O Universo antes do Big Bang, uma visão quântico-espírita

big bang

“Uma das maneiras de solucionar o Paradoxo EPR consiste em postular a existência de um éter por trás do cenário espaço-tempo, onde ocorreriam sinais mais rápidos que a luz” (Goswami, 2003).

“Há um fluido etéreo que enche o espaço e penetra os corpos, esse fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva, geratriz do mundo e dos seres” (Kardec, 2001).

Quando o homem se pergunta: “quem sou eu?”, “de onde vim?” e “para onde vou?”, não obtém respostas convincentes às suas dúvidas existenciais. Percebe-se inserido em um universo que, na maioria das vezes, não consegue compreender e muito menos explicar, por mais que procure se informar.

Procura a ciência, a forma metodizada e confiável para se entender a natureza, a qual, isoladamente, não resolve suas angústias; e a religião, que, respaldando-se na fé, dá respostas que fortalecem a esperança, mas não atendem às súplicas da razão. Unindo-se as duas, todavia, tudo parece ficar mais claro, pois se a religião fala da gênese do Universo, a ciência mostra como chegar até ela, pois se não sabemos de onde viemos, jamais saberemos quem somos.

Percebendo-se inserido nesse Universo, o homem, sentindo-se ao mesmo tempo observador e observado, construtor, mas também construído, compondo-se na realidade das suas relações existenciais, constata a sua própria singularidade, conscientizando-se da sua trajetória na matéria, sem se desconectar da sua jornada cósmica, e se dá conta que, sendo capaz de refletir com objetividade sobre como é o mundo, é porque faz parte dele. Nesse momento constata que “o homem, enquanto homem, é poeira das estrelas e, enquanto Espírito, é um Ser imortal e inteligente, povoando o universo, fora do mundo material” (KARDEC, 1999, questão n. 76), habitando temporariamente um planeta chamado Terra, localizado na extremidade de uma Galáxia chamada Via Láctea.

Foi nesse contexto que, em 1927, o sacerdote católico e astrofísico belga Georges Lemaître (1894-1966) apresentou a sua Teoria do átomo primordial, sugerindo que o Universo teria nascido de uma suposta explosão, chamada de Big Bang[2], ocorrida cerca de 13,8 bilhões de anos, que contemplava as hipóteses de um universo aberto[3], de um universo plano[4], ou de um universofechado[5], com este último retornando ao “átomo primordial”: o hidrogênio, teoria essafortalecida por George Gamow (1904-1968), na década de 1940, e confirmada pela Radiação Cósmica de Fundo[6], de Arno Allan Penzias (1933-) e Robert Woodrow Wilson (1936-), em 1965.

Em seus primeiros momentos, essa teoria de Lemaître não obteve respaldo dos cientistas da época, sendo um pouco mais tarde aceita pelo Papa Pio XII (1876-1958), por entender que se o Universo teve um início é porque foi criado, então teria que existir um Criador: Deus. Desde aquela época perdura a percepção de que a origem do Universo sempre foi uma questão para teólogos, e não para os cientistas, espelhada pelas palavras de Robert Jastrow (1925-2008), astrônomo, físico, cosmólogo e ex-diretor da NASA:“Para o cientista que se pautou pela fé no poder da razão, a história termina como um sonho ruim. Ele escalou a montanha da ignorância; está prestes a conquistar o pico mais alto; ao transpor a última rocha, ele é saudado por um grupo de teólogos que estavam sentados lá há séculos” (Powel, 2005, p. 19).

Historicamente, o homem sempre se limitou a um planeta, a um sistema solar, a uma galáxia ou a um Universo, limites estes que não passam de uma descrição parcial da realidade. Auspiciosamente, a humanidade hoje dispõe de dois conjuntos de leis para perceber como a natureza funciona: a Teoria da Relatividade, para o macrocosmo, e a Física Quântica, para o microcosmo, que na realidade são complementares, e não antagônicas, pois enquanto a primeira se dedica à compreensão de tudo que funciona abaixo da velocidade da luz (local), a segunda explica tudo que “existe” acima da velocidade da luz, a não localidade, fora do espaço-tempo. Por isso, sugere-se chamá-la de física multidimensional, por razões óbvias.

No que se refere ao macrocosmo, embora os avanços da física clássica, o maior mérito da cosmologia, até agora, foi o de provar que o céu não existe, nem é o limite. Embora o enorme sucesso ao explorar o espaço universal, em mais de um século de sua existência, a cosmologia moderna ainda não conseguiu efetivamente saber do que é feito o Universo, e dele só conhece 5%, já que 95% recebem as denominações provisórias de matéria escura e energia escura, das quais, embora seus efeitos sejam percebidos, as causas ainda são desconhecidas, talvez pela ciência não atentar para um dos alertas do grande cientista sérvio, Nikola Tesla (1856-1943), ao afirmar que “no dia em que a ciência começar a estudar fenômenos não físicos, ela irá progredir mais em uma década do que em todos os séculos anteriores de sua existência”.

