Dois papas

“Uma resposta certa para tudo”

Estava “zapeando” meu catálogo da Netflix e me deparei com um título interessante: Dois Papas. Deixei de lado as primeiras impressões, afinal não precisa ser católico, religioso ou espírita para poder desfrutar de um filme por duas horas. Basta assistir, sem bandeiras, e investir a sua atenção numa aula diferente, uma aula sobre usar aquilo que, sem falsa modéstia, venho exercitando diariamente na minha prática profissional e religiosa: a habilidade de ouvir. Porque, quando se ouve, é que a comunicação começa.

O longa dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, de Cidade de Deus e Ensaio sobre a cegueira, a partir do roteiro do neozelandês Anthony McCarten, de A hora mais escura e A teoria de tudo, gira em torno de uma conversa fictícia entre o cardeal de Buenos Aires e o bispo de Roma pouco antes da renúncia do segundo, em fevereiro de 2013. O filme, que ganhou diversos prêmios, é estrelado por Anthony Hopkins e Jonathan Pryce.

Segundo a interpretação do roteirista, e que me tocou profundamente:

“Como estamos precisando reaprender a dialogar, não é mesmo? Se fosse para fazer o exercício escolar da ‘moral da história’, pra mim, Dois Papas fala sobre a importância do resgate de algo muito básico: um fala, o outro escuta, e vice-versa. É bom que as pessoas pensem diferente umas das outras, mas seria bom também se pudéssemos ouvir e trocar ideias com quem analisa o mundo e as coisas por outro ponto de vista. Talvez seja disso que o mundo mais precisa hoje.”

“Mas não acredito que o filme tenha sido feito para isso: ganhar prêmios. Afinal de contas, se tem alguém premiado nessa parada somos nós, espectadores, que temos a oportunidade de refletir sobre questões tão importantes do nosso tempo a partir de uma experiência ficcional envolvendo figuras que chegaram ao topo do poder.”

Dois Papas não é um filme sobre religião e acho que nem um filme religioso. É, sim, sobre os homens. O humano.”

Empatia e diálogo não violento

Pensando em não só trazer bons momentos de diversão, ou a indicação de um bom filme ou um bom livro, lembrei que, ao longo da história, grandes pensadores deixaram exemplos de empatia e comunicação não violenta, na prática, para nossa reflexão.

O termo alemão “Einfühlung” foi usado no sentido estético pela primeira vez no início do século XX, pelo psicólogo alemão Theodor Lipps (foto) (1851-1914), “para indicar a relação entre o artista e o espectador que projeta a si mesmo na obra de arte”. O termo advém do grego empatheia, formado por “en-”, “em”, mais “pathos”, “emoção, sentimento”, e Aristóteles usava o termo “em-pathein” no sentido de “animação do inanimado”.

 “Ahimsa”, conceito disseminado por Gandhi (foto) na década de 1930, é mais do que somente ausência de violência.Traduzindo em poucas palavras, “Ahimsa” baseia-se em atitudes como não agredir, não matar, não machucar, ser gentil, manter a amizade e consideração cuidadosa por outras pessoasenão causar nenhum tipo de dor a nenhum ser vivo.

Martin Luther King Jr. (foto), pastor protestante, ativista político e líder do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, com uma campanha de não violência e de amor ao próximo na década de 1960, disse: “A civilização e a violência são conceitos contrários. Os negros dos Estados Unidos, seguindo o povo da Índia, demonstraram que a não violência não é uma passividade estéril, e sim uma poderosa força moral que leva à transformação social”.

 A constatação é do pesquisador britânico Dominic Barter, apoiador de diversos movimentos que visam construir sistemas sociais dialógicos ao redor do mundo, principalmente no Brasil: “Se queremos que as pessoas abram mão de atos que machucam e que violam, isso deve ocorrer não por um processo de educação forçada – que é outra dinâmica autoritária para contrapor a que está em curso –, mas porque a pessoa enxerga que o ato de violência não vai cuidar do que ela quer que seja cuidado”.

A vida de Madiba (foto) (Nelson Mandela), que viveu em um regime de segregação racial, sendo ele responsável pela refundação da África do Sul como uma sociedade multiétnica, era regida pela empatia (uma das premissas da filosofia Ubuntu), conceito que ajudou a espalhar pelo mundo. “Ninguém nasce com ódio, é algo que se aprende, que é passado de geração para geração, de pais para filhos e não se questiona. É importante não ignorar. É preciso ouvir a lógica da narrativa. E se eu ouço o outro, o outro tem de me ouvir a mim. Os dois temos uma lógica, não somos loucos”.

Segundo o codificador Allan Kardec, foto) no século XIX, os Espíritos comunicantes fizeram questão de frisar a importância do diálogo e da cordialidade, chegando a exortar que: “a censura lançada sobre a conduta de outrem pode ter dois motivos: reprimir o mal ou desacreditar a pessoa cujos atos se criticam: este último motivo não tem jamais desculpa, porque é da maledicência e da maldade. O primeiro pode ser louvável, e torna-se mesmo um dever em certos casos, uma vez que disso deve resultar um bem, e sem isso o mal não seria jamais reprimido na sociedade; o homem, aliás, não deve ajudar o progresso de seu semelhante?” (O Evangelho segundo o Espiritismo).

Francisco, o querido Chico Xavier (foto), por meio da sua maneira amorosa de se comunicar e pelas tantas obras psicografadas, também ressaltou a importância de uma comunicação fraternal. O Espírito Emmanuel, por exemplo, frisou que as “palavras são agentes na construção de todos os edifícios da vida. Lancemo-las, na direção dos outros, com equilíbrio e tolerância com que desejamos venham elas até nós”.

O Espírito André Luiz (foto), igualmente, registrou em diversas obras a responsabilidade de cada ser com a comunicação, chegando a lamentar o mau uso que se tem feito das palavras. Vejamos: “É lamentável se dê tão escassa atenção, na Crosta da Terra, ao poder do verbo, atualmente tão desmoralizado entre os homens. Nas mais respeitáveis instituições do mundo carnal, […] metade do tempo é despendida inutilmente, através de conversações ociosas e inoportunas. O verbo cria imagens vivas, […] produzindo consequências boas ou más, segundo a sua origem. Essas formas naturalmente vivem e proliferam e, considerando-se a inferioridade dos desejos […], semelhantes criações temporárias não se destinam senão a serviços destruidores, através de atritos formidáveis, se bem que invisíveis”.

Assista:

Dois Papas | Teaser oficial | Netflix

Five – Cinco crianças, cinco religiões

Referências

DIVERSOS AUTORES. Coleção Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

EMMANUEL (Espírito). Livro da esperança. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. São Paulo: Boa Nova, 2020.

FIORI, J. L. Sobre a paz. Petrópolis, RJ: Vozes, 2021.

______. A Síndrome de Babel e a disputa do poder global. Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.

______. Sobre a guerra. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.

HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. São Paulo: Cia. das Letras, 2020.

KARDEC, A. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

______. O livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília, DF: FEB, 2013.

LUIZ, A. (Espírito). Obreiros da vida eterna. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 35. ed. Brasília, DF: FEB, 2020.

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