Os desafios de uma recém-formada na pandemia

Medica triste de mascara e luvas

Querido diário, eis-me aqui, depois de tanto tempo… Hoje, tenho tantas coisas para te contar, minha vida virou de ponta cabeça, mas está tão mais leve, mais feliz e com mais significado!

Me formei! Finalmente consegui o tão sonhado CRM, o qual almejei por pelo menos 11 anos. E já me vi inserida nesta pandemia, que a cada dia assola mais nossa cidade, nosso país e todo nosso mundo. Foi e ainda continua sendo assustadora para nós…

Estou trabalhando em lugares onde eram inimagináveis até seis meses atrás, mas hoje vejo que estou onde realmente deveria estar! Parece clichê, mas quem me conheceu antes sabe o tanto que tinha medo de dar plantão e ainda mais em um hospital. E preciso revelar que, às vezes, olho e penso: o que estou fazendo aqui? Mas a cada plantão, atendo um paciente que me faz criar forças e ter coragem de enfrentar mais esse desafio! Mesmo achando que não tenho conhecimentos necessário para estar ali, Deus vem me intuindo para que consiga resolver um problema sequer e o paciente consiga ter uma melhor qualidade de vida e sair mais calmo. Ontem mesmo teve um caso que gostaria de deixar aqui registrado.

Descaso

Após atender cinco pacientes, fui pegar mais uma ficha, como de costume, e me deparei com uma paciente, um pouco mais velha que eu, em uma cadeira de rodas, com um olhar cabisbaixo, triste e desesperançoso e que mal conseguia ficar sentada. Perguntei o que estava acontecendo para a recepcionista, e esta me respondeu que estava esperando a acompanhante buscar o dinheiro para pagar a consulta.

Quando a acompanhante chegou, me contou que a paciente é portadora de diabetes e estava muito fraca. Então, chamei a enfermeira, colocamos ela na maca e pedi para verificar a sua glicemia. Estava altíssima, e a acompanhante referiu que em outro serviço não foi nem medida e já estava assim há semanas. Assustei-me, e ela continuou: “Nem olharam para ela, doutora”.

Continuei o atendimento, fiz as medidas de suporte e solicitei exames. Vi que a acompanhante ficou apreensiva, pois cada exame que iria ser realizado teria um preço, e a família não tinha condições financeiras para pagar. Elas procuraram o hospital, que é particular, para tentar, pela última vez, um atendimento digno à sua ente querida, que não estava bem!

Passou um tempo e chegou sua tia, que é enfermeira, e começou a me perguntar o porquê de cada exame que foi solicitado e depois me contou sobre a situação da família. Expliquei, e ela aceitou satisfeita, pois entendeu a real necessidade e percebeu que agora a paciente seria cuidada de uma forma diferente do que estava acontecendo anteriormente.

Diagnóstico

Quando os resultados dos exames chegaram, confirmei minhas suspeitas de que seria um caso mais grave do que a família acreditava. Entrei em contato com o especialista, e ele orientou a internação para realizar medicações endovenosas e solicitar mais exames para um melhor acompanhamento. Sabendo de toda a situação, fui em direção ao leito da paciente para lhe explicar o que deveria ser feito. Mas, como o esperado, elas não teriam condições financeiras para arcar com todo o custo do tratamento lá e precisava de transferência para um serviço do SUS.

Fui ao consultório para escrever toda a papelada e, quando voltei, encontrei as duas acompanhantes escondidas aos prantos na entrada do hospital. Estavam com medo e preocupadas com o tratamento, pois já tinham ido no outro serviço e não foram bem atendidas. Além disso, perderam o pai da paciente com esse mesmo diagnóstico. Entretanto, me veio uma força e uma coragem que falei em um tom mais alto e forte: “Não, onde está a fé em Deus? Precisam ter fé, porque ela vai sair dessa e vai precisar de vocês juntas!” Elas arregalam os olhos e enxugaram as lágrimas, e logo a ambulância chegou para buscá-las. Expliquei todos os procedimentos que iriam ocorrer e que agora ela estaria segura e iria receber todo o atendimento. Ao me despedir, recebi um “Deus lhe proteja” tão sincero e vindo do coração que me tocou profundamente.

Dessa forma, finalizei mais um plantão com a certeza de que somos médicos de almas e somos apenas um instrumento da espiritualidade para realizar a arte de cuidar do próximo!

Thaíssa Martins Miranda é médica e coordenadora-geral do Departamento Acadêmico da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil). Já foi coordenadora de Extensão do Departamento Acadêmico da AME-Brasil e coordenadora regional do estado de São Paulo da Associação Acadêmica das Ligas e Grupos de Estudos em Saúde e Espiritualidade (AALEGREES), além de ter fundado e ter sido presidente da Liga Acadêmica de Saúde e Espiritualidade “Dr. Décio Iandoli Jr.” (LIASE) da Universidade São Francisco, campus Bragança Paulista.

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