Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz

(Foto: André Cherri)

A impressionante história do médium mineiro José Pedro de Freitas, o Arigó, reconhecido como um dos maiores fenômenos mediúnicos da história, será contada em Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz, filme com Danton Mello e Juliana Paes, dirigido por Gustavo Fernandez, que estreia em 1º de setembro nos cinemas. Danton dá vida a Arigó, e Juliana interpreta Arlete, esposa do médium, que esteve ao lado do marido quando ele aceitou seu destino e se tornou uma esperança de cura para milhares de pessoas. O longa conta ainda com Marcos Caruso, Alexandre Borges, Marco Ricca, Cássio Gabus Mendes, João Signorelli e James Faulkner no elenco.

A roteirista Jaqueline Vargas pesquisou extensamente a vida do médium, em fontes diretas e muitos livros, sendo um dos principais Arigó e o Espírito do Dr. Fritz, escrito pelo jornalista e escritor americano John G. Fuller, para construir o roteiro original do filme. A obra literária, lançamento da Editora Pensamento, acompanha a estreia do filme nos cinemas. Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz é produzido pela Moonshot Pictures, de Roberto D’Ávila, FJ Produções, de Fabio Golombek, The Calling Production, de James Guyer, e coproduzido pela Paramount Pictures e Camisa Listrada BH, com distribuição da Imagem Filmes. Tem a direção de fotografia de Uli Burtin, direção de Arte de Antônio de Freitas e trilha sonora de Gus Bernardo.

Por intermédio do Espírito de Dr. Fritz, médico alemão falecido durante a Primeira Guerra Mundial, José Arigó se tornou uma esperança de cura para milhões de pessoas ao redor do mundo. Ele foi alvo de críticas por parte dos mais céticos, mas, com o apoio de sua esposa, conseguiu salvar inúmeras vidas com a cirurgia espiritual.

“Surpresa e emoção definem bem o filme”

(Gustavo Fernandes, diretor)

Da esq. p/dir. os produtores Roberto D’Ávila, James Guyer e Fabio Golembek e o diretor Gustavo Fernandes (Foto: André Cherri)

Folha Espírita – Por que trazer a vida de José Arigó aos cinemas?

Gustavo Fernandes – Era um projeto antigo que Roberto D’Ávila, dono da Moonshot, a produtora do filme, vinha tentando viabilizar. Eu sou diretor da TV Globo há 20 anos, e Roberto assistiu a um trabalho que eu tinha liderado como diretor-geral, gostou e me convidou para dirigir esse filme. A partir daí, surgiu o meu envolvimento com o projeto, e logo de cara eu já percebi a motivação que o movia: fica muito evidente que é o próprio personagem. Arigó é um homem fascinante, com uma história de vida incrível, pelas características e pelo tempo que exerceu a mediunidade com tanta relevância. Ele chegou, em sua época, a ser uma das pessoas mais famosas do Brasil, ao lado de Roberto Carlos, Pelé e Silvio Santos. As pessoas vinham visitá-lo em caravanas, excursões do país inteiro e do mundo. Chegou a existir uma linha de ônibus que ligava Buenos Aires a Congonhas do Campo (MG), a cidade onde ele morava e exercia seu trabalho. Então, na verdade, eu até me pergunto como esse filme não foi feito antes, porque realmente é uma história fascinante, sob medida para virar um filme.

FE – Danton Mello e Juliana Paes estão nos papéis principais. Comente sobre a integração deles com a história e de que forma foi feita a seleção do elenco.

GF – Danton e Juliana são dois grandes ganhos para a história. Foram de uma dedicação total ao filme, aos personagens. Eles fizeram realmente um trabalho belíssimo. Danton tem uma atuação incrível, e Juliana mostra uma faceta de atriz muito diferente daquela que normalmente é chamada a fazer. Em relação ao restante do elenco, duas coisas nos pautaram: existiam algumas pequenas participações, mas de personagens que são quase ícones e muito representativos das várias fases da vida de Arigó. Tinham de ter uma presença marcante. Para esses personagens, quisemos chamar atores muito conhecidos. Alexandre Borges faz o deputado que é o primeiro paciente de uma cirurgia espiritual. Marcos Caruso faz o padre de Congonhas, que representa a perseguição sofrida por Arigó, da alta cúpula da Igreja. Marco Ricca faz o juiz que o condenou – Arigó sofreu uma perseguição judicial. Cássio Gabus Mendes faz o delegado da prisão onde ele ficou detido após a condenação. Nas outras inúmeras participações – como os companheiros de trabalho de Arigó, pessoas da família, pacientes, pessoas que transitam pela história –, tentamos usar principalmente atores mineiros para ter o máximo dessa cor local.

