Editorial

Médicos espíritas no exterior

Desde os primórdios do Movimento Espírita brasileiro, no século XIX, os médicos sempre tiveram uma atuação pioneira, não só fundando núcleos de estudos, mas também impulsionando a divulgação dos princípios libertadores do Espiritismo.

Exemplos bem concretos tivemos com os serviços prestados à Doutrina por um grupo de homeopatas, que atuou no Rio de Janeiro, no último quartel do século XIX, entre os quais destacamos o pioneirismo de Bento Mure, e, igualmente, outro grupo da mesma especialidade, em São Paulo, que atuou na primeira e na segunda metade do século XX, como foi o caso de Militão Pacheco, Luiz Monteiro de Barros e Alfredo de Castro.

Inesquecíveis também foram as tarefas desenvolvidas pelos médicos Bezerra de Menezes Cavalcanti e Francisco de Menezes Dias da Cruz, à frente da Federação Espírita Brasileira, no final do século XIX e início do século XX.

A atuação dos médicos sempre foi, portanto, um fato tradicional no Movimento Espírita brasileiro. É, por assim dizer, um traço característico da nossa cultura espírita. Não é muito diferente do tempo de Kardec, que tinha o dr. Demeure como amigo pessoal, e Samuel Hahnemann entre os grandes amigos desencarnados.

Esse ponto de reparo vem a propósito da atuação da Associação Médico-Espírita do Brasil no cenário internacional. A tradição continua, mas de outra forma. Hoje, os médicos estão sendo chamados a difundir os princípios libertadores do Espiritismo, aplicados ao campo médico e científico, junto às sociedades do Velho Mundo, enfastiadas das propostas religiosas dogmáticas, sem fundamentos racionais profundos. Do mesmo modo, eles estão levando a mensagem aos Estados Unidos, com a finalidade de trocar experiências e trabalhar em conjunto, uma vez que a Grande Nação do Norte é pioneira no lançamento do movimento Medicina e Espiritualidade, através da atuação decisiva das Universidades de Harvard, e de Duke, na Carolina do Norte.

De certa forma, os médicos atuam em uma faixa do aspecto científico do Espiritismo, daí a relativa aceitação que os seus temas têm tido, junto à mentalidade europeia e à norte-americana, fortemente estruturadas no aspecto racional e filosófico, segundo os cânones de sua cultura milenar.

As palestras mais convincentes no exterior, dirigidas aos que ainda não se deixaram envolver completamente pelo materialismo, são as que têm, inicialmente, um forte apelo à fé raciocinada, através da argumentação científica. Somente ao final elas contêm um apelo ao sentimento, à questão religiosa.

Ao preparar essas palestras, os médicos espíritas levam em conta também que, em geral, as sociedades do Hemisfério Norte têm horror às seitas, à lavagem cerebral, às doutrinas, porque no passado remoto e recente já tiveram muitas experiências funestas com elas. Por essa razão, não apresentam palestras do tipo magister dixit, em que a exposição é feita de cima para baixo, sem direito a diálogo. A exposição é preferencialmente clara, objetiva, sem intuito de catequese.

É engano esperar que europeus e americanos aceitem a mesma prática espírita que vingou aqui, em nosso país. São culturas diferentes. Há que se respeitar as diferenças.

Nesse último périplo pelo exterior, de 29 de maio a 13 de junho, os médicos da AME-Brasil voltaram felizes. Afinal, estabeleceu-se uma ponte de conexão muito sólida entre o trabalho de pesquisa que realizam e aquele que é realizado pelos colegas dos Estados Unidos.

Tendo em vista o passado de lutas que herdaram dos seus colegas dos séculos XIX e XX, não se julgam, por isso, figuras de destaque do Movimento Espírita; muito pelo contrário, consideram-se simples servidores do Cristo, sem jactância pessoal, com obrigação de produzir mais e melhor, em nome do Senhor.


Julho de 2010 - Edição número 431