Educar com firmeza e gentileza, o caminho do terceiro milênio

“De onde tiramos a ideia absurda de que para levar as crianças a agirem melhor, primeiro nós temos que fazê-las se sentirem pior?” (Jane Nelsen). Em O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo XIV, “Honra teu pai e tua mãe”, temos uma série de orientações e reflexões a respeito da educação dos filhos, mas gostaria de destacar em especial o item 9: “Ó, espiritas! Compreendei hoje o grande papel da humanidade; compreendei que quando produzis um corpo, a alma que nele reencarna vem do espaço para progredir. Conhecei vossos deveres, e colocai todo vosso amor em reaproximar essa alma de Deus”.

Analisar detidamente esse trecho nos revela pontos importantes em relação à educação de nossos filhos. Primeiramente, precisamos ter claro que eles são Espíritos reencarnados, e como tal possuem hábitos, tendências, construções de outras encarnações. Educar as crianças com o olhar do Espírito nos coloca em outro patamar de responsabilidade. As crianças não são apenas seres fofinhos, engraçadinhos, que existem apenas para alegrar nossa existência ou para completar um desejo ou um sonho nosso. São Espíritos que recebemos com o dever de educá-los para Deus. Mas como fazê-lo?

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A frase citada acima da dra. Jane Nelsen nos faz pensar: como queremos que as crianças ajam melhor fazendo-as sentir-se pior? Vamos analisar um exemplo: a criança não quer dividir seu brinquedo, imediatamente nós (com medo de que ela se torne egoísta) obrigamos que ela divida. E para garantir ainda damos um belo sermão sobre o egoísmo. Será que, verdadeiramente, essa criança está aprendendo a não ser egoísta? Ou está pensando em como brincar escondido da próxima vez para não ter que dividir o brinquedo? Também ela pode pensar que realmente é egoísta e passar a acreditar nisso e não ver outra possibilidade de agir. Sejamos sinceros, lembremos de quando éramos crianças e de como nos sentíamos.

Ao agir dessa maneira, estamos respeitando o Espírito que está reencarnado em corpo infantil ou apenas invalidando o que sente e o que pensa? Para educar como Espírito, precisamos descontruir muitas concepções tradicionais de educar. Observar Jesus como nosso maior educador é um grande exercício dessa desconstrução. Jesus pauta sua doutrina na lição do amor, o tempo todo do seu apostolado ele ensina as pessoas através de uma postura firme e gentil. Sempre que eu leio os livros em que descrevem as passagens de Jesus me admira a maneira como os diálogos, as orientações de Jesus se iniciam, quase sempre temos: com um sorriso nos lábios respondeu, com olhar sereno e compassivo, como podemos ver nesse exemplo onde Levi relata para Jesus que desdenhou do auxílio de pessoas que ele considerava incapazes de trabalhar para a Boa Nova:

“– É justo esperemos alguma coisa dos pescadores de Cafarnaum; são homens fortes e desassombrados e o bom trabalho lhes cabe. Não vejo, porém, como aceitar a contribuição desses desafortunados e vencidos que nos procuram.

Jesus fixou o olhar no discípulo com profundo desvelo e falou com bondade, batendo-lhe levemente no ombro:

– No entanto, Levi, precisamos amar e aceitar a preciosa colaboração dos vencidos do mundo!…” (Humberto de Campos, Boa Nova).

“Vamos lembrar que Jesus não educou através de punições ou recompensas, ele sempre estabelecia uma conexão legítima com cada um que cruzasse o seu caminho. O afeto, o carinho, a amorosidade são pontos essenciais de uma educação para o terceiro milênio.”

Vamos observar essa postura do Cristo, ele foi gentil e firme ao mesmo tempo. Em nenhum momento para ensinar o que era preciso para Levi Jesus precisou fazê-lo sentir-se mal. Na tradição espírita, também temos outros exemplos dessa postura firme e gentil. Por exemplo, quando lemos o romance Renúncia, constantemente temos referência da postura de Alcíone, sempre firme e gentil. Outros exemplos também nos tocam, Eurípedes Barsanulfo, exímio educador que dedica sua energia à educação dos Espíritos, também sempre nos apresenta essa postura. Poderia ficar aqui por muito tempo descrevendo educadores, histórias, passagem em que a postura do educador é um exemplo de como devemos agir.

Entretanto, ainda imaturos espiritualmente, observamos esses exemplos e não os colocamos em prática. Eu mesma me via nessa situação (claro, ainda me vejo). Tinha certeza do que não era educar, porém também não conhecia outros caminhos. Ao estudar a respeito da Disciplina Positiva, encontrei ferramentas que me auxiliaram a encontrar esse caminho de firmeza e de gentileza. Também encontrei tantos pontos em comum com os princípios espírita-cristãos que mergulhei nesse universo. Isso apenas me comprova que realmente estamos em transição planetária, onde novas ideias estão chegando por toda parte do globo em todas as áreas do conhecimento alinhadas com um Planeta de Regeneração. É também através desse movimento que percebo o critério utilizado por Allan Kardec ao codificar a Doutrina Espírita: a universalidade dos ensinamentos nos trazendo o que é a verdade.

