O respeito do Cristo por nós e pelo planeta Terra

No capítulo 65 do livro Fonte viva, psicografado por Francisco Cândido Xavier, Emmanuel comenta a passagem da segunda carta aos Coríntios escrita por Paulo de Tarso, que diz “Olhais para as coisas, segundo as aparências? Se alguém confia de si mesmo que é do Cristo, pense outra vez isto consigo, que assim como ele é do Cristo, também nós do Cristo somos” (Paulo-II Coríntios, 10:7). O benfeitor cria uma alegoria de divina significação ao qual cabe-nos esmiuçar. Esclarece o protetor que um vaga-lume acende leves relâmpagos nas trevas e se supõe ser o príncipe da luz até que encontra a vela acesa que o ofusca. A vela, na mesma lógica, se orgulha pela luz que produz até o dia que encontra a lâmpada elétrica, que por sua vez é empalidecida em sua vaidade pelo sol.

A lição nos convida a pensar nas nossas capacidades e reconhecer com humildade nossas limitações, ainda no mundo de provas e expiações. Ela, em sua interpretação literal, nos convida ao prosseguimento, adiantando o longo caminho que temos de aprendizado nas sombras educativas da carne. Contudo, como sabemos que as palavras e imagens proferidas por Emmanuel nunca são em vão, a expansão da alegoria traz ainda outros ensinamentos.

O primeiro deles é pensar que cada um de nós temos em si, como vaga-lumes, velas ou sóis, a capacidade de produzir luz ao nosso redor e de auxiliar na construção da evolução fraterna. Ninguém é desprezado na sua capacidade de ajudar. Ninguém está fadado ao escuro eterno ou à inutilidade infinda. Cada ser da criação produz com as forças do seu trabalho íntimo e silencioso um clarão que extravasa do próprio ser, modificando o ambiente ao seu redor. É por tal motivo que o primeiro ser apresentado na alegoria se compõe de um vaga-lume.

Tão igual e tão diferente

Uma segunda acepção que podemos extrair da alegoria está na percepção dos ensinamentos pela convivência. As ilusões somente se desfazem pela convivência com o outro. É a diversidade de cada um de nós e a percepção do outro, tão igual e tão diferente, que nos reflete o autoconhecimento. Assim como Allan Kardec sintetiza na Lei de Sociedade[1] a união social que completa as faculdades humanas, assegurando o bem-estar e o progresso. Assim como auxiliamos o nosso redor com nossa luz, precisamos da luz do nosso irmão para esclarecer nossas próprias convicções ilusórias. É por tal motivo que a vela ofusca o vaga-lume, que por sua vez é minimizada pela lâmpada, a qual não poderá com o sol. Não há embates, mas o processo contínuo de aprendizado e progresso pela convivência com irmãos mais evoluídos do que nós.

Ainda uma terceira compreensão é possível. A de que existe um caminho a ser seguido, confirmando o nosso progresso. Aumentarmos a nossa luz para além das nossas trevas e auxiliar o nosso próximo na sua jornada. Nessa acepção, não há como esquecermos do Cristo na célebre frase: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Como a resposta mais clara e direta, e curta, de O livro dos Espíritos[2], o irmão mais perfeito nos serve de verdadeiro sol, bastando a cada um de nós germinarmos até o solo para receber suas infinitas benesses.

“Vós sois Deuses”

Por fim, nesse intuito de compreender, a última apreensão da alegoria está na escolha do sol como último ser criado. Demonstra a confiança do Cristo e de Deus nas nossas conquistas e na nossa capacidade individual. Somos depositários de uma herança de glória a que nem nós mesmos acreditamos detentora. Tal percepção é reforçada pelas palavras do Cristo quando diz “Tudo que eu faço, podereis fazer, e se quiseres, muito mais”. A capacidade de chegarmos a sol é tão distante da nossa compreensão que o Cristo no diz “vós sois Deuses”, com o intuito de nos fazer acreditar na nossa luz interior.

Com a presente alegoria de não mais de dois parágrafos, Emmanuel comprova todo o respeito do Cristo por nós e pelo planeta Terra. O Cristo, administrador do nosso Universo, garante que cada um de nós possa expressar e encontrar sua própria luz, conduzindo com o livre-arbítrio uma oportunidade constante de renovação íntima. Mais do que isso, permite e designa que, frequentemente, mesmo iludidos e não merecedores, tenhamos nossa pequenez iluminada pelos missionários de fé. Ainda, veio o próprio Cristo, como um sol a iluminar o caminho de todos nós, ensinando verdade milenares que estamos reencarnações a fio tentando compreender com os erros do coração.

E esse amor é tão grandioso que, mesmo envoltos em trevas, guardamos a confiança do mestre de que seus discípulos podem superá-lo em um futuro distante. Passados dois mil anos da maior demonstração do amor divino, continuamos dias e dias iluminados por esse sol imenso do amor deste irmão mais perfeito.

Gabriel Chiavegatti é advogado


[1] Comentário à pergunta n. 768  de O livro dos Espíritos.
[2] Pergunta n. 625 de O livro dos Espíritos.

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