O Livro dos Espíritos – 2ª edição – 150 anos (1860 - 2010) | Folha Espirita online

O Livro dos Espíritos – 2ª edição – 150 anos (1860 - 2010)

Irvênia Prada

O Livro dos Espíritos que conhecemos, com 1.019 questões, foi lançado por Allan Kardec em 18 de março de 1860, em 2ª edição. Completa agora os seus 150 anos, e continua sendo a base para todas as edições posteriores (traduções).

Entre os vários temas que lhe foram acrescentados, destaca-se a questão evolutiva das espécies. Editada apenas três meses após a publicação de A Origem das Espécies (1859), de Charles Darwin, ela vai além, com a revelação de que as etapas evolutivas da matéria representam mero reflexo de correspondentes etapas no plano espiritual.

Essa revelação traz em si a proposta de uma profunda reflexão filosófica, que faz toda a diferença. Historicamente, o ser humano tem sido considerado como criatura especial, com privilégios e poderes (antropocentrismo), e com essas características tem dominado e subjugado a natureza. Mas a questão 607-a já assinala: “... É nestes seres (os animais), que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, ensaia para a vida...”. Esse princípio inteligente, criado simples e ignorante (questão 634), representa o ponto de partida da trajetória evolutiva de todos os seres, conceito que derruba de vez os alicerces do paradigma antropocêntrico e incita o ser humano a descer do alto da pirâmide aristotélica, onde desde tempos imemoráveis se coloca acima de tudo e de todos. Reconhecendo-se, então, como um dos fios da “teia da vida”, passa a conviver harmonicamente com toda a natureza (paradigma biocêntrico ou ecocêntrico).

A questão 540 merece atenção especial: “... Tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo...”. Também os mundos evoluem. No item 607-b, respondendo à pergunta “Esse período de humanidade começa na Terra?”, os espíritos esclarecem que “a Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. O período de humanidade começa, em geral, nos mundos ainda mais inferiores”. Por sua vez, os itens 601, 603 e 604 aludem a mundos superiores, onde também vivem animais e seres humanos.

Há 150 anos consta de O Livro dos Espíritos (questão 606-a) que a inteligência do homem e a dos animais emanam de um princípio único, e a questão seguinte (607) esclarece que o Espírito (humano) cumpre essa primeira fase de seu processo evolutivo “numa série de existências que precedem o período que chamais de humanidade” (ver também as questões 609, 611 e 612). A questão 849 não deixa dúvidas: “Qual é, no homem em estado selvagem, a faculdade dominante: o instinto ou o livre-arbítrio?” Resposta: “O instinto...

Esse conceito é ainda reafirmado nos capítulos X (Gênese Orgânica) e XI (Gênese Espiritual) de A Gênese e encontra eco na ciência, que atesta terem sido macacos nossos ancestrais. Nosso cérebro aos poucos se expandiu, particularmente na região frontal, ligada aos fenômenos de inteligência, sendo oportuna a questão 780-a: “Como o progresso intelectual pode conduzir ao progresso moral?" Resposta: “Dando a compreensão do bem e do mal, pois então o homem pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio segue-se ao desenvolvimento da inteligência e aumenta a responsabilidade do homem pelos seus atos.” Não custa lembrar que a “moral universal”, que visa o bem comum (questão 629), encontra-se atrelada à nossa capacidade de escolher. E o que se lê em O Livro dos Médiuns, 303.1 é significativo: “... Seu objetivo (da Doutrina Espírita) é o aperfeiçoamento moral da humanidade.

Assim, chegamos a entender o “objetivo providencial” (Providência = máxima sabedoria, atribuída a Deus) do processo evolutivo, referido na questão 540. Alem disso, há nesse processo um vetor direcionado para a frente, ou seja, é possível se estacionar, mas não se retorna jamais a estágios já vencidos. Em outras palavras, “... O rio não remonta à fonte”, conforme se lê na questão 612.

André Luiz (Espírito), pela mediunidade abençoada de Chico Xavier, transmitiu-nos livros memoráveis, entre os quais Evolução em Dois Mundos, em cujo capítulo XI se lê: “Guarda a criatura humana, então, consigo, na tessitura dos próprios órgãos, a herança dos milhões de estágios diferentes, nos reinos inferiores...

Emmanuel (Espírito), também pela psicografia de Chico Xavier, em Alvorada do Reino, elucida: “O animal caminha para a condição de homem tanto quanto o homem caminha para a condição de anjo.

Na Folha Espírita, em revista comemorativa dos 50 anos da mediunidade de Chico Xavier (1977), Marlene Nobre relata pitorescos casos de vivência do médium com animais, aos quais sempre dedicou especial afeição. Em um deles, enorme formigueiro começa a devastar as roseiras de Chico, que conversa com elas: “Minhas irmãs, vocês são tão eficientes, tão unidas no trabalho! Mas, olha... vocês precisam ir embora...”. E elas foram!

O texto na íntegra poderá ser acessado em abril aqui no site.

Março de 2010 - Edição número 427