Dos castelos infantis ao deserto dos adultos

“383. Qual, para este, a utilidade de passar pelo estado de infância? Encarnado, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo” (O livro dos Espíritos,  cap. VII)

“Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais…” (Belchior).

A canção composta pelo saudoso e vanguardista artista Belchior é o nosso ponto de partida para as reflexões que iremos propor ao longo deste texto. Gostaria de combinar com o leitor que não estou me dirigindo única e exclusivamente aos pais, mas a todos os educadores, aqueles que cumprem o papel de auxiliar na formação de qualquer criança, portanto, em alguma medida, todos somos educadores.

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Herdeiros dos traumas dos seus pais

O conhecimento humano não é estático e concreto, pelo contrário, aprender é um constante metamorfosear de conceitos no incessante aprendizado da vida. Aquele que não se predispõe a aceitar a realidade das mutações pedagógicas está fadado ao isolamento e a alimentar discursos autoritários e preconceituosos. Não obstante isso seja realidade, muitos educadores se mantêm na condição de herdeiros dos traumas dos seus pais. De certa forma, todos somos educados por uma considerável porcentagem de conflitos emocionais que os nossos educadores herdaram dos nossos avós.

Dentre esses atavismos educativos está a dificuldade em se compreender que todo ser humano vivencia suas dores psíquicas, e isso independe da idade. Dessa forma, a maioria de nós cresce engasgado por palavras não ditas, sentimentos angustiantes e o pior dos sofrimentos: a proibição de falar sobre a dor que nos aturde. Grande parte das pessoas considera pueril qualquer manifestação de sofrimento vindo da criança, então vamos barganhando brinquedos e guloseimas, acreditando que a ela bastam essas coisas para seguir vivendo dentro daquele mundo de fadas e heróis, princesas e reis onde a dor não exista.

Quando a criança sofre

Muitos pais compreendem que os sofrimentos da criança se manifestem apenas nos estados febris ou de enfermidades físicas evidentes, que são as dores que se podem constatar por termômetros e exames laboratoriais. Todo ser humano saudável precisa do equilíbrio nas três instâncias que caracterizam sua realidade, a instância física, a mental e a espiritual.

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Desde cedo nos acostumamos a trocar carências por objetos, haja vista a utilidade da chupeta e de toda sorte de recursos que utilizamos para aquietar a criança, que pode estar com fome e mal-acostumada com o seio da mãe a toda hora, ou sofre porque o pai ou a mãe tem o mau vezo de se manifestar aos berros, próximo ao ouvido infantil.

Pais inseguros, pais medrosos, pais preconceituosos

É claro que falo aqui de um exemplo muito simples, mas é preciso notar que tudo que acontece dentro do campo de percepção da criança termina por afetar o seu desenvolvimento emocional. Temos práticas e hábitos herdados dos nossos pais e que passamos para os nossos filhos, que por sua vez passarão para os nossos netos. Pais inseguros transmitem insegurança; pais medrosos transmitem medo; pais preconceituosos transmitem preconceito.

É claro que essa realidade não significa uma condenação à repetição desses modelos que castram e inibem o desenvolvimento saudável das crianças. No entanto, é muito importante refletir no quanto contribuímos para as dores psíquicas dos nossos filhos quando utilizamos de conceitos educativos que padronizam e formatam o comportamento de um ser que está sendo confrontado com alguns valores que afrontam sua essência.

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Sem manual de instrução

Evidentemente que as crianças não trazem uma bula quando nascem, todavia, é preciso refletir se o processo educativo de qualquer pessoa, que é única e singular, deve ser o mesmo dos seus pais. A intenção dos pais teoricamente é a melhor, mas até que ponto essa intenção não está eivada de conflitos e dores herdados, ou desenvolvidos por uma prática educativa limitante? Enxergamos de fato a criança como ela é, ou vemos o que projetamos nela e idealizamos como ser?

Cada ser humano é singular, portanto, tem necessidades emocionais que os diferenciam uns dos outros. Dois filhos dos mesmos pais apresentam realidades cognitivas muitas vezes antagônicas e desafiadoras, ou seja, a capacidade de compreender a vida é bem diferente entre ambos e muito diversa da compreensão dos seus educadores.

Existe uma solução mágica para lidar com esse desafio? É claro que não. Eu diria que educar se aprende educando, e não repetindo modelos carregados de autoritarismo e verdades absolutas. O mais importante é nos indagarmos se não estamos vivendo e passando para os nossos filhos os traumas e as visões equivocadas herdadas dos nossos pais.

Permissividade excessiva = dependência,

A criança não traz em seu psiquismo vetores que possam lhe servir para a tomada de qualquer decisão, pois esses vetores serão construídos consoante seu desenvolvimento. A princípio, ela busca apenas a satisfação das suas necessidades básicas na nutrição do corpo e na nutrição afetiva, e essas duas fontes, inicialmente, são ofertadas apenas pela mãe.

É da sua relação com o mundo exterior que seus vetores psicológicos vão se desenvolvendo, portanto, sua subjetividade vai sendo constituída. A permissividade excessiva gera dependência, e como a criança não sabe expressar seus sentimentos, ela grita e chora para ter suas necessidades atendidas. O universo psíquico dos pais se entrelaça com o da criança, que em dado momento tem necessidade de limites e frustrações que um simples “não” pode oferecer. É a partir da condução educativa da criança, que fica à mercê do mundo dos adultos, que começam a se estabelecer os primeiros choques psíquicos.

Os pais começam a acreditar que a criança alimentada e limpa tem suas “únicas” necessidades atendidas, e isso não é verdade. Se o comprometimento educativo dos pais se mostra apenas dentro do atendimento daquilo que é básico para a satisfação das carências orgânicas, a ruptura acontece, e os velhos modelos educativos são priorizados na relação entre pais e filhos. E dentro dessa realidade, a orfandade emocional passa a ser uma condição da criança, que é vista como um ser que necessita de coisas para não dar trabalho. Inicia-se, assim, a transferência dos traumas e conflitos de maneira silenciosa e imperceptível.

É evidente que os pais têm seus compromissos e estes devem ser atendidos, mas quando os compromissos forem atendidos, é preciso de fato que os pais estejam junto aos seus filhos; mais do que isso, é imprescindível que os pais estejam dentro da vida das crianças. Os sofrimentos e traumas se instalam pela distância quilométrica que pode existir mesmo que pais e filhos estejam dentro de uma mesma casa. O silêncio também traumatiza, a ausência gera desprezo, a falta de interesse revela desamor. Não duvide que a criança sofra muito.

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