Afinal, o que é e como é morrer?

Cláudia Santos

“Morte” (do termo latino mors), “óbito” (do termo latino obitu) e “desencarne” (deixar a carne) são alguns dos sinônimos usados para se referir ao processo irreversível de cessamento das atividades biológicas necessárias à caracterização e manutenção de um sistema até então classificado como vivo.

Segundo Allan Kardec (2004, “A vida e a morte”), em O livro dos Espíritos, sua causa está no esgotamento dos órgãos: “Vindo a cessar a causa da atividade, cessa o fenômeno: o aparelho volta ao estado de inércia. Os corpos orgânicos são, assim, uma espécie de pilhas ou aparelhos elétricos, nos quais a atividade do fluido determina o fenômeno da vida. A cessação dessa atividade causa a morte”.

Léon Denis (2012, “As provas e a morte”), na obra Depois da morte, afirma: “A morte mais não é que uma transformação necessária e uma renovação, pois nada parece realmente. A morte é só aparente; somente muda a forma exterior; o princípio da vida, a alma, fica em sua unidade permanente, indestrutível. Esta se acha, além do túmulo, na plenitude de suas faculdades, com todas as aquisições com que se enriqueceu durante as suas experiências terrestres: luzes, aspirações, virtudes e potências. Eis aí os bens imperecíveis a que se refere o Evangelho, quando diz: ‘Os vermes e a ferrugem não os consumirão nem os ladrões os furtarão’. São as únicas riquezas que poderemos levar conosco e utilizar na vida futura”.

Marlene Nobre (1998, “Como é morrer”), no livro Nossa vida no além, esclarece que morrer é um processo complexo. Do ponto de vista físico, “até que é relativamente fácil, complicado, porém, é desencarnar, desprender-se a alma dos laços que a retém no plano material”. Completa Denis (2012, “As provas e a morte”): “A morte e a reencarnação que lhe segue, em um tempo dado, são duas condições essenciais do progresso”.

“Quando chega o declínio da vida, quando nossa existência, semelhante à página de um livro, vai voltar-se para dar lugar a uma página branca e nova, aquele que for sensato consulta o seu passado e revê os seus atos. Feliz quem nessa hora puder dizer: meus dias foram bem preenchidos! Feliz aquele que aceitou as suas provas com resignação e suportou-as com coragem. Esses, macerando a alma, deixaram expelir tudo o que nela havia de amargor e fel” (Léon Denis).

Desprendimento da alma

Allan Kardec, em O livro dos Espíritos, detalhou o mecanismo de desprendimento da alma, valendo-se dos ensinos dos Espíritos benfeitores e das próprias entrevistas que fez com centenas de desencarnados. Os principais tópicos listados por ele são:

  • A extinção da vida orgânica acarreta a separação da alma, em consequência do rompimento do laço fluídico que a une ao corpo, mas esse desprendimento nunca é brusco e só se completa quando não mais reste um átomo do perispírito unido a uma molécula do corpo.
  • O número de pontos de contato existentes entre o corpo e o perispírito é responsável pela maior ou menor dificuldade da separação. Se a união permanecer, a alma poderá sentir a decomposição do próprio corpo, como frequentemente acontece no caso dos suicidas. Na morte natural, resultante da extinção das forças vitais por velhice ou doença, a separação é gradual: para aquele que se desmaterializou durante a própria existência, completa-se antes da morte real; para o homem materializado e sensual, cujos laços com a matéria são estreitos, é difícil, podendo durar algumas vezes dias, semanas e até meses (LE 115 nota). Na morte violenta, o desprendimento só começa depois que ela se efetiva, e não se completa rapidamente (LE 162 nota).
  • Na transição da vida corporal para a espiritual, produz-se um fenômeno de perturbação, considerado como estado natural. Nesse instante, a alma experimenta um torpor que paralisa momentaneamente as suas faculdades, neutralizando, ao menos em parte, as sensações. É por isso que quase nunca ela testemunha conscientemente o derradeiro suspiro. Quando sai desse estado, o Espírito pode ter um despertar calmo ou agitado, dependendo do tipo de sono no qual se envolveu. A causa principal da maior ou menor facilidade de desprendimento é o estado moral da alma.

Marlene Nobre (1998, “Como é morrer”) conclui: “Influem, pois, no processo de desencarnação, o número de encarnações já vividas, as conquistas mentais ou o patrimônio no campo da ideação, os valores culturais, o grau de apego aos bens terrenos, busca da expansão do amor, na vida diária. É por isso que não existe uma desencarnação igual à outra”.

“Já vistes a borboleta de asas multicores despir informe crisálida, esse invólucro repugnante, no qual, como lagarta, se arrastava pelo solo? Já a vistes solta, livre, voejar ao calor do sol, no meio do perfume das flores? Não há imagem mais fiel para o fenômeno da morte” (Léon Denis).

“Influem, pois, no processo de desencarnação: o número de encarnações já vividas, as conquistas mentais ou o patrimônio no campo da ideação, os valores culturais, o grau de apego aos bens terrenos, enfim, as qualidades morais e espirituais, que constituem seu patrimônio. A preparação para a morte incluiria todo um programa existencial: fé ativa, aceitação da vontade divina nos impositivos da existência, desprendimento dos bens terrenos, busca da expansão do amor, na vida diária” (Marlene Nobre).

Referências

DENIS, L. Depois da morte. Brasília, DF: FEB, 2012.
KARDEC, A. O livro dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2004.
NOBRE, M. Nossa vida no além. São Paulo: FE Editora, 1998.

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