O Livro dos Espíritos, o raiar ao mundo da era espírita

“Antes dele nem havia o Espiritismo”, diz o professor Herculano Pires sobre esta fundamental obra de Kardec.

Em 18 de abril de 1857, há exatos 164 anos, era materializada no mundo a consolidação de uma obra monumental e extraordinária, O livro dos Espíritos. Em um brilhante texto comemorativo pelos 100 anos de sua edição, o professor Herculano Pires nos brindou com algumas reflexões de grande profundidade. Escreveu ele: “Com este livro, a 18 de abril de 1857, raiou para o mundo a era espírita. Nele se cumpria a promessa evangélica do Consolador”. Dizer isso equivale a afirmar que O livro dos Espíritos é o código de uma nova fase da evolução humana. Ele continua: “Este não é um livro comum, que se pode ler de um dia para o outro e depois esquecer num canto da estante. Nosso dever é estudá-lo, lendo-o e relendo-o constantemente”.

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Primeira edição de O Livro dos Espíritos, 1857, Paris, França

É sobre essa recomendação do dileto professor que convidamos nossos leitores a celebrar este momento com estudos e mais reflexões sobre o livro, que representa a pedra fundamental do Espiritismo. Aliás, reforça Pires, “antes dele nem havia o Espiritismo”.

Irvênia L. S. Prada, em sua obra Espiritismo – razão como método, mediunidade como laboratório, moral como objetivo, que também é um convite para conhecermos mais sobre a Doutrina, nos reproduz uma definição de Allan Kardec para a estrutura do Espiritismo. Diz o codificador: “Espiritismo é a ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos e de suas relações com o mundo corporal. É, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais desse conhecimento”.

Não há como não concordarmos com o pensamento de Kardec, e tudo começa com a publicação de O livro dos Espíritos, que representa uma continuidade de um Planejamento Divino para a evolução humana. O professor Pires ressalta ainda que se a Bíblia é a síntese da antiguidade, o Evangelho é a síntese do mundo greco-romano-judaico, e O livro dos Espíritos é a do mundo moderno.

Em 2021, vivemos dias de muita dor e dificuldades por todo o lado que observamos. Com muito pesar, podemos observar o sofrimento de milhões de pessoas, seja por conta da separação dos entes queridos, seja pela falta de tratamento em hospitais, ou mesmo, não menos doloroso, pela fome e miséria que se agravam todos os dias.

Nada mais atual e fundamental para nos consolar do que uma citação de Kardec  (apud Prada, 2019, p. 41): “Em resumo, o Espiritismo suaviza o amargor dos desgostos da vida, acalma o desespero e as agitações da alma, dissipa as dúvidas ou os temores da vida futura, afasta a ideia de abreviar a vida pelo suicídio. E, desse modo, torna felizes aqueles que nele se aprofundam, sendo este o grande mistério de sua rápida propagação”.

Um norte seguro para atravessarmos esta etapa

Entendemos que, após 164 anos, as revelações contidas na obra se constituem em bases sólidas em que podemos repousar nossos anseios e, ao mesmo tempo, encontrar um norte seguro para atravessarmos esta etapa.

A edição de O livro dos Espíritos que atualmente é mais estudada é a segunda edição, que data de 1860, onde foram incorporadas mais 518 perguntas as 501 da primeira edição, totalizando assim 1.019 perguntas. Com isso, a obra ficou estruturada em quatro livros, sendo: livro primeiro (“As causas primárias, Deus e a criação”), livro segundo (“O mundo dos Espíritos”), livro terceiro (“As leis morais”) e o livro quarto (“Esperanças e consolações”).

Uma leitura que vale muito a pena para quem quer conhecer mais sobre O livro dos Espíritos é a obra de Silvino Canuto Abreu, O livro dos Espíritos e sua tradição histórica.Trata-se de uma história romanceada na qual o autor, com uma riqueza de detalhes, nos convida a uma viagem no tempo, precisamente nos leva para Paris de 18 de abril de 1857 e descreve acontecimentos e ensinamentos que aquele lugar nos reservava.

