O trabalho visto na Terra e nos Céus

Uma escada rumo ao céu

Por que eu tenho de trabalhar? Você já se pegou fazendo essa pergunta? Ou então, qual é o sentido do trabalho em minha vida? Outro questionamento, talvez este, muito mais atual, é a busca pelo propósito por meio de seu trabalho. Principalmente agora, podemos dizer que o trabalho e a forma de trabalhar passam por profundas reflexões, e não há dúvidas de que estamos diante de transformações das quais nem podemos imaginar.

Um estudo intitulado Projetando 2030 (ou seja, daqui a nove anos), encomendado pela Dell ao Institute For The Future (IFTF), apontou que, aproximadamente, 85% das atividades profissionais que estarão disponíveis no mercado nesse período ainda nem existem. A pesquisa realizada com mais de 3,8 mil profissionais, em 17 países, mostra que a transformação no mercado de trabalho será enorme com o avanço de novas tecnologias.

Claro que se pode avaliar a informação acima, como muitas coisas em nossas vidas, como uma ameaça (escassez de conhecimento para se adaptar às novas profissões) ou oportunidade (chance de desenvolver novas habilidades e conhecimentos e entrar no mercado de trabalho). No entanto, se o futuro é tão promissor e, ao mesmo tempo, desafiador, vale a pena nos concentrarmos no hoje. Afinal, não está nada fácil!

E você, como está lidando com o trabalho neste momento? Para muitos, pensar em trabalho é um sonho, pois o agravamento do desemprego é cada vez mais preocupante. Para outros, que se mantiveram empregados, a pandemia trouxe muitas reflexões, entre elas a questão da possibilidade do home office, onde a mescla entre a vida pessoal e a profissional dá às pessoas a decisão sobre o que priorizar em suas rotinas. Claro que com essa mistura vieram também dificuldades do gerenciamento do tempo, jornadas mais longas, entre outras coisas, o que trouxe o Burnout de volta às manchetes.

Relação que beira o colapso

A solução não era trabalhar em casa ou não. A nossa relação com o trabalho realmente beira o colapso. Em uma pesquisa feita com cerca de 4 mil pessoas publicada no Estadão no final de abril, a consultoria de estratégia Oliver Wyman apontou que 32% dos entrevistados sentem que houve uma piora na carreira durante a pandemia da Covid-19, e esse sentimento é o motivo para muitas procurarem ajuda para tratar ansiedade ou depressão. Especialistas afirmaram que a dificuldade de equilibrar a vida pessoal e a profissional no home office, as muitas demandas e as reuniões on-lines em excesso são possíveis causas dos sintomas emocionais e insatisfações. Podemos concluir que o trabalho tem mudado, mas a maneira com que o mundo lida com o trabalho continua o mesmo.

Se algum dia nos faltar inspiração e forças para o trabalho, lembremo-nos de Jesus, que, ao curar um inválido, em um sábado, disse: “Meu pai trabalha até agora, e eu trabalho também”.

Somos Sísifos conectados

A fotografia retratada pela pesquisa que citamos da Oliver Wyman nos leva a crer que, mesmo com o advento da tecnologia, parece que prosseguimos presos na condição do mito de Sísifo, que foi tão bem apresentado pelo filósofo Albert Camus, que o resgatou para elucidar seus estudos sobre o “existencialismo”. Por ter desafiado os deuses, Sísifo foi castigado. Todos os dias deveria subir até o cume de uma montanha e, ao chegar ao topo, a pedra rolaria, e ele desceria para recomeçar, ou seja, uma atividade repetitiva, um verdadeiro suplício existencial. Camus uso o mito para representar a nossa vida, a que somos obrigados a viver em um processo repetitivo, imposto e que não nos leva a lugar algum.

As pedras que temos de rolar atualmente podem ser substituídas pela falta de propósito em nosso trabalho, pela insatisfação com a remuneração, pela dificuldade de se criar perspectivas para a subsistência, visto que o próprio capitalismo é a força motora de uma exigência cada vez maior para o aumento do consumo e, com isso, a necessidade de mais dinheiro. Uma cena que representa bem o que vivemos é aquela conhecida imagem da roda de ratos, onde ele corre, corre e a roda não sai do lugar.

Para onde o trabalho poderá evoluir?