FE – Sobretudo na última década, assistimos a um grande avanço nas produções do cinema com temática espírita. Como você avalia esse segmento e o interesse do público?

FE – É um segmento importantíssimo, que já gerou grandes filmes, algumas das maiores bilheterias do cinema brasileiro nos anos em que foram lançados, e acho que ainda existem muitas histórias para serem contadas. Penso também que a mensagem, sim, é importante, mas quanto maior a qualidade do projeto, no seu valor cinematográfico, melhor será para o segmento como um todo. Isso foi algo que tentamos fazer em Predestinado. É um filme que certamente vai interessar ao público espírita, mas desperta muito interesse em quem não necessariamente pratica essa religião. É um bom caminho para o segmento de filmes ligados à causa espírita.

FE – Que surpresas ou emoções as pessoas podem esperar em Predestinado?

GF – “Emoção” é uma palavra que as pessoas podem associar à experiência de assistir ao filme, principalmente para quem, como eu, lembra-se dele ainda vivo. Eu ainda era criança e me lembro de ver reportagem de TV, uma lembrança muito difusa, mas o nome não me era estranho quando eu fui chamado para fazer o filme e me surpreendeu saber mais sobre a vida dele. E para quem é de uma geração mais nova, acho que vai ser muito interessante, bastante surpreendente ter contato com essa figura incrível. Surpresa e emoção definem bem o filme.

“Focar no homem foi o maior desafio”

(Jaqueline Vargas, roteirista)

(Foto: Priscila Prade)

FE – Como chegou até você a ideia de fazer a cinebiografia de Arigó? Você já conhecia a sua história? Como foi esse primeiro contato?

Jaqueline Vargas – A ideia chegou através do produtor Roberto D’Ávila. Roberto há muitos anos desejava fazer um filme sobre Arigó e me pediu para pensar em como contaria a história dele. Tinha ouvido falar muito em Dr. Fritz, mas não tinha nenhuma familiaridade com o nome Arigó. Foi um primeiro contato com o personagem.

FE – Quais foram os principais materiais de pesquisa para o desenvolvimento do roteiro?

JV – Arigó foi extremamente conhecido enquanto estava vivo, e a quantidade de livros e material escrito sobre ele é muito extensa. Devo ter lido uns 20 livros sobre a vida dele. Fora isso, fui a Minas Gerais, mais precisamente a Belo Horizonte, Congonhas e Lafayete. Fiz uma pesquisa local e entrevistas.

FE – Quais foram as pessoas que você entrevistou? Como se deram os primeiros contatos com a família dele?

JV – Os primeiros contatos foram feitos através do produtor. Basicamente, entrevistei a família de Arigó. Estive na casa do filho Sydney, em Congonhas, com quem passei mais tempo, mas tive a oportunidade de falar com todos os outros. Além dos filhos, pude falar com parentes de Arlete e pessoas que o conheceram.

FE – Qual foi o maior desafio em contar a história de Arigó durante a elaboração do roteiro?

JV – O ponto central do roteiro é o dilema de Arigó entre aceitar a missão oferecida por Fritz e tentar ter uma vida comum. E isso foi justamente o maior desafio. Focar no homem, e não na “entidade”. Durante todo o processo existiu a cautela de não fazer um filme religioso ou defender esta ou aquela bandeira.

FE – Qual a sua expectativa em relação ao filme?

JV – Espero que com o filme, a geração mais nova possa saber quem foi Arigó. Hoje em dia, a cirurgia espiritual é aceita, mas existiu todo um trajeto para que isso acontecesse. Arigó contribuiu para que tivéssemos essa possibilidade.

“Arigó ajudou as pessoas em detrimento de si mesmo e da própria família”

(Roberto D’Ávila, Fabio Golembek e James Guyer, produtores)

FE – Como surgiu a ideia de fazer o filme sobre Arigó?

Roberto D’Ávila – Eu tenho uma memória da existência do Arigó de quando era criança e esse ser um assunto muito polêmico. Mas o que me mais nos encantou e foi o motivo pelo qual decidi contar essa história foi entender que era uma narrativa que permitia falar de uma pessoa que fez pelos outros. Arigó ajudou as pessoas em detrimento de si mesmo e da própria família, ele se doou para uma causa, uma missão, e isso me encantou mais que o mistério do fenômeno em si. É por isso que esse filme é sobre o Arigó, e não sobre o Doutor Fritz. Arigó carregou nos ombros essa carga e, no final, ele é obrigado a abrir mão da sua própria vida em função dessa missão, pois ele não poderia simplesmente parar com as curas. Partindo desse ponto, que o filme fala da vida do Zé Arigó, nós nos preocupamos em contar e entrar na intimidade do personagem e mostrar a família e sua esposa, mostrar a relação dessas pessoas com ele.

