Desastres naturais: o que eles têm a nos ensinar?

Imagem de casas inundadas por inundações e pessoas à espera de resgate
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Logo nos primeiros dias de 2022, imagens do desabamento de uma enorme estrutura rochosa sobre lanchas na região de Capitólio, em Minas Gerais, rodaram o Brasil e o mundo, deixando espectadores estarrecidos com o acontecimento, que contabilizou 10 mortos e 32 feridos. Não bastasse a desoladora tragédia do desmoronamento, mais uma vez iniciamos um novo ano assistindo cenas tristes de pessoas perdendo entes queridos em enchentes sem precedentes que atingiram, principalmente, Minas Gerais e Bahia, além de incidentes fatais ocasionados pelas chuvas em outros estados brasileiros.

Passado o choque inicial e a indignação que acontecimentos desse porte nos despertam, a Doutrina Espírita nos convoca para reflexões mais profundas sobre os porquês dos desígnios do nosso Criador. Na questão n. 737 de O livro dos Espíritos, encontramos Kardec perguntando ao plano maior: “Com que fim Deus fere a Humanidade com flagelos destruidores? Para fazê-la progredir mais depressa”.

Em podcast da Folha Espírita disponibilizado em suas plataformas digitais, a bióloga e educadora ambiental Gabrielle da Rosa (foto) falou, à luz da Doutrina Espírita, sobre a reação da sociedade quando ocorrem tragédias e desastres naturais.

Desastres naturais despertam a fé nas pessoas

Não foram poucas as vezes que filósofos previram que a religião morreria à medida que as sociedades se modernizassem. As palavras de Gabrielle, porém, nos remetem para uma realidade completamente diferente, em que percebemos que a ocorrência de tragédias naturais faz com que a fé se manifeste em uma de suas nuances mais significativas, que é a caridade, virtude que desempenha um papel tão importante e que nenhuma modernização consegue substituir. E é assim que, perante situações limítrofes como um desabamento, uma enchente ou um rompimento de barragem, como o ocorrido em Brumadinho (MG), em 2019, a capacidade e a rapidez com as quais o ser humano se mobiliza para ajudar o próximo fazem com que a máxima da Doutrina Espírita, “fora da caridade não há salvação”, se materialize diante de nossos olhos como uma radiante luz no fim do túnel.

Uma pesquisa publicada pelo Economic Journal, da Universidade de Oxford, em outubro de 2019, indicou que as pessoas se tornam mais religiosas quando atingidas por desastres naturais. Dados levantados pela publicação afirmam que em momentos de tristeza ou tragédias coletivas, o ser humano se revela mais religioso, busca conforto no divino e afirma que Deus é importante em sua vida. Esse aumento da religiosidade média ocorre em todos os continentes, para pessoas pertencentes a todas as religiões, grupos de renda e de todas as formações educacionais.

“O ser humano tem evoluído. Se pensarmos numa situação mais macro, percebemos que nos dias de hoje a sociedade se comove muito mais com essa situação. Se pensarmos há 100 anos, as tragédias seriam mais uma fatalidade, e as pessoas não se envolveriam tanto. Hoje temos uma mobilização social, com diversos grupos se reunindo para recolher donativos, alimentos, pessoas dedicadas ao trabalho de resgates das vítimas. Temos então pequenas chamas de caridade que esses momentos despertam na sociedade. Estamos muito longe do ideal. Depois de tantos episódios de chuvas e deslizamentos de terra, nós não evitamos essas tragédias, mas percebemos que a sociedade está cada vez mais cansada dessa situação, cobrando mais, se indignando mais. Trata-se de um processo de aprendizado. Kardec pergunta sobre Deus ferir e fala também que Deus é amor. É como se fosse aquele Pai que está dando uma lição dura num filho. E nós precisamos aprender e iremos reviver esses ciclos até entendermos que não se trata de reagir, mas, sim, agir antes de esses desastres naturais acontecerem”, afirma Gabrielle.

