A vivência do amor em uma UTI em tempos do novo coronavírus

Querido diário,

Há quanto tempo não escrevo em suas páginas – uns 15 anos talvez. Hoje, acordei nostálgica, com uma saudade opressora do que já foi. Pela mudança dos tempos, escrevo estas palavras não mais em um livro de papel, mas em uma folha virtual, armazenada em alguns gigabytes de memória. Lembra-se de quando dividia com você os sonhos de adolescente? Pois bem! Acho que muitos deles se realizaram. Sou médica, faço minha residência na universidade em que tanto almejei estar, encontrei um namorado maravilhoso (daqueles lindos de livro mesmo) e tenho minha casa de boneca em tamanho real, com boletos que eu mesma consigo pagar. Graças a Deus, assim estou e bem sei que sem Ele eu nada seria.

Tenho criado o hábito de agradecer todos os dias pelas conquistas do presente, mas hoje acordei querendo agradecer pelo passado, pelos momentos calorosos que não existem mais. Diante da pandemia da Covid-19, os dias se dão entre minha casa e o trabalho (muitas horas, a propósito), porém, apesar de estar em paz relativa com tudo isso, nesta manhã, a saudade dos “velhos tempos” acabou apertando.

Lembrei-me das noites de filmes com as amigas, do bolo com sorvete ao lado das tias; de cozinhar com meus pais, dos shows que fui com meu irmão. Daquela casa cheia de gente nos finais de semana, de correr no quintal com os cachorros, das sextas-feiras à noite no centro espírita. Ah, o centro espírita… A mocidade, o Departamento Acadêmico da Associação Médico-Espírita e nossos encontros com abraço coletivo!

Foi pensando em todos esses momentos tão alegres que me nutri para ir trabalhar hoje, no meio dessa pandemia insana, como recém-formada, rodeada de pacientes graves, da morte. No caminho, lembrei-me de um plantão recente. Eu cheguei para ver a primeira paciente, possivelmente a mais grave daquela UTI. Seis bombas de infusão contínua, com drogas vasopressoras, sedativos, analgésicos e medicações para corrigir toda a bioquímica do sangue. Os rins em franca insuficiência, a hemodiálise sendo uma conduta urgente. Entubada e pronada, com a ventilação mecânica atingindo os parâmetros máximos, e os pulmões pouco responsivos a todas aquelas invasões. Eu bem sabia que o óbito era inevitável e não tardaria. Meu coração apertou e foi então que olhei, enfim, para aquela mulher e não para os aparelhos barulhentos que a ela estavam conectados.

Que cuidado bonito a equipe de enfermagem estava tendo com ela! Seus cabelos estavam penteados e cada parte do seu corpo hidratada, bem-posicionada e acolchoada naquele leito de solidão. O cuidado que certamente um filho amoroso daria a ela. Ah… Os filhos! Imagino a angústia em seus corações, de ter a bem-amada genitora longe de seus olhos e abraços, sem a possibilidade da transitória despedida.

E o seu coração de mãe e filha, como estaria? Quanto medo e quanta dor passaram por ali, ao se ver sozinha diante do desconhecido encontro com essa doença, com a dispneia e a iminência da intubação? Que poder não teria o acolhimento maternal para aquele frágil corpo enfermo e sua alma? Como se uma virtude tivesse me usado como intermediária, senti a profunda conexão que existe entre todos os seres que habitam este planeta. Senti um amor sem tamanho, o amor de filha de Deus por outra filha de Deus.

– Doutora, a pressão está 80×40 – disse o enfermeiro me chamando de volta à realidade.

Tomei as condutas necessárias que aqui não cabem ser mencionadas, e a paciente estabilizou. Acariciei seus cabelos, ajustando alguns fios que se mantinham rebeldes; fiz da ausculta cardíaca um acesso amoroso ao seu coração e da palpação dos pulsos a conexão entre a vida que em nós duas existia. Veio-me à mente a saudade que sentia das pessoas que amo e que talvez envolvesse aquela senhora, já próxima aos seus 70 anos de vida terrena. Fiz uma prece enquanto verificava sua perfusão periférica em seus dedos e, de mãos dadas, disse a ela em pensamento que ela não estava sozinha. Eu sabia que aquele encontro mudaria tudo, e hoje, algumas semanas depois, eu entendi ao ouvir uma voz: “Mulher, eis aqui o teu filho. Discípulo, eis aqui tua mãe”.

Não havia mais nada a ser dito, não havia mensagem mais clara. Ouvi o meu chamado, o convite ao testemunho e à ação. Na voz do Mestre, a inconfundível misericórdia e o alento ao mais aflito e saudoso dos corações. Por muitos meses, senti-me incapaz, pouco preparada para ser médica e fugindo das funções diretamente assistenciais o tanto que me era possível, mas agora eu sei que chegou a hora. Deus me deu um empréstimo, meu diploma, e os juros que me cobra são ínfimos se comparados a tudo o que me proveu. Eu recebi Seu boleto e, nele, o valor que consta é o de multiplicar o amor em cuidado, esse amor que não dificilmente brota ao olhar para cada ser que jaz em leitos de aflição.

Ana Luiza Abicalil Momi é médica residente de Medicina Física e Reabilitação, coordenadora médica do Departamento Acadêmico da AME-SP e membro do Departamento de Ensino da AME-SP.

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