O tumor de uma cadela e sua despedida na clínica veterinária

Dona Ana entrou no consultório com seu primogênito, uma criança com 12 anos de idade. Artur trazia nos braços a Baby toda envolvida por um lençol, sendo possível visualizar apenas seu rosto. Baby era uma cadela Pinscher, também com 12 anos. A anamnese transcorreu tranquila, e dona Ana contou que nos últimos dois anos haviam falecido seu pai e seu ex-marido, pai de seus dois filhos. Baby possuía um câncer de mama, que estava crescendo há alguns anos.

Pedi ao seu filho que colocasse Baby na mesa para o exame. A criança posicionou a cadela e se afastou. Quando retirei o lençol que a envolvia, o menino soltou um profundo gemido e começou a chorar ao ver aquele grande tumor presente no animal. Sua mãe o repreendeu para que não olhasse para a cadela. Baby era um animal pequeno, cujo nódulo mamário com grande presença de tecido morto representava cerca de 20% de seu peso corporal.

Após avaliação e realização de exames necessários, Baby permaneceu internada, sendo operada no dia seguinte para retirada do tumor mamário. Ana retornava ao hospital, agora sem seu filho, mas extremamente preocupada e disposta a fazer o que fosse necessário por sua companheira. Baby apresentou sérias complicações durante o procedimento cirúrgico e o período de recuperação, indo a óbito no final do dia.

Dona Ana ficou extremamente abalada, chorou muito e mal conseguia respirar, teve sensações de desmaio e possível queda de pressão. A auxiliamos a deitar no chão, com as pernas sobre uma cadeira, e permanecemos ao seu lado. Minha colega Mariana, de mãos dadas com Ana, foi conversando com ela, contando cada uma das respirações, perguntando histórias da Baby e do período que permaneceram juntas. Após Ana se recuperar, a levamos para casa, a fim de que pudesse chegar em segurança. Meu colega foi dirigindo ao seu lado, e eu com o corpo de Baby em meu colo, no banco de trás.

Ana, Baby e Artur com toda minha equipe de trabalho me trouxeram grandes lições. Ana contou que estava em tratamento psiquiátrico, pois vivenciou forte depressão, chegando em dado momento a pensar em suicídio. Ainda estava muito abalada por tudo o que havia vivido com sua família. Ana conheceu a Baby quando estava grávida do Artur, sendo uma grande companheira durante a gravidez e toda a infância de seu filho.

Dona Ana, ao sair de casa naquele dia, prometeu ao seu filho que não faria a eutanásia de Baby. Após a cirurgia, quando chegou ao hospital, contei sobre o grave quadro de Baby e que se nós a tirássemos do oxigênio poderia não sobreviver. Ana não hesitou, pediu para transportar Baby até uma nova clínica onde passaria pelo plantão noturno. Fizemos a primeira tentativa de retirar a máscara de oxigênio, mas Baby mostrou sinais de que não resistiria.

Dois colegas de trabalho pediram para conversar com dona Ana, e quão me surpreenderam ao falarem para ela que não escolher pela eutanásia poderia ser uma decisão egoísta. Dona Ana permaneceu firme em sua decisão, se despediu da Baby, conversou com ela e a acariciou. Antes que a cadela chegasse à porta da unidade de terapia intensiva, teve seus batimentos cardíacos e movimentos respiratórios reduzidos, anunciando a morte de seu corpo físico.

Baby era um dos amores de Ana e Artur, e quando se cuida do amor de alguém, de uma vida, seja ela qual espécie for, esse cuidado também deve ser coberto por muito amor. Com Ana, pude vivenciar um grande espaço de escuta, de compreensão e empatia por sua história, pelas perdas e dores que trazia.

O respeito à escolha do outro deve se manifestar sempre e vir à frente de qualquer decisão. A autonomia em saúde significa que o paciente ou familiar tem o direito de escolher qual tratamento deseja. O princípio de não julgamento deve estar sempre presente. Em breve avaliação, qualquer médico-veterinário poderia diagnosticar maus-tratos pelo grande tumor de Baby, no entanto, como exigir de alguém cuidar do outro quando talvez não haja forças sequer para cuidar de si mesmo? Dona Ana, bem como toda equipe profissional, atuou da melhor forma que foi possível a cada um. Nas despedidas que a vida nos proporciona, aprendemos ainda mais a respeitá-la, em sua manifestação tão diversa. Diante desse aprendizado, há o início de novas histórias, escritas não mais pelos mesmos autores, mas por Espíritos que puderam também se renovar.

Beatriz Furlan Paz é médica-veterinária, com formação e residência pela Universidade Federal de Uberlândia e formação em cuidados paliativos pelo Instituto PAV. Atualmente, é mestranda em cirurgia veterinária pela Unesp de Jaboticabal. É cofundadora do Núcleo de Medicina Veterinária e Espiritualidade da Associação Médico-Espírita de Uberlândia; é membro do Núcleo de Medicina Veterinária e Espiritualidade da Associação Médico-Espírita do Brasil.

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