Pioneira do Espiritismo no Brasil, Isabel Salomão de Campos tem história narrada em livro

Cláudia Santos

Nascida no interior de Minas Gerais, em 1924, Isabel Salomão de Campos é da primeira geração de brasileiros de uma família de imigrantes libaneses. Criada no sertão mineiro, em uma fazenda, a menina mostrou ser diferente desde pequena. Aos 9 anos, via e ouvia coisas que não conseguia explicar, benzia pessoas sem acesso a remédios e a cuidados médicos e, aos 14, conseguiu sozinha a autorização do prefeito de sua cidade para criar uma escola para os filhos dos colonos. A professora seria ela própria.
Quando descobriu que as tais “coisas” que via desde a infância eram Espíritos se comunicando com ela, Isabel deu início a um longo processo de aprendizado no Espiritismo, sendo a primeira mulher a erguer publicamente sua voz para falar desse mundo invisível. Sua vida foi marcada pela luta contra o preconceito religioso e contra a invisibilidade imposta às mulheres.

Isabel em dois momentos: na juventude e hoje, aos 96 anos


Obstinada, ela criou outras duas escolas, retirou mais de 500 crianças das ruas ao longo de toda a vida e construiu uma rede de solidariedade que atende a famílias em situação de vulnerabilidade social em mais de 40 bairros de Juiz de Fora (MG), cidade onde ainda mora e fundou A Casa do Caminho, uma casa espírita não só para celebração da sua fé, mas também de acolhimento.
Dias antes de completar 96 anos, Isabel, que em agosto teve sua vida transformada no livro Os dois mundos de Isabel, falou à Folha Espírita:
FE – Dona Isabel, em uma vida que soma quase 100 anos e com tantas histórias, que mensagem a senhora nos deixa sobre praticar o bem?
Isabel –
Praticar o bem é a vacina divina contra todos os males que podem atacar o corpo e a alma. Além de tudo pacifica, orienta e esclarece o Espírito, que é o dono da vida.
FE – Numa das passagens do livro Os dois mundos de Isabel, o que mais me chamou a atenção foi quando a senhora fala sobre o poder do pensamento. Por que é importante cuidar dele?
Isabel –
É o pensamento que alimenta as nossas decisões. Você pensa, depois você fala e age de acordo com o pensamento. Semelhante atrai semelhante. Se você pensa negativamente de forma natural, os Espíritos negativos vão encontrar acesso em seu sentimento. Se você vigiar, como é a mensagem de Jesus, Vigiai e Orai, o vigiai quer dizer isso, alimentar a sua vida com os pensamentos sadios, pensamentos positivos, pensamentos que só alimentam bondade. É assim que resguardamos a nossa saúde, pensando no bem. Agindo bem vamos atrair para nós o bem, o que nos faz bem em todos os sentidos da vida.
FE – A senhora, que trabalhou e sempre se preocupou com a educação desde menina, acha que, de fato, ela muda o Espírito? Por quê?
Isabel –
Claro! É pela educação que vamos conquistar o nosso ir e vir sem maiores dificuldades, é pela educação que vamos conquistar o equilíbrio dos nossos sentimentos, é pela educação que vamos garantir a saúde do nosso Espírito – e essa saúde do Espírito se projeta no corpo físico. Então, antes de tudo, antes da doença do corpo, precisamos da educação, que é o remédio que evita doenças desnecessárias. Eduquemo-nos, educando o nosso próximo. A educação leva você ao amor, ao respeito ao próximo. Antes do tratamento da saúde física, devemos nos educar. Sem educação não teremos uma sociedade feliz, de respeito, de solidariedade. É muito bonita a educação divina ensinada pelo Mestre Maior, Jesus.
FE – Em todos esses anos, a senhora passou por muitas transformações no Brasil e no mundo. Como vê essa evolução e onde acha que precisamos evoluir como humanidade?

Isabel e o marido Ramiro no início do casamento e durante a construção do Lar do Caminho


