Folha Espirita online

Editorial maio de 2014

Espiritismo e racismo

No último mês, o racismo voltou a ser tema de debates pela imprensa brasileira e mundial, depois que o jogador de futebol Daniel Alves foi alvo de atitude racista na partida de futebol entre o Barcelona e o Villarreal, recebendo uma banana atirada da torcida. De forma inteligente, o jogador ignorou a provocação, pegou a fruta e a comeu.

Iniciada pelo jogador Neymar, nas redes sociais, a campanha #somostodosmacacos teve forte adesão de esportistas, jornalistas, apresentadores de TV, artistas famosos e pessoas desconhecidas, que publicaram e compartilharam fotos com bananas em solidariedade ao jogador. O Futebol Clube Barcelona declarou que “Alves uniu o mundo do esporte contra o racismo”.

Independentemente da “chuva” de declarações de representantes de movimentos antirracistas e pessoas anônimas criticando a iniciativa – para muitos, dizer que “somos todos macacos” seria uma maneira de reforçar um estereótipo contra o qual os movimentos antirracistas travam uma batalha constante –, a discussão trouxe mais uma vez à tona o que o próprio Daniel Alves declarou, ao defender a campanha: “Somos todos humanos e iguais”, e uma atitude racista como a demonstrada no jogo não pode mais ser aceita em nossa sociedade.

A destruição dos preconceitos de cor é um dos objetivos do Espiritismo. O progresso da civilização passa, necessariamente, pelo fim de toda e qualquer forma de preconceito. Esse tipo de postura discriminatória, existente nas relações entre diferentes grupos étnicos, ao lado de diversos fatores de ordem política e econômica, tem gerado as desigualdades sociais no nosso planeta, constituindo-se num enorme obstáculo para a construção de uma sociedade mais fraterna e igualitária.

Afirmaram os espíritos a Allan Kardec que essas desigualdades um dia desaparecerão, junto à predominância do orgulho e do egoísmo, restando tão somente a desigualdade de mérito. Segundo Kardec, todos os homens são submetidos às mesmas leis naturais, todos nascem com a mesma fragilidade, estão sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus não concedeu, portanto, superioridade natural a nenhum homem, nem pelo nascimento, nem pela morte. São todos iguais perante Ele.

Uma doutrina como a espírita não compactua com nenhuma ideologia que vise à discriminação racial entre os grupos sociais. À medida que a humanidade melhora em inteligência e moralidade, todas as formas de preconceito e segregação tenderão a desaparecer definitivamente. Sobre isso, Kardec comenta: “Assim, as raças que atualmente povoam a Terra desaparecerão um dia e serão substituídas por seres mais e mais perfeitos. Essas raças transformadas sucederão à atual, como esta sucedeu a outras que eram mais grosseiras.”

É dever dos espíritas, portanto, imbuídos do ideal renovador do Espiritismo, lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, na qual o negro e todos os grupos étnicos oprimidos tenham os seus direitos garantidos e respeitados. A luta pela verdadeira democracia racial é uma luta que interessa não somente ao negro, mas a todos os setores progressistas, inclusive aos espíritas, que estejam efetivamente comprometidos com o processo de transformação intelecto-moral da sociedade. Como disse Daniel Alves diante da provocação: “Atitudes negativas devem ser combatidas com atitudes positivas.”

Como aproveitar bem o sono

Marlene Nobre

O sono físico nem sempre representa algo que nos traz descanso, prazer.

É o caso dos que dormem muito pouco e sentem falta e dos que dormem, mas tem baixa qualidade de sono, porque tem pesadelos e sono agitado. Há também outros que dormem demais, mas tem baixa qualidade do sono.

Enfim são problemas variados.

O fato é que nem sempre compreendemos bem o que se passa conosco durante os instantes de repouso.

Relembremos, inicialmente, o que Allan Kardec perguntou sobre este assunto aos Espíritos Instrutores, em O Livro dos Espíritos:
"Questão 412 - A atividade do Espírito durante o repouso ou o sono do corpo, pode fazê-lo experimentar fadiga, quando retorna? Resposta: - Sim, porque o Espírito tem um corpo, como o balão cativo tem um poste. Ora, da mesma forma que a agitação do balão abala o poste, a atividade do Espírito reage sobre o corpo e pode fazê-lo experimentar fadiga."

A respeito deste assunto, buscamos também uma mensagem muito oportuna do Instrutor Calderaro no livro Instruções Psicofônicas ( cap. 49) , uma das orientações recebidas psicofonicamente pelo médium Chico Xavier, denominada Além do sono.