Pesquisa publicada no Economic Journal: Desastres naturais tornam as pessoas mais religiosas

Natureza é um ser vivo e precisa ser respeitada como tal

Em momentos de grande dor e tensão, como durante desastres naturais, começamos a classificar tais situações como um castigo cruel proveniente da natureza. A questão n. 728 de O livro dos Espíritos nos coloca diante da seguinte questão: “É Lei da Natureza a destruição?” A palavra dos Espíritos explana com clareza que as catástrofes acontecem para promover uma renovação necessária. Gabrielle Rosa esclarece sobre esse tema: “desde o início da civilização, criou-se o mito de que a natureza é perigosa e destruidora. Infelizmente, estamos acostumados a entender a destruição como uma coisa ruim, e esse pensamento nos faz sentir muito medo dela. Eu gosto mais de definir como uma lei de transformação, porque a transformação pode ser tanto para o bem quanto para o mal. A lei da natureza busca essa transformação, e essas catástrofes procuram trazer uma transformação social e moral. Nesses momentos, a espiritualidade diz assim: ‘A sociedade está acomodada, a água ficou parada, e é preciso renovar essa sociedade, fazer com que as pessoas se despertem a olhar para o próximo, olhar para o lado para entender que não estão sozinhas no planeta’. O planeta não é um local onde o ser humano pode viver sozinho, vivemos em rede com a natureza, dependemos da natureza e de tudo o que Deus colocou lá. Catástrofes, eventos naturais, tsunamis e grandes incêndios que aconteceram no ano passado vêm fazendo com que a gente saia da zona de conforto social e moral e passe realmente a olhar para o lado. Existem dois caminhos: ou seguimos devagarinho, fingindo que não é com a gente, ou entendemos que temos um papel fundamental na transformação do planeta e que esses eventos naturais se tornam catástrofes quando eles impactam a vida humana, e eles impactam a vida humana porque precisamos aprender mais alguma coisa com eles. Se continuarmos apenas reagindo a essas catástrofes, isso indica que não entendemos o objetivo principal, que é evitar essas tragédias e, principalmente, salvar vidas humanas.

Precisamos entender que sempre que essas tragédias envolvem situações que poderiam ter sido evitadas, nós temos uma responsabilidade por cada vida perdida”, avalia a bióloga.

Ela continua: “a natureza não é vingativa, a vingança é um sentimento humano. Vamos pensar que a natureza é sempre onde Deus nos acolhe, e a gente tem na natureza aquele momento do colo divino. Quando estamos estressados, cansados, a gente quer um ambiente harmonioso, limpo e agradável, e a natureza tem tudo isso para oferecer para a gente. Precisamos pensar em utilizar a natureza com sabedoria. É isso que a lei de destruição vem nos falando, é isso que toda a biografia espírita nos traz a todo momento, falando que a natureza está ali para nosso uso, e não para nosso abuso. É preciso realmente refletir se eu posso ter uma consciência humana mais apurada neste momento que estamos vivendo, que o planeta está sendo chamado a essas decisões de cuidar do próximo, cuidar da gente enquanto ser humano, cuidar da natureza, e que a gente não seja escândalo. O escândalo vai vir, mas a gente pode evitar que essas tragédias tomem proporções cada vez maiores e que a gente possa confiar na espiritualidade, pois o plano deles está bem traçado, a gente só não pode forçar muito a barra”, completa.

Precisamos agir, e não apenas reagir

A reflexão levantada pela educadora ambiental nos leva a entender que o papel correto do homem seria agir para impedir tais acontecimentos, e não somente reagir após o pior acontecer. “No caso do Capitólio, por exemplo, se houvesse uma fiscalização para garantir a segurança nas áreas que rodeiam o lugar, jamais uma catástrofe de tamanha magnitude teria acontecido. Somente depois de contabilizarmos 10 mortos naquele fatídico sábado, quando turistas morreram durante um passeio pelo lago de furnas, que mais de 300 áreas passaram a ser mapeadas para verificação de segurança. E mais uma vez voltamos à velha realidade de que sempre é preciso acontecer algo grave para que providências sejam tomadas. Se as devidas vistorias tivessem sido feitas naquelas pedras, provavelmente aquele acidente teria sido evitado”, analisa.

“Por diversos momentos, a espiritualidade nos alerta para olharmos por esses ambientes. Geólogos já vinham alertando que ambientes como os da região de Capitólio precisavam ser mais bem vistoriados, mas ninguém deu voz a esses alertas”, relembra Gabrielle.