Isabel – Estou com 96 anos, posso dizer aos meus irmãos que na minha mocidade eu não tive o conforto que tenho hoje, eu tinha meios econômicos, mas não tinha conforto. Hoje a gente já tem conforto, embora às vezes não tenha a condição econômica, mas a tecnologia e a ciência avançaram bastante, nos oferecem muito mais recursos e conforto. Graças a Deus, esse progresso aconteceu e continua acontecendo. Mas falta progresso espiritual, o progresso das emoções, da solidariedade. Falta amor e solidariedade, respeito ao nosso próximo, respeito à vida, amor à vida, amor à natureza de todos os sentidos.
FE – A senhora teve a oportunidade de estar algumas vezes com o médium Chico Xavier, como foram esses encontros?
Isabel –
O encontro com o Chico era sempre sinônimo de felicidade! Nunca tive uma conversa em particular com ele, porque estava sempre cercado por multidão, e quando eu o conheci, eu já contava com o meu trabalho, e o Chico já estava bem velho, então essas oportunidades foram sempre de felicidade, mas nunca com a chance de uma conversa longa. Ele esteve na Casa do Caminho, visitou o nosso trabalho.
FE – O que a inspirou a criar o projeto Médicos do Bem?
Isabel –
O meu trabalho é e sempre foi mediúnico. Nunca estudei a Doutrina Espírita, nunca tive um amigo espírita, abracei a Doutrina porque, aos 9 anos, eu via os Espíritos, e eles falavam comigo, embora eu morasse em fazenda no meio da lavoura. Essas presenças maravilhosas foram me orientando, até que um dia um amigo me encaminhou ao centro espírita e lá eu fiquei sabendo que eu estava vendo não eram coisas. Aí eu me libertei daquele receio. Embora continuasse vendo e ouvindo, passei a ter uma vida feliz. Os Espíritos me orientaram em todos os campos. Trabalhei 70 anos mediunicamente a filantropia do Evangelho de Jesus. E havia muitos doentes em torno de mim. Então, recorri ao meu mentor, perguntando como deveria agir. Recebi a orientação sobre fazer reunião para os profissionais da área da Saúde e ensinar a eles a tratarem do Espírito, porque a doença começava nele. Nasceu ali o projeto Médicos do Bem.
FE – Aos 96 anos, a gente sabe que a senhora não para. O trabalho é importante? Por quê?
Isabel –
Estamos aqui para cumprirmos uma tarefa divina. Não nascemos por acaso nem estamos aqui numa viagem turística. Temos uma programação de Deus que nos foi entregue para que façamos da Terra uma escola. Tudo que fica parado enferruja. As nossas obrigações são crescentes de acordo com a nossa cultura. Um trabalho digno é prece eterna, não podemos nos esquecer disso. Precisamos trabalhar para o bem físico, para o bem espiritual, para o bem emocional, para o bem social, para o bem coletivo. Estamos aqui para sermos úteis em nome de Deus.
FE – A senhora gostaria de deixar uma mensagem para os leitores da Folha Espírita?
Isabel –
É lendo que se toma conhecimento das coisas, e a Folha Espírita nos traz sempre mensagens de esperança, que edificam. Que Deus abençoe os que escrevem e os que leem. Que os leitores façam um bom uso da mensagem deste jornal, que se preocupa com a paz, com o equilíbrio e o progresso do ser humano.

A biografia trata de dois mundos: material e espiritual

Os dois mundos de Isabel conta a história de vida de Isabel Salomão de Campos, que, em 22 de setembro, completou 96 anos e ganhou uma live comemorativa de aniversário, com homenagens vindas de todo o país. Lançado em agosto pela Editora Intrínseca, a biografia foi escrita pela jornalista Daniela Arbex (foto), que, desde os 15 anos, convive com a médium: “Quando conheci a dona Isabel, fiquei muito impactada. Eu, que pautei minha carreira na defesa dos direitos humanos, nas questões sociais, após escrever outras obras, percebi que não podia deixar de contar a história de uma mulher como ela. Tinha receio, claro, por sermos amigas, mas cheguei à conclusão que deveria fazer isso, justamente por conhecer parte da sua história. Se eu não contasse, a história não me perdoaria”, afirma Daniela.

Daniela Arbex, jornalista responsável pela biografia.

Decisão tomada, a autora passou as noites de 2018 entrevistando Isabel, muitas vezes madrugada afora. “Fui atrás dos personagens que ela citava. Entrevistei 150 pessoas em várias partes do país, e 100 delas estão no livro, que é uma obra jornalística”, declara a jornalista, que passou parte de 2019 escrevendo o livro, que tem a história do Brasil como pano de fundo. “São muitas as passagens no livro, mas algo que merece ser destacado é a forma como dona Isabel descobriu e usou sua mediunidade. Ela sempre disse que não era ela quem curava, mas Jesus”. 

Obras de sucesso

Daniela assina outras obras de sucesso: Holocausto brasileiro, reconhecido como o melhor livro-reportagem do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013) e segundo melhor no prêmio Jabuti (2014), com adaptação para documentário pela HBO; e Cova 312, vencedor do prêmio Jabuti na categoria livro-reportagem (2016). Também é de sua autoria Todo dia a mesma noite, de 2018, que narra a história não contada do incêndio da boate Kiss. Eleita a melhor repórter investigativa pelo Troféu Mulher Imprensa em 2020, acumula mais de 20 prêmios nacionais e internacionais. Repórter especial da Tribuna de Minas por 23 anos, Daniela dedica-se atualmente à literatura.

Livro tem  prefácio de Caco Barcellos

No final de setembro, Os dois mundos de Isabel havia alcançado três mil exemplares vendidos e se encontrava entre as 20 biografias mais comercializadas do Brasil. O livro, que tem versão impressa e em e-book, pode ser adquirido nas principais livrarias do país e pelos sites da Amazon, Americanas, Submarino e Magazine Luiza.

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