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Dignidade e respeito

A Disciplina Positiva foi desenvolvida pela dra. Jane Nelsen baseando-se no trabalho de Alfred Adler e Rudolf Dreikurs, ambos psiquiatras vienenses. A ideia de que todo ser humano é igualmente merecedor de dignidade e respeito é central para a filosofia positiva. Adler acreditava que as crianças precisavam tanto de ordem (estrutura e responsabilidade) quanto de liberdade para que se tornassem cidadãos responsáveis e colaboradores em suas comunidades.

Agora, vamos voltar ao exemplo do brinquedo que a criança não quer dividir. Já vimos que as formas que tradicionalmente lidamos com essa situação não vão auxiliar esse Espírito (a criança) e se tornar menos egoísta. Então o que fazer? Primeiro nos conectar com ela, ouvindo: filho você não quer emprestar o brinquedo? Você sabe me dizer o motivo? Então o que podemos fazer para solucionar esse problema? Depois que você brincar, você poderá emprestar? Observe, não há sermão. Não há constrangimento.

Mas e a questão do egoísmo? Ela vai aprender não ser egoísta observando no dia a dia os exemplos no seu lar, com as pessoas com as quais ela convive. Ela vai aprender a olhar para o outro quando seus pais a ensinarem colaborar em algo útil (tirar os pratos da mesa, guardar suas roupas, arrumar a sua cama). Outra ferramenta é levar a criança para fazer o bem, assim ela vai conviver diariamente com essas situações e vai moldando suas tendências e características.

Outro aprendizado que a Disciplina Positiva me trouxe foi a pausa positiva. Quantas vezes gritamos com as crianças porque estamos no modo reativo? Jane Nelsen nos convida a adotar a pausa positiva no nosso dia a dia, que nada mais é do que dar um tempo, esperar os ânimos se acalmarem (principalmente o nosso) para depois voltarmos e pensar na solução do problema. Ao fazermos isso, as crianças também vão aprendendo a utilizar essa ferramenta.

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Exemplo de Jesus

Na passagem de Jesus com a mulher adúltera, temos o exemplo do uso da pausa positiva. Sempre me chamou a atenção a parte que descreve Jesus se agachando e escrevendo na areia antes de dar uma resposta às pessoas. Aplicando isso à disciplina positiva, podemos dizer que Jesus usou a “pausa positiva”, que implica em nos acalmar (claro que Jesus não precisava disso, mas as pessoas envolvidas na situação sim), retomar nossa razão e pensar na melhor opção, no lugar de apenas reagir.

Novamente, como fazer? Colocando em prática, nos tornando conscientes do trabalho que estamos fazendo: educar uma criança, educar um ser humano, enfim, educar um Espírito. É inegável que as crianças de hoje em dia são diferentes das do passado, portanto as formas comuns de educar não são mais tão eficientes quanto eram antes. Para podermos educar essa nova geração, precisamos passar pelo caminho do autoconhecimento, descobrir o que nos descontrola e aprender formas de retomar nosso equilíbrio. Quando gritamos, xingamos, colocamos de castigo, punimos as crianças é pelo fato de não sabermos como nos controlar, ainda não nos conhecemos como Espíritos que somos e quais nossas tendências e hábitos.

Vamos lembrar que Jesus não educou através de punições ou recompensas, ele sempre estabelecia uma conexão legítima com cada um que cruzasse o seu caminho. O afeto, o carinho e a amorosidade são pontos essenciais de uma educação para o terceiro milênio. Veja bem, anteriormente, com as Leis Mosaicas só era possível educar através da recompensa ou da punição. Jesus veio quebrar esse padrão e nos mostrar a lei de amor. Então, ao educar, garante que a mensagem do amor é clara.

Crianças são excelentes observadoras e péssimas intérpretes. Isso significa que muito do que fazemos para educar nossos filhos em nome do amor, para eles, soa diferente. “Frequentemente atormentamos nossos filhos a fazerem melhor. Nós queremos que eles façam melhor, porque nós os amamos e achamos que eles serão mais felizes se fizerem o que achamos que é bom para eles. Eles geralmente não ouvem que nós queremos que eles façam para o bem deles mesmos. O que eles ouvem é: ‘Nada do que eu faço é bom o suficiente’” (Jane Nelsen, Disciplina positiva).

Seis maneiras de se certificar de que a mensagem de amor esteja clara

A seguir, apresento seis maneiras de se certificar de que a mensagem do amor esteja clara:

  • reserve um tempo especial para passar junto de seu filho;
  • certifique-se de estar no mesmo nível dos olhos ao falar com a criança (se agache na altura dela);
  • valide os sentimentos de seu filho sem resgatar ou consertar (“estou vendo que você está muito bravo”);
  • permita um momento para acalmar as emoções e, em seguida, concentre-se em soluções;
  • dê muitos abraços.

Por último e não menos importante, não queira ser uma mãe ou pai perfeitos. Nossos filhos nos conhecem muito bem, quando escolheram reencarnar conosco tinham consciência de nossas potencialidades e dificuldades. A nossa imperfeição e o nosso esforço para melhorarmos servirão de exemplos firmes e seguros para nossos filhos. Assim, aprendendo juntos, transformando nossos lares, vamos colaborar para o mundo mais respeitoso, mais amoroso… enfim um mundo de regeneração.

Fabiana Guariglia Bassi é educadora parental em Disciplina Positiva.

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