A visão espírita sobre as mudanças climáticas e a alteração dos ecossistemas

( Colaboração de Flávia de Santis Prada )

A presença dos humanos no planeta Terra e nossa evolução como Espíritos estão atreladas diretamente à influência e ao impacto nos ecossistemas originais, nas paisagens naturais, nos ciclos ecológicos e na perpetuação (ou extinção) de espécies animais e vegetais. Nenhuma outra espécie – nem mesmo as outras espécies do gênero “homo” – modificou tanto o planeta como o Homo sapiens. Em Evolução em dois mundos, pelo Espírito André Luiz – psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira –, o capítulo 8 intitulado “Evolução e metabolismo” se inicia com o seguinte parágrafo:

“Suprimentos da vida — Observamos a chegada dos princípios inteligentes no mundo e a sua respectiva expansão, assim como um exército que, para atender às próprias necessidades, organiza, de início, a precisa cobertura de suprimentos. Primeiro, as bactérias lavrando o solo para que as plantas proliferassem, criando atmosfera adequada ao reino animal. Depois das plantas, aparecem os animais, gerando recursos orgânicos para que o instinto pudesse expandir-se no rumo da inteligência. E, em seguida ao animal, surge o homem, plasmando os valores definitivos da inteligência, para que a Humanidade se concretize a caminho da angelitude.”

Podemos compreender, portanto, que está previsto na evolução do princípio inteligente a garantia de meios de se suprir e sustentar no planeta, através dos recursos disponíveis na natureza, e o ser humano representa o aperfeiçoamento máximo desse princípio inteligente na Terra. O que ocorre é que para suprir nossas necessidades materiais de alimento, água, energia, abrigo e proteção, fomos ao longo dos milênios exaurindo as fontes de recursos não renováveis e destruindo a capacidade do planeta de reciclar e repor os recursos renováveis. Além disso, provocamos a extinção de inúmeras espécies animais e vegetais, que não teriam sido dizimadas da superfície terrestre se não fosse a ação dos seres humanos Homo sapiens.

Livre-arbítrio x Harmonia Planetária

Temos a responsabilidade de colocar nosso livre-arbítrio a favor de uma maior harmonia planetária, tendo uma vida mais frugal e menos exigente em luxos desnecessários, colaborando com a recuperação dos ambientes naturais degradados o quanto nos for possível e, principalmente, pondo nossa vontade e consciência a favor do cuidado e da preservação da vida.

As duas revoluções humanas civilizacionais mais significativas do nosso processo de evolução, como apontam os estudos mais recentes, são a revolução cognitiva e a revolução agrícola. A primeira ocorreu há cerca de 35 mil anos, e a revolução neolítica ou agrícola, há cerca de 15 mil anos. Estas representaram grandes saltos em nossa qualidade de vida, capacidade de prover alimentos e defesa contra o ataque de animais. Tais movimentos civilizacionais, além de promoverem uma explosão demográfica, trouxeram significativas extinções em massa de espécies. Para citar alguns exemplos, a ocupação das Américas pelos humanos Homo sapiens, há cerca de 14 mil anos, representou em poucos milênios a extinção de toda a macrofauna americana. Mamutes, mastodontes, tigres-dentes-de-sabre e preguiças-gigantes que sobreviveram por milhões de anos foram extintos em poucos séculos depois da chegada dos Homo sapiens nesses territórios. Na Nova Zelândia, que foi ocupada mais recentemente – há cerca de 800 anos –, 90% da megafauna e 60% das espécies de aves foram extintas.

É relevante citar também que o domínio do uso do fogo pelos humanos deu início à prática – que ocorre até hoje – de se realizar grandes queimadas. As queimadas para preparar o terreno, assim como afugentar predadores e animais peçonhentos para os procedimentos do exercício da agricultura, impactam sobremaneira nos ecossistemas. O uso sistemático do fogo somado à técnica de derrubada de árvores de grande porte de florestas tropicais e boreais ocasionaram enormes alterações nas paisagens dos ecossistemas. Tomando por exemplo o Brasil, cerca de 93% da Mata Atlântica foi desmatada, e o que já foi um dia uma floresta foi transformado em pastagens, cultivos agrícolas e cidades.