A presença de Deus

Não podemos seguir outorgando a Deus tudo aquilo que nos é desconhecido, nem culpando as forças da natureza por acontecimentos que o homem diz não saber explicar. Mais uma vez, recorremos à obra O livro dos Espíritos, na pergunta 4, em que o Codificador da Doutrina nos explica como reconhecer a presença de Deus, dizendo que basta olhar para tudo aquilo que não é feito pelo homem, tudo aquilo que o homem não causou.

“A natureza é um exemplo vivo de algo que o homem não fez, que já estava pronto e seguiu se aprimorando e reagindo a tudo o que acontece em seu redor. Se tivéssemos uma visão muito mais aprimorada da realizada e da própria concepção de Deus, entenderíamos que não há nada de errado com ela, que ela é perfeita por ser a expressão do seu Criador, daquele que nos ama e nos coloca diante de todas as ferramentas para que possamos evoluir. Infelizmente, apesar de todos esses conceitos serem tão claros, muitos ainda seguem se referindo à figura de Deus como um punidor”, afirma a bióloga.

Devemos estar atentos aos sinais

No capítulo IX de O livro dos Espíritos, questão n. 536, os benfeitores do Plano Maior esclarecem a Kardec a questão da ação dos Espíritos nos fenômenos da natureza. Diante dos desastres naturais, como avalanches, secas, terremotos, enchentes, ciclones, tornados, tsunamis, erupções vulcânicas e incêndios florestais que constantemente têm afetado o nosso planeta, um outro questionamento que povoa nossos pensamentos com frequência é sobre a capacidade de os Espíritos impedirem alguma tragédia. Gabrielle Rosa alerta que tudo vai depender do mérito construído por cada um de nós. Nestes tempos de transição planetária, a Terra passa por uma transformação física para que possa se acomodar na nova era, portanto é fundamental que estejamos preparados para esse momento.

“Os Espíritos podem, sim, intervir em algumas situações, e temos diversos relatos de pessoas que foram retiradas de locais onde aconteceram tragédias, que perderam um voo e sobreviveram a um acidente aéreo, e tudo sempre vai depender dos nossos méritos. Outro ponto a ser entendido é que catástrofes podem ser evitadas desde que estejamos sempre atentos aos sinais”, lembra.

A espiritualidade nos acompanha nesse processo de transição para um planeta de regeneração, e assim como podemos contar com benfeitores oriundos das egrégoras do que vibram o bem, também existe uma ala espiritual que não quer que isso aconteça. São eles Espíritos que não conseguiram alcançar a devida evolução e lutam contra essa transformação porque sabem que serão retirados do planeta. Cabe a cada um de nós vigiarmos nossas vibrações e nossos atos, estarmos sempre alertas ao excesso de vaidade, de orgulho, sempre atentos para não abrirmos espaço para que essas energias inferiores atuem manipulando cada vez mais as situações a favor da violência, da guerra e do mal.

“Essa atuação tem dificultado o processo de regeneração do planeta. Acredito muito que estamos vivenciando um momento de retirada desses Espíritos da aproximação da Terra. A crosta terrena tem sido varrida, e esses Espíritos estão sendo conduzidos para outros planetas onde possam continuar seu processo de evolução e crescimento distantes da Terra. A espiritualidade explica que nossa relação com a matéria vai ser mais fina, nos tornaremos menos pesados, menos densos. E nosso planeta precisa estar pronto para isso. Podemos dizer que as tragédias vividas pela humanidade são acomodações do planeta para que a regeneração aconteça”, explica Gabrielle.

Onde estou jogando meu lixo?

O planeta precisa se adaptar para isso. Viveremos outras catástrofes, mas podemos torná-las menores, como, por exemplo, não empurrando para zonas perigosas um monte de favelas, construções onde uma parcela da sociedade vive sem condições de vida, refém dessas situações. A resposta é clara. O livro dos Espíritos, na questão n. 734, fala que o abuso não é um direito da gente. E a gente ainda vive a era dos abusos, do autoconsumismo, com as pessoas querendo sempre trocar de celular, de carro, comprar roupa nova, calçado novo. Vivemos a era do consumo exagerado e dos abusos. E o abuso não é um direito, o excesso e a acumulação não são naturais. Grande parte dessas catástrofes e desastres naturais representam consequência do modelo de vida que escolhemos para viver aqui na Terra, de como a gente está morando, onde estamos desmatando e jogando o nosso lixo.