Nesse mesmo sentido, pode-se inferir, também, que a “[…] ciência não conhece bastante, mas chegará lá se quiser caminhar com o Espiritismo” (Kardec, 2004, cap. 4, item 51), pois é chegada a horade ele ocupar o seu lugar entre os conhecimentos humanos.

Uma nova postura cosmológica poderia abrir espaço para novos horizontes e levar a ciência a incluir em suas pesquisas as chamadas variáveis ocultas não locais, acolhendo a possibilidade da existência do Espírito e do Mundo Espiritual como hipóteses científicas válidas, partindo de colocações como a do físico americano David Bohm (1917-1992):“A ideia atual do Universo pode representar algum estágio de um Universo maior, um Universo de luz. Até onde podemos perceber esse Universo de luz é eterno. Entretanto, a certa altura, alguns desses raios luminosos se juntaram e produziram a grande explosão – o Big Bang. Isso desencadeou o nosso Universo, que também terá um fim” (David Bohm, 2006).

Coincidentemente, a Teoria das Cordas apresenta uma hipótese bastante plausível para a existência do nosso Universo: com o Big Bang,três dimensões espaciais e uma dimensão temporal se desdobraram e expandiram até as proporções atuais, com as demais dimensões permanecendo pequenas e recurvadas na distância de Planck (10-35m)[7] (Greene, 2001).

Lembrou-nos Kardec (1999), em O livro dos Espíritos, que o Universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e aqueles que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço e os fluidos que o preenchem. Assim, o nosso Universo pode ser infinito somente para o homem (Kardec, 2005), porque no microcosmo do universo-matéria, fora do espaço-tempo, há um outro mundo, este, sim, infinito de verdade (Kardec, 1999), um mundo que interpenetra o nosso e com ele se confunde, composto pela mesma matéria (Kardec, 2005), mas em outra dimensão, fora do espaço-tempo: o Mundo Espiritual, ou dos Espíritos. Esse Mundo Espiritual é o único legítimo e eterno, o Mundo Material poderia deixar de existir ou nunca ter existido, sem alterar a essência desse mundo espiritual(Kardec, 1999, questões 84-86).

Na tentativa de compreender a magnitude de tal afirmação, oportuno se faz lembrar que a chamada “realidade local” que nos cerca corresponde somente a 12,5% (Nobre, 2012), enquanto que “realidade não local” seria estimada em 87,5%, o que nos remete ao Teorema de Bell quando estabelece que as variáveis ocultas, para serem compatíveis com a mecânica quântica, terão que ser não locais (Goswami, 2003). Felizmente, para uma melhor abordagem dessa “realidade não local” é que surgiu, no início do século XX, a Física Quântica, em virtude de a Física clássica não conseguir explicar os eventos que acontecem fora do espaço-tempo, abaixo da escala de 10-10m (um angstrom). Ela possui princípios, que dão suporte à formatação do conhecimento e de novas teorias, e postulados, que são aceitos como verdades axiomáticas.

O homem procura entender o Universo olhando do mundo material para o mundo espiritual, mas deve estudá-lo do mundo espiritual para o mundo material, auxiliando na construção de novos tempos (Luiz, 2015), em um processo que a Física Quântica denomina de causação descendente. Façamos isso!

Primeiramente, há que se considerar a existência de Deus como causa primeira de todas as coisas, materiais e imateriais, a causa de todas as causas, inferindo-se, por isso, que se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem uma causa inteligente, assim, como não existe efeito sem causa, todo efeito cuja causa não é o homem, lá está Deus.

Deus criou o Princípio Espiritual (Inteligente) e o Princípio Material desde toda a eternidade e, ao mesmo tempo, cujas existências, por se tratar de verdades axiomáticas, não precisam de demonstração, pois se afirmam pelos seus efeitos (Kardec, 2001).

Esse Princípio Espiritual (Inteligente),em sua sequência evolutiva, inicialmente, aprende a respirar nas plantas, movimentar-se nos animais e a pensar no homem, como Ser Inteligente, o Espírito. Há que se considerar, todavia, que embora a inteligência do homem e dos animais tenham a mesma origem, o Princípio Inteligente, passando pelos diversos graus da animalidade para a angelitude, ensaia para a vida hominal como Ser Inteligente, o Espírito, portador do seu livre-arbítrio, trazendo consigo o princípio intelectual e moral que o torna superior aos animais (Kardec, 1999).

O Princípio Material, que também pode ser chamado de Mundo Espiritual, seria constituído de energias de alta potência, de altíssima frequência e curtíssimo comprimento de onda, fora do espaço-tempo, portanto, sendo ele a causa e origem do Mundo Material, pois, conforme retromencionado, esse Mundo Espiritual é o único legítimo e eterno.