A Lei do Progresso é inexorável, mas é também uma responsabilidade compartilhada. Todo movimento individual e da coletividade visa à promoção da evolução em longo prazo.

O impacto dos seres humanos no planeta atingiu seu ápice no período pós-industrial – e segue em ritmo acelerado até hoje. Na década de 1970, os cientistas começaram a perceber que os níveis de poluição da atmosfera, das águas superficiais e subterrâneas estavam crescendo em ritmo alarmante. Em 1972, em Estocolmo-Suécia, ocorreu a primeira Conferência da ONU para o meio ambiente. O mundo começava a perceber que as atividades humanas no planeta estavam colocando nossa espécie em risco de extinção.

A Global Footprint Network é uma organização que mede o impacto das atividades humanas em uma métrica matemática e calcula o uso de recursos naturais. Se fizermos uma analogia, como se fosse uma conta bancária, na qual se você usar mais recursos do que você tem em conta, você entra no “cheque especial”, consideramos que neste ano de 2021 a humanidade entrou no “cheque especial” da calculadora ecológica da GFN em 29 de julho de 2021, ou seja, em quase 5 meses do ano estamos “gastando nossa conta” do planeta sem reservas para isso.

Ainda uma preocupação se sobressai a todas que a humanidade enfrenta hoje em relação ao meio ambiente: a crise climática – o aquecimento do planeta. Em 1995 ocorreu a 1ª Conferência entre as Partes sobre o clima e o aquecimento global (COP). Os cientistas começaram a relacionar os índices de poluição (por dióxido de carbono e metano, entre outros gases) na atmosfera com um efeito de aquecimento do planeta que poderiam aumentar a temperatura média da Terra em até 3 graus Celsius, o que representaria desastres ambientais gravíssimos, além do risco de seca e exaustão de solos, levando com isso ao aumento da fome e miséria. Neste mês de novembro de 2021 ocorrerá a 26ª COP em Glasgow-Escócia, e o mundo tem um enorme desafio para chegar a um acordo para reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa através, principalmente, da redução de queimadas, diminuição do uso de combustíveis fósseis e aumento da matriz mundial com fontes de energia limpas.

Caos Ambiental

Analisando sob uma perspectiva espírita, é interessante observar que no mesmo momento de nossa jornada terrestre em que atingimos níveis intelectuais e tecnológicos altíssimos – a ponto de estarmos projetando foguetes que nos levam a outros planetas –, estamos numa situação tão caótica do ponto de vista ambiental que há uma real preocupação com a extinção da nossa espécie. O que explica essa situação? Será que vamos mesmo extinguir nossas chances de viver em nosso querido planeta azul? A pergunta n. 687 de O livro dos Espíritos nos traz certo alento à questão:

“Se a população seguir sempre a progressão crescente que vemos, chegará um momento em que ela será exuberante sobre a Terra? – Não. Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio. Ele nada faz de inútil. O homem que não vê senão um canto do quadro da natureza, não pode julgar a harmonia do conjunto.”

Se nos serve de alívio saber que Deus e os governadores do planeta estão olhando por nós, também essa resposta em O livro dos Espíritos nos traz a responsabilidade de colocar nosso livre-arbítrio a favor de uma maior harmonia planetária, tendo uma vida mais frugal e menos exigente em luxos desnecessários, colaborando com a recuperação dos ambientes naturais degradados o quanto nos for possível e, principalmente, pondo nossa vontade e consciência a favor do cuidado e da preservação da vida.

Como conclusão, nossa reflexão está na contraposição de que a Lei do Progresso é inexorável, mas também uma responsabilidade compartilhada. Todo movimento individual e da coletividade visa à promoção da evolução em longo prazo. Uma evolução que se compõe do aumento do conhecimento, da sabedoria, da tranquilidade das boas escolhas e da busca da virtude com a finalidade da evolução moral. Naturalmente, a Espiritualidade maior zela pelo planeta e pela evolução dos Espíritos que fizerem sua jornada de aprimoramento intelectual e moral aqui, mas compete a cada um de nós, no uso do nosso livre-arbítrio, fazer escolhas que preservem o planeta que nos acolhe nesta jornada de evolução.

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