“Estamos num delicado momento da encruzilhada: ou tomamos uma decisão ou corremos o risco de termos uma velhice extremamente difícil.”

“Eu trabalho com conservação porque estou preocupada também com o meu futuro, o futuro dos meus filhos, dos meus netos, e estamos induzindo para o futuro uma vida extremamente difícil. Por mais que os Espíritos nos falem que com a regeneração o mundo será muito melhor, o nosso livre-arbítrio pode tornar esse momento mais distante e fazer com que a gente viva um período de extrema dificuldade, fome, escassez de água, falta de acesso a recursos. A natureza é nosso maior recurso, e a gente não percebe isso. Gasta-se muito com tecnologia e não se consegue levar água para todos no planeta”.

A Lei de Conservação e as responsabilidades de cada um

Durante a gravação do podcast “Catástrofes naturais sob a ótica espírita”, um dos participantes, Conrado Santos, relembrou uma questão levantada pela dra. Irvênia Prada sobre o momento da transição planetária: “Qual será a métrica que a espiritualidade utilizará para decidir aqueles que permanecerão num planeta de regeneração e aqueles que recomeçarão sua jornada em um outro planeta?” O capítulo 18 de A Gênese nos responde que ficarão apenas aqueles em que a ignorância se sobrepor ao mal, para que aqueles que tenham conhecimento possam ajudá-los a vencer essa ignorância. Entretanto que fique claro que, onde há o conhecimento, não se pode justificar a ignorância. Nos últimos anos, a informação tem nos proporcionado esse despertar, e cabe a cada um de nós saber o que fazer com ela.

Uma das leis morais que os Espíritos nos trouxeram é a Lei de Conservação, presente no capítulo 5 de O Evangelho segundo o Espiritismo. Nesse capítulo, Kardec pergunta sobre o limite da condição de gozar dos recursos naturais. A resposta dos Espíritos é clara: “Traçou, para vos indicar o limite do necessário. Mas, pelos vossos excessos, chegais à saciedade e vos punis a vós mesmos”.

O desmatamento sem controle, a poluição, o consumo desenfreado, a exploração comercial realizada de maneira irresponsável e a ganância sem limites são apenas alguns dos vilões dos casos de desastres naturais que, estarrecidos, assistimos diariamente nos noticiários ao redor do mundo. A moral dessa história é que o homem precisa aprender a agir para evitar que essas catástrofes sigam machucando nosso planeta e fazendo vítimas. É cada vez mais importante que a sociedade se posicione com seriedade, exigindo uma fiscalização coerente e que as leis sejam mais rígidas e se façam cumprir sem exceções, sem privilégios.

Comprometimento e escolhas certas

“Falta a gente a se comprometer mais nas escolhas das lideranças, dos governantes, pois são pessoas que vão responder nessas situações e garantir que não se repitam. E, principalmente, quem tem poder tem uma responsabilidade maior ainda, pois, para quem não tem a ignorância e tem o poder de tomar decisões, a responsabilidade é maior ainda”, destaca a educadora ambiental.

Diante de tantas questões fundamentais e sentindo-nos encurralados perante a irresponsabilidade e a impunidade que tantos males nos causam, uma pergunta segue martelando em nossas mentes: ainda há tempo de consertar tantos desajustes causados pelo homem? Gabrielle responde, deixando uma outra pergunta que precisamos responder com urgência: “Esperamos que sim, porque os Espíritos nos ensinam que chegará o momento em que aqueles que não vibrarem a regeneração serão conduzidos a outro planeta de provas e expiações. Então a pergunta que fica é: onde vocês querem estar nas próximas encarnações?”

** Gabrielle da Rosa é baiana, espírita e atua como educadora ambiental. É mais velha de três irmãos, graduada em Biologia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), pós-graduada em Educação Ambiental e sustentabilidade pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC). Durante a faculdade morou na praia para estudar baleias, viveu uma experiência na Nova Zelândia e, desde 2012, é coordenadora de educação ambiental do Parque Vida Cerrado. Ela se define como “educadora ambiental por natureza” e encontrou na Doutrina Espírita a sintonia perfeita com sua jornada profissional. É facilitadora dos grupos de estudos sistematizados da Sociedade Espírita Caminho de Luz, na Bahia.

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