Inicialmente o grande instrutor nos lembrou que o dia simboliza a existência e o sono a morte. De fato, o sono não deixa de ser uma preparação para a morte. Assim como não há morte libertadora sem existência edificante também não há noite proveitosa sem dia correto. A atividade espiritual da alma encarnada tem influência além do sono físico. A invigilância e a irresponsabilidade que manifestamos durante o dia geram alucinações quando estamos no estado de repouso.

Calderaro afirma: "É natural que o dia mal vivido exija a noite mal assimilada. O espírito menos desperto para o serviço que lhe cabe, certamente encontrará, quando desembaraçado da matéria densa, trabalho imperioso de reparação a executar. Por esse motivo, a grande maioria de companheiros encarnados gasta as horas de sono exclusivamente em esforço compulsório de reajuste."

Mas , se nós durante o estado de vigília cumprimos o nosso dever, é natural que durante o sono do corpo físico, venhamos a ser precioso auxiliar nas realizações da Esfera Superior. Calderaro em sua mensagem dirige um convite a todos nós: "Convidamos, assim, a vocês, tanto quanto a outros amigos a quem nossas palavras possam chegar, à tarefa preparatória do descanso noturno, através do dia retamente aproveitado, a fim de que a noite constitua uma província de reencontro das nossas almas, em valiosa conjugação de energias, não somente a benefício de nossa experiência particular, mas também a favor dos nossos irmãos que sofrem. Muitas atividades podem ser desdobradas com a colaboração ativa de quantos ainda se prendem ao instrumento carnal, principalmente na obra de socorro aos enfermos que enxameiam por toda parte."

Ao mesmo tempo que Calderaro nos faz esse convite, ressalta a importância das ideias na origem das doenças, diz ele: Vocês não desconhecem que quase todas as moléstias rotineiras são doenças da ideia, centralizadas em coagulações de impulsos mentais, e somente ideias renovadoras representam remédio decisivo.É justamente aí que entra a ação do mundo espiritual durante o descanso físico: Por ocasião do sono, é possível a ministração de amparo direto e indireto às vítimas dos labirintos de culpa e das obsessões deploráveis, por intermédio da transfusão de fluidos e de raios magnéticos, de emanações vitais e de sugestões salvadoras que, na maior parte dos casos, somente os encarnados, com a assistência da Vida Superior, podem doar a outros encarnados.

E o mais extraordinário é que os Benfeitores da Espiritualidade vivem a postos, aguardando os enfermeiros de boa vontade, samaritanos da caridade espontânea, que, superando inibições e obstáculos, se transformem em cooperadores diligentes na extensão do bem.

Como a gente faz para trabalhar utilmente enquanto dorme?

O Benfeitor responde: "Se vocês desejam partilhar semelhante concurso, dediquem alguns momentos à oração, cada noite, antes do mergulho no refazimento corpóreo. Contudo, não basta a prece formulada só por só. É indispensável que a oração tenha bases de eficiência no dia bem aproveitado, com abstenção da irritabilidade, esforço em prol da compreensão fraterna, deveres irrepreensivelmente atendidos, bons pensamentos, respeito ao santuário do corpo, solidariedade e entendimento para com todos os irmãos do caminho, e, sobretudo, com a calma que não chegue a ociosidade, com a diligência que não atinja a demasiada preocupação, com a bondade que não se torne exagero afetivo e com a retidão que não seja aspereza contundente."

Como vemos, Calderaro nos traça o roteiro de ação durante o dia para que sejamos úteis a nós mesmos e aos outros durante o sono.

Ele enfatiza: "Em suma, não prescindimos do equilíbrio que converta a oração da noite numa força de introdução à espiritualidade enobrecida, porque, através da meditação e da prece, o homem começa a criar a consciência nova que o habilita a atuar dignamente fora do corpo adormecido. Os nossos guias e protetores estão conosco durante o sono, mas é preciso que nós nos consagremos a efetuar essas instruções."

Será que nós nos lembramos daquilo que se passa na companhia dos nossos mentores durante o repouso físico? Calderaro responde que na maioria das vezes nós não recordaremos, mas nós cresceremos nessa associação com o Mais Alto.

E ele encerra a sua comunicação com um apelo para que nos apliquemos ao ideal de servir: "Porque a alma que se devota à reflexão e ao serviço, ao discernimento e ao estudo, vence as inibições do sono fisiológico e, desde a Terra, vive por antecipação na sublime imortalidade."
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