“O juiz e o papagaio” traz reflexão sobre bondade e justiça

livro céu de allah malba taban

De vez em quando, gosto de folhear os livros de Malba Tahan, de uma velha coleção que dei de presente ao meu marido há muito tempo. Malba Tahan é o pseudônimo usado pelo iminente professor de Matemática Julio Cesar de Mello e Souza, brasileiro que nasceu em 1895 na cidade do Rio de Janeiro e faleceu em 1974, tendo escrito várias obras, não somente voltadas à Matemática, mas também diversos contos e fábulas com base na antiga cultura árabe.

Neste artigo, compartilho com os leitores uma fábula intitulada “O juiz e o papagaio”, do livro Céu de Allah.

A opulenta cidade de Cabul vivia, agitadíssima, naquele tempo, com o boato veiculado por alguns e outros que afirmavam ser a mais pura verdade. Dizia-se que o prestigiado juiz chamado Fauzi Trevic, antes de sair de casa para o exercício de suas funções no tribunal, ouvia os conselhos de um papagaio. Havia até quem soubesse de particularidades sobre o assunto. Falava-se que o papagaio foi trazido das montanhas por um feiticeiro famoso e vivia internado num rico aposento, longe de visitas e dos ouvidos curiosos. Os mais atrevidos diziam tratar-se de uma ave encantada, que trazia no corpo o Espírito de um gênio. O tal papagaio devia dominar o conhecimento das leis como ninguém, pois o magistrado era conhecido pelas sentenças notáveis que proferia.

O caso chegou ao conhecimento do rei Nassin ben-Nassin, que se espantou com a notícia e com a possibilidade de um papagaio capaz de orientar as longas sentenças de um sábio juiz. E resolvido a esclarecer o “diz que disse”, mandou chamar o juiz Fauzi Trevic para uma audiência. Frente a frente com a magistrado, perguntou-lhe:

– Seria verdadeira aquela voz que corria pela cidade, abalando os incrédulos e enchendo de infinito assombro os simples e os ingênuos?

– Sim, ó rei Magnânimo! É verdadeira a voz.

E continuou:

– Não devo ocultar a verdade. Todos os dias, antes de seguir para o tribunal, ouço os conselhos de um modesto papagaio verde, de bico amarelo. Juro pelas barbas de Maomé ser a mais pura verdade.

O monarca, então exaltado, exclamou:

– Não creio que possa existir, sob o céu ou sobre a terra, maravilha maior do que essa que acabais de revelar!

E o juiz continuou:

– Vejo-me forçado a dizer-vos ó Rei, que meu amigo papagaio só sabe pronunciar duas palavras e com esse limitadíssimo vocabulário consegue me orientar, com segurança e clareza, todas as minhas sentenças.

– Com duas palavras! Que palavras mágicas são estas, que servem de dois faróis, no meio dos oceanos das leis? – Questionou o rei.

Respondeu o digno magistrado:

– Bondade e justiça! Justiça e bondade. Eis as palavras que ouço todos os dias do meu fiel papagaio.

Interessante o que ele, o juiz, complementa em sua resposta. Ele disse:

– Quando estudo as causas, sobre as quais sou obrigado a votar e decidir, esforço-me, por ser bom e procuro se justo.

O papagaio, na verdade, trata-se da consciência do magistrado, e notem que ele se refere à ave como “modesto papagaio verde de bico amarelo”, ou seja, a consciência despojada de qualquer adorno, condecorações, títulos e opulência.

Era apenas a consciência de um homem, filho de Deus, ciente das suas limitações que se esforçava todos os dias em ser bom e justo.

O Evangelho segundo o Espiritismo

Exatamente como temos em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VII ,“Sede perfeitos”, onde encontramos a relação de todas as virtudes que caracterizam o homem de bem, e a benevolência e a justiça figuram entre elas.

No entanto, não encontraremos um ser humano sequer, sobre a face da Terra, que reúna todas as qualidades do homem de bem. Nesse sentido, no mesmo capítulo, sob o título, “Os bons espíritas”, encontramos uma lição de esperança para todos nós, quando diz que se reconhece o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.

Assim, o magistrado da fábula, mesmo sendo reconhecido como um homem justo, declara humildemente que todos os dias se esforça para ouvir o que diz seu papagaio. Interessante que ao final da história o autor termina com a seguinte exclamação: “Por Allah, senhor dos mundos visíveis e invisíveis, seguissem todos os reis, ministros e magistrados, o conselho daquele papagaio, e a felicidade desceria sobre os povos e a paz reinaria entre as nações!”


[1] Veja: https://www.malbatahan.com.br/

Fontes

www.malbatahan.com.br

O Evangelho segundo o Espiritismo

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