Recordamos de um fato narrado no capítulo 2 do livro que demonstra exatamente o que, depois de 164 anos, O livro dos Espíritos ainda é capaz de fazer com as pessoas. Em uma situação corriqueira, do dia a dia, vimos o relato do encontro do jornalista René Du Chalard, que havia passado na livraria e tinha pegado um exemplar do livro recém-chegado. Enquanto esperava sua namorada, o jovem fixou-se na leitura e, ao encontrarem-se, a namorada narra que o percebera com uma linguagem diferente e pergunta se era algo de errado com ela. Ele responde: “não é com você, é sobre o que li neste livro”. E complementa que era aquele livro que o transformara de súbito em outra pessoa. Naquele momento, a jovem pegou o livro em mãos e assustou-se com o título, demonstrando um certo preconceito. Minutos depois, René e Rosalie estavam folheando o livro, vendo perguntas e respostas que eram capazes de esclarecer a eles dúvidas da vida cotidiana, e o jovem jornalista se demonstrava mudado com tudo que lia.

rue des martyrs onde kardec escreveu o livro dos espiritos
Rue des Martyrs, Paris, França, lugar onde Kardec escreveu o Livro dos Espíritos lançado em 1857. Foto: Reprodução

Reflexões e sentido para muitas coisas

É exatamente essa imagem que desejamos reforçar, ou seja, o que é possível acontecer com as pessoas ao terem contato com o livro: uma verdadeira ebulição incontrolável de reflexões. Parece que se descortinam aos nossos olhos um novo mundo e encontramos sentido em muitas coisas.

O livro é tão importante que o professor Herculano Pires, em sua tradução, nos esclarece: “Toda a Doutrina está contida neste livro, de forma sintética e foi posteriormente desenvolvida nos demais volumes da Codificação. Escrito na forma dialogada da Filosofia Clássica, em linguagem clara e simples, para divulgação popular, este livro é um verdadeiro tratado filosófico que começa pela Metafísica, desenvolvendo novas perspectivas à Ontologia, à Sociologia, à Psicologia, à Ética e estabelecendo as ligações históricas de todas as fases da evolução humana em seus aspectos biológico psíquico, social e espiritual”.

Talvez, até hoje, desde o seu lançamento, o momento para responder a tantos “porquês” nunca foi tão propício, e não temos dúvidas de que é possível que ele possa ser uma excelente fonte para nortear nossos pensamentos em um momento de tanta dor e angústia. Certamente, é impossível dimensionarmos o número de encarnações transformadas por O livro dos Espíritos. Não temos ideia da amplitude que ele pode ter realizado na vida de pessoas, quantos suicídios podem ter sido evitados, quantos abortos, quantas pessoas que talvez tenham perdido a fé e encontraram um caminho para prosseguir nas páginas iluminadas pela lucidez de Kardec e pelas revelações dos Espíritos.

Para concluirmos sobre a importância e relevância desta obra, reproduzimos aqui, em homenagem ao codificador e a tantos outros baluartes do Espiritismo, a mensagem de Hilário Silva, chamada Há um século, que consta no livro O Espírito da verdade, psicografado por Chico Xavier.

Há um século

Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, naquela triste manhã de abril de 1860, estava exausto, acabrunhado. Fazia frio.

Muito embora a consolidação da Sociedade Espírita de Paris e a promissora venda de livros, escasseava o dinheiro para a obra gigantesca que os Espíritos Superiores lhe haviam colocado nas mãos. A pressão aumentava…

Missivas sarcásticas avolumavam-se à mesa.

Quando mais desalentado se mostrava, chega a paciente esposa, Madame Rivail – a doce Gaby –, a entregar-lhe certa encomenda, cuidadosamente apresentada. O professor abriu o embrulho, encontrando uma carta singela. E leu:

“Sr. Allan Kardec:

Respeitoso abraço.

