No centro cirúrgico: o amor e a empatia como cura verdadeira

Ricardo Marujo

Tenho como rotina em todas as minhas cirurgias, antes da anestesia, ficar de mãos dadas com o paciente que está deitado na mesa cirúrgica muito estressado e ansioso. Acredito que essa conexão transmita segurança, confiança e um pouco de conforto para ele. Quando estou escovando as mãos, sempre peço para Jesus e para a espiritualidade auxílio e proteção para mim, para a equipe e para o paciente, rogando que a cirurgia transcorra sem intercorrências.

Há alguns anos, fui operar uma paciente que apresentava câncer de mama e com linfonodo axilar palpável, fazendo-nos entender que o caso seria bem difícil de operar, com tempo cirúrgico bem grande, caso ela apresentasse metástase para os linfonodos axilares, além das possibilidades de complicações sérias como necrose de complexo aréolo-mamilar, deiscência de suturas e dificuldades de simetrização.

Essa paciente, de mãos dadas comigo, aguardando o anestesista começar a indução da anestesia geral, abre os olhos, olha para o teto da sala, dá um sorriso confiante e me diz: “olha, dr. Marujo, tem uns 10 médicos aqui para lhe auxiliar na minha cirurgia, eles estão todos aqui em cima […]”. Me arrepiei porque estava tenso com uma cirurgia que tinha tudo para ser muito longa e com complicações bem sérias. Escovando as mãos, também pedi proteção para toda a minha equipe e auxílio para aqueles colegas desencarnados presentes na sala.

Que surpresa agradável! Nada de dificuldade, nada de intercorrências. Que cirurgia tranquila e rápida, com simetrização das mamas muito boa. O exame do nódulo foi negativo para metástase. A paciente acordou muito bem, sem vômitos, sem agitação. foi para a sala de recuperação e de lá para o quarto. Recebeu alta hospitalar à noite.

No primeiro retorno à minha clínica, obviamente perguntei se ela se lembrava  do que tinha falado e visto momentos antes da cirurgia, e ela me relatou tudo exatamente como aconteceu! Disse-me que era espírita e que, pelas minhas atitudes de cirurgião ficando de mãos dadas com ela, antes da cirurgia, teve a certeza de que eu era espiritualizado. Que pelas mãos, eu consegui transmitir-lhe segurança e calma, ajudando a diminuir o estresse muito frequente nesse período que antecede à cirurgia. Confidenciou que poderia me falar o que viu, pois eu entenderia. Tudo aquilo contribuiu para o sucesso da cirurgia.

Nessa minha estrada de 39 anos de formado, pude distinguir três fases distintas da minha relação médico-paciente. Nos primeiros cinco anos, eu olhava o paciente como uma patologia e/ou algum trauma a corrigir. Sempre procurei fazê-lo da mesma forma e com o maior rigor técnico cirúrgico aprendido na universidade.

Nos cinco anos seguintes, estava mais sensibilizado com o sofrimento dos pacientes, principalmente das vítimas de queimaduras, tanto que editei uma cartilha com orientações, que não existem em livros médicos até hoje, sobre o retorno desses pacientes, a maioria crianças, ao lar e ao convívio social. Como conviver com as deformidades e sequelas das queimaduras? Como conviver com a repulsa que a sociedade tem das limitações físicas e estéticas de crianças e pacientes queimados? Como seria a higiene, a hidratação e os cuidados da pele queimada? E o aspecto psicológico deles para evitar depressão, angústia etc.? E a volta deles à escola e/ou ao trabalho? Tudo isso coloquei nessa cartilha que distribuía gratuitamente a todos os pacientes que recebiam alta do Hospital dos Defeitos da Face, onde fui chefe de queimados por cinco anos.

Espiritualidade mais aflorada

Sofri um grave acidente em 2001 e durante os quase dois meses internado no hospital Albert Einstein, acredito que minha espiritualidade se arraigou, pois consegui entender exatamente, e na pele, quais são as demandas, carências e necessidades básicas de um paciente. Deus me concedeu essa oportunidade de aprendizado, de vivência para entender o quanto é importante um médico tratar o paciente globalmente, e não apenas sua patologia. Como foi importante para mim sentir o carinho dos médicos que me operaram, dos clínicos que me cuidaram, do pessoal da enfermagem, dos fisioterapeutas, nutricionistas, enfim. Percebi que essa troca energética nos abastece de confiança, eleva nossos pensamentos, e tudo isso influencia diretamente no tratamento e, por que não, na cura dos pacientes.

Fé e pacientes com força espiritual

Não tenho vidência, mas tenho muita fé, um pouco de sensibilidade e alguma experiência para diferenciar um paciente com força espiritual daqueles chamados “baixo-astral”. Para os primeiros, o tratamento flui naturalmente, a cirurgia é sempre um sucesso, tudo dá certo, pois eles participam ativamente do processo, conectados com a espiritualidade, com pensamentos positivos. Já aqueles que vibram com baixa intensidade e têm pouca fé, devemos ter cuidados redobrados, ficar bem alertas (vigiar). Devemos pedir à espiritualidade proteção (orar) para que o tratamento, a cirurgia, transcorra da melhor forma. Acredito que todos os médicos, e não só os espíritas, deveriam saber tratar o paciente como ser humano integral, inclusive em suas demandas íntimas, e não apenas a sua doença física.

A medicina do futuro, infelizmente, está focada cada vez mais na doença. A relação médico-paciente está acabando. Aquele contato íntimo do olho no olho, um aperto de mãos e um toque no ombro muito confortantes, respeitosos e transmissores de energia e confiança entre os médicos e os pacientes não se vê mais atualmente. Impuseram aos médicos uma “evolução”, como a telemedicina, cirurgia robótica, o cirurgião não toca no paciente, manipula um “joystick”, chips colocados em pacientes para controle de diabetes. Será que estamos evoluindo ou involuindo? Estão se esquecendo das demandas, dos problemas psicológicos mais íntimos que influenciam nas patologias e quase sempre sendo a causa e origem delas.

Nós médicos espíritas devemos nos unir, estudar, publicar os inúmeros casos de patologias curadas por uma relação médico-paciente humanizada, pela fé dos nossos pacientes, demonstrando que por intermédio dessas forças energéticas associadas à conscientização do problema, da patologia, os próprios pacientes conseguirão sua autocura.

Ricardo Marujo é médico formado na USP-RP, cirurgião plástico da retaguarda do Hospital Albert Einstein; pertence ao corpo clínico dos Hospitais Sírio Libanês, Osvaldo Cruz e São Luís; atual responsável pelo Instituto de Saúde da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP)

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