Bem, para respondermos a essa questão, cremos que vale a pena voltarmos a Kardec, na terceira parte de O livro dos Espíritos, onde conhecemos as Leis Morais, sendo que a sétima delas é a do Progresso. Nela, encontramos a resposta dos Espíritos à questão 778, em que o codificador questiona se o homem pode retrogradar para o estado natural. Respondem os Espíritos: “Não, o homem deve progredir sem cessar e não pode voltar ao estado de infância. Se ele progride, é que Deus assim o quer; pensar que ele pode retrogradar para sua condição primitiva seria negar a Lei do Progresso”. Kardec ainda pergunta se o homem seria capaz de deter a marcha do progresso, e a resposta é: “Não, mas de entravá-las algumas vezes”. Essas afirmações, quando aplicadas ao trabalho, nos dão a certeza de que, apesar de estarmos vivendo momentos de dúvidas e dificuldades, de certa forma, prosseguimos evoluindo.

No mesmo capítulo que aborda sobre a Lei do Progresso, temos também a revelação de que ele se processa por meio das conquistas intelectuais e morais. Se neste exato momento já dispomos de tecnologias, teremos novas profissões no futuro, cremos que algum progresso intelectual tem existido, mas como está o progresso moral?

Ainda falando sobre as Leis Morais em O livro dos Espíritos, não podemos deixar de consultar a segunda Lei, que é exatamente a Lei do Trabalho, que vale muito a leitura. Para compreendermos mais sobre nossa relação com o trabalho, a resposta dos Espíritos a Kardec na questão 676 é muito esclarecedora. Pergunta o codificador: Por que o trabalho é imposto ao homem? “É uma consequência da sua natureza corpórea. É uma expiação e, ao mesmo tempo, um meio de aperfeiçoar a sua Inteligência. Sem o trabalho, o homem permaneceria na infância intelectual; eis porque ele não deve a sua alimentação, a sua segurança e o seu bem-estar senão ao seu trabalho e à sua atividade”.

Observamos que as respostas para nossa relação com o trabalho consistem em uma certeza de uma necessidade de desenvolvimento e aprimoramentos que ocorrem pela evolução permanente. São animadoras essas colocações e podem nos sustentar as forças para cada novo dia de trabalho, ou mesmo nos ajuda a ter mais clareza no propósito que tanto almejamos encontrar.

O benfeitor Emmanuel, com toda a sua sabedoria, também contribuiu para essa reflexão, trazendo nas páginas do pequeno grande livro Pensamento e vida, no capítulo 7, maneiras claras de repensarmos o próprio significado do trabalho. O guia espiritual de Chico Xavier nos diz que existe o trabalho-obrigação, que nos remunera de pronto, e essas tarefas remuneradas permanecem adstritas ao mundo nas linhas da troca vulgar. Muito provavelmente, esse trabalho é o que a maioria de nós consegue enxergar, ou seja, fazer algo por obrigação em troca de receber algo, o que é muito limitado e até frustrante. Esse trabalho tem como objetivo satisfazer nossas próprias aspirações.

Trabalho-ação transforma o ambiente, e o trabalho-serviço, o homem

Emmanuel nos alerta ainda para um outro tipo de trabalho, aquele que é remunerado não pela obrigação, mas pela colaboração. Diz ele: o trabalho-ação transforma o ambiente. O trabalho-serviço transforma o homem. E reforça: A maneira que nos alonga a ascensão, entendemos com mais clareza a necessidade de trabalhar por amor de servir. Quando começamos a ajudar o próximo, sem aguilhões, matriculamo-nos no acrisolamento da própria alma, entrando em sintonia com a vida abundante. Nos círculos mais elevados do Espírito, o trabalho não é imposto.

Emmanuel nos mostra com clareza que o avanço moral e uma maioridade intelectual transformarão nossa maneira de nos relacionarmos com o trabalho, e os anseios que por agora tanto nos afligem serão vencidas. Celebremos, portanto, o trabalho, repensemos nossas motivações e com isso seguimos na trajetória de amar e servir, onde o trabalho é uma dádiva.

Se algum dia nos faltar inspiração e forças para o trabalho, lembremo-nos de Jesus, que, ao curar um inválido, em um sábado (o que causou estranheza aos judeus que o perseguiam), disse: “Meu pai trabalha até agora, e eu trabalho também”.

Fontes

Institute for the Future (IFTF).
O livro dos Espíritos.
Pensamento e vida.

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