Com a minha gratidão, remeto-lhe o livro anexo, bem como a sua história, rogando-lhe, antes de tudo, prosseguir em suas tarefas de esclarecimento da Humanidade, pois tenho fortes razões para isso.

Sou encadernador desde a meninice, trabalhando em grande casa desta capital. Há cerca de dois anos, casei-me com aquela que se revelou minha companheira ideal. Nossa vida corria normalmente, e tudo era alegria e esperança, quando, no início deste ano, de modo inesperado, minha Antoinette partiu desta vida, levada por sorrateira moléstia. Meu desespero foi indescritível e julguei-me condenado ao desamparo extremo. Sem confiança em Deus, sentindo as necessidades do homem do mundo e vivendo com as dúvidas aflitivas de nosso século, resolvera seguir o caminho de tantos outros, ante a fatalidade…

A prova da separação vencera-me, e eu não passava, agora, de trapo humano. Faltava ao trabalho, e meu chefe, reto e ríspido, ameaçava-me com a dispensa. Minhas forças fugiam. Namorava diversas vezes o Rio Sena e acabei planejando o suicídio. ‘Seria fácil, não sei nadar’ – pensava. Sucediam-se noites de insônia e dias de angústia.

Em madrugada fria, quando as preocupações e o desânimo me dominaram mais fortemente, busquei a Ponte Marie. Olhei em torno, contemplando a corrente… E, ao fixar a mão direita para atirar-me, toquei um objeto algo molhado que se deslocou da amurada, caindo-me aos pés. Surpreendido, distingui um livro que o orvalho umedecera. Tomei o volume nas mãos e, procurando a luz mortiça de poste vizinho, pude ler, logo no frontispício, entre irritado e curioso. ‘Esta obra salvou-me a vida. Leia-a com atenção e tenha bom proveito. – A. Laurent.’ Estupefato, li a obra – O livro dos Espíritos – ao qual acrescentei breve mensagem, volume esse que passo às suas mãos abnegadas, autorizando o distinto amigo a fazer dele o que lhe aprouver. Ainda constavam da mensagem agradecimentos finais, a assinatura, a data e o endereço do remetente.”

O Codificador desempacotou, então, um exemplar de O livro dos Espíritos ricamente encadernado, em cuja capa viu as iniciais do seu pseudônimo e na página do frontispício, levemente manchada, leu com emoção não somente a observação a que o missivista se referira, mas também outra, em letra firme: ‘Salvou-me também. Deus abençoe as almas que cooperaram em sua publicação. – Joseph Perrier.’ Após a leitura da carta providencial, o professor Rivail experimentou nova luz a banhá-lo por dentro…

Conchegando o livro ao peito, raciocinava, não mais em termos de desânimo ou sofrimento, mas, sim, na pauta de radiosa esperança. Era preciso continuar, desculpar as injúrias, abraçar o sacrifício e desconhecer as pedradas… Diante de seu Espírito turbilhonava o mundo necessitado de renovação e consolo.

Allan Kardec levantou-se da velha poltrona, abriu a janela à sua frente, contemplando a via pública, onde passavam operários e mulheres do povo, crianças e velhinhos… O notável obreiro da Grande Revelação respirou a longos haustos, e, antes de retomar a caneta para o serviço costumeiro, levou o lenço aos olhos e limpou uma lágrima…

Fica aqui para nós o compromisso de levarmos adiante a mensagem consoladora do Cristo. Se você tiver oportunidade, compartilhe, presenteie alguém com O livro dos Espíritos. Temos a certeza de que por muitos e muitos anos esse livro seguirá salvando vidas.

Obrigado, Kardec, por perseverar para que O livro dos Espíritos pudesse ser uma realidade em nosso planeta. Muito obrigado!

Fontes

Espiritismo – razão como método, mediunidade como laboratório, moral como objetivo

O livro dos Espíritos e sua tradição histórica

O Espírito da verdade

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