Pondere-se, também, que Deus não age diretamente sobre a matéria, ou energia de baixa frequência (Kardec, 1999), pois quem faz isso são os Espíritos Puros, responsáveis por manter a ordem e a harmonia do Universo, coadjuvados pelos Espíritos das demais ordens, como cocriadores (Kardec, 1999). Considere-se que nesse Universo “a matéria, congregando milhões de vidas embrionárias, é também a condensação da energia, atendendo aos imperativos do ‘eu’ que lhe preside à destinação. Do hidrogênio às mais complexas unidades atômicas, é o poder do Espírito eterno a alavanca diretora de prótons, nêutrons e elétrons, na estrada infinita da vida” (Luiz, 2016, p. 18), sendo o elétron um dos corpúsculo-base da matéria elementar, o Fluido Cósmico Universal (Luiz, 2014). Segundo André Luiz (2014), o fluido seria o plasma divino, a origem de tudo, o hausto do Criador ou força nervosa do Todo-Sábio, e é nesse elemento primordial que vibram e vivem as constelações e os sóis, os mundos e os seres, como peixes no oceano.

Diante de tais informações, uma nova leitura do Universo deverá se ampliar mais ainda quando a ciência humana, valendo-se da Física Quântica (multidimensional), ultrapassar a singularidade[8], seja ela do Big Bang, dos buracos negros ou do núcleo atômico, quando irá perceber que ela é “somente” a fronteira entre o local e o não local, entre o Mundo Material e o Mundo Espiritual, onde a gravidade é uma propriedade relativa, pois fora das esferas do mundo material não há peso, nem acima, nem abaixo (Kardec, 1999). E, em dado momento, todos iremos perceber Deus em todos os lugares do macrocosmo, mas somente poderemos compreendê-Lo, e a nós mesmos como Espíritos, no microcosmo.

Leia +: O núcleo atômico

A ciência humana somente conseguirá avançar mais celeremente, quando passar a considerar em suas pesquisas as variáveis ocultas, não locais, tais como: o Fluido Cósmico Universal, o Espírito e, em um futuro não muito distante, Deus como inteligência suprema.

Finalmente, as respostas para aquele homem que conduz seus pensamentos em ordem, seria a de que ele é um Espírito Imortal, veio do Mundo Espiritual e a ele retornará após a “morte” do seu corpo físico.

E que assim seja!

Oduvaldo Mansanide Mello é teólogo, com formação em Ativismo Quântico (dr. Amit Goswami); trabalhador do Centro Espírita Luz da Caridade (CELC), de Curitiba-PR; membro efetivo da AME-PR; e autor do livro O átomo e o Espírito.

Leia +: O que é PSI


[1] Einstein, Podolsky e Rosen criaram, em 1935, as bases para demonstrar algo insólito: a não localidade do mundo quântico (Greene, 2001).

[2] Termo jocosamente cunhado por Fred Hoyle (1915-2001), astrônomo britânico, que detestava a teoria.

[3] “O Universo aberto se expandirá por toda a eternidade” (Morris, 2001, p. 60).

[4] “O Universo plano com a sua expansão vai ficando cada vez mais lenta, porém sem nunca se deter por completo” (Morris, 2001, p. 61).

[5] “O Universo fechado é finito e acabará por se contrair numa grande implosão” (Morris, 2001, p. 60).

[6] Radiação em micro-ondas que abrange todo o Universo, produzida pelo Big Bang.

[7] Tamanho (10-35m) abaixo do qual o conflito entre a relatividade geral e a mecânica quântica torna-se manifesto (que se revela por evidências); tamanho abaixo do qual a noção convencional de espaço se dissolve (Greene, 2001).

[8] Local onde as noções de espaço-tempo se dissolvem.

Referências

DAVID Bohm. Saindo da Matriz, 2006. Disponível em: https://www.saindodamatrix.com.br/david-bohm/. Acesso em: 27 jun. 2021.

GOSWAMI, A. O Universo autoconsciente. Tradução de Ruy Jungmann. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.

GREENE, B.O Universo elegante, supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva.Tradução de José Viegas Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

KARDEC, A. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 36. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

______. O livro dos médiuns. Tradução de Renata Barboza da Silva e Simone T. Nakamura Bele da Silva. São Paulo: PETIT, 2004.

______. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo.Tradução de Victor Tollendal Pacheco. 20. ed. São Paulo: LAKE, 2001.

______. O livro dos Espíritos.Tradução de Renata Barboza da Silva e Simone T. Nakamura Bele da Silva. São Paulo: PETIT, 1999.

______.LUIZ, A. (Espírito). Libertação. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 33. ed. Brasília, DF: FEB, 2016.

______. Nos domínios da mediunidade. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 36. ed. Brasília, DF: FEB, 2015.

______. Evolução em dois mundos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. 27. ed. Brasília, DF: FEB, 2014.

MELLO, Oduvaldo Mansani de. O átomo e o Espírito: uma visão quântico-espírita. Curitiba: [s. n.], 2017.

MORRIS, Richard. O que sabemos sobre o Universo.Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

NOBRE, Marlene. A alma da matéria. São Paulo: FE Editora, 2012.

POWEL, Corey S. A equação de Deus: como Einstein transformou a conceito de religião. Tradução de Ivo Korytowski. São Paulo: Arx, 2005.

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