de destaque para estudo
1) Estudar as propriedades do pensamento. Lísias descreve aqui o emaranhamento: fenômeno da Física Quântica que explica o entrelaçamento de partículas.
2) Relacionar as ações que levam os espíritos à região das Trevas.
3) Estudar: “Tentação e Queda”.
4) Destacar revelação de Lísias em 1940: A Terra é organização viva. (Tese atual de James Lovelock)
5) Há elementos no cérebro humano que lhe presidem o senso diretivo.
Fevereiro de 2010 - Edição 426