Fabio Golombek – Eu já conhecia a história do Arigó há muitos anos. Inclusive cheguei a fazer uma matéria para a TV Bandeirantes em meados dos anos 1980 com o Dr. Edson Queiroz, que foi a segunda pessoa a incorporar o Dr. Fritz – o médico que o Arigó incorporava. Em 2012, fui coprodutor de um filme dirigido pelo Márcio Garcia com o ator Andy Garcia, Open Road. O Andy conhecia a história por via de um amigo, o ator Alan Arkin, que havia escrito um roteiro sobre a vida do Arigó, mas com a perspectiva de um jornalista americano que visitava o Brasil. O Andy apresentou o projeto e o produtor que estava associado, Jim Guyer, para meu sócio na época, que por sua vez me convidou a participar. Tentamos durante alguns anos, juntamente com o Jim, a levantar o financiamento nos Estados Unidos e acabamos desistindo e passando o projeto para o Roberto D’Ávila, da Moonshot Pictures no Brasil. O Roberto resolveu escrever um novo roteiro, praticamente do zero, onde a história se concentrava no drama da vida do Arigó, não na história de um jornalista estrangeiro. O Jim Guyer continuou envolvido e ajudou o Roberto a contatar a família do Arigó em Congonhas do Campo. Quando o roteiro ficou pronto, fui convidado por eles a retornar ao projeto. Era um projeto bem diferente do original e até bem mais profundo e interessante. Imediatamente aceitei.

James Guyer – Tenho interesse em cura e estava lendo diferentes livros sobre pessoas com diferentes abordagens e diferentes percepções sobre como e por que eles fizeram o que fizeram. Durante vários anos, tive aulas de arte e pintava bastante. Gostei e encontrei satisfação quando completei uma peça bastante atraente. Depois de algum tempo, porém, comecei a pensar que isso é muito trabalho, com o resultado final sendo que poucas pessoas realmente veem a arte. A ideia de fazer filmes em vez de pintar estava começando a ser lançada em minha mente, e então eu li sobre Arigó e imediatamente soube que sua vida deveria ser um filme.

FE – Quais foram os principais materiais de pesquisa?

RA – Nós partimos de uma pesquisa e referência que é o livro de John G. Fuller, Arigó: o cirurgião da faca enferrujada (republicado agora com o título Arigó e o Espírito do Dr. Fritz, pela Editora Pensamento), além de outros documentos, como a película de Jorge Rizzini, que resgatamos, e filmes do cientista norte-americano Henry Puharich, que restauramos; na época ele veio em uma expedição com mais de 40 cientistas para estudar o caso de Arigó. Depois, convidei a Jaqueline Vargas para escrever o roteiro, e ela ficou cerca de um mês na cidade de Congonhas entrevistando familiares e pessoas que tiveram uma ligação direta com Arigó, para ter uma visão ampla e de vários pontos sobre a vida do personagem. Ela leu também todos os materiais disponíveis e cerca de 30 livros sobre a obra do médium.

FE – Como se deram os primeiros contatos com a família dele?

RA – Estivemos em contato com os filhos do Arigó desde o início do filme, pois são testemunhas vivas e que viram tudo acontecer. Além disso, embora os filhos tivessem observado o próprio fenômeno, eles trouxeram relatos domésticos que era uma faceta do Arigó que nos interessava muito, pois o filme é sobre ele.

FE – O filme traz moradores das cidades como figurantes. Como foi essa experiência?

RA – Nós escolhemos trabalhar com moradores de Cataguases e Rio Novo, locações principais do filme, e chegamos a ter cerca de 300 figurantes em um dia de gravação. Tivemos um resultado muito enriquecedor em poder trabalhar com pessoas locais e que imprimem a verdade daquela região na tela. Além disso, não teve um dia no set de filmagem que alguém não nos contasse uma história pessoal com o Arigó.

FE – Ao todo, quantos dias de filmagens?

RA – Cinco semanas de filmagens.

(Foto: André Cherri)

“Sua bondade e entrega emocionam”

(Danton Melo, ator)

FE – Como surgiu o convite para ser o protagonista do filme?

Danton Melo – Eu recebi um telefonema da Vivian Golombek, que é a produtora de elenco do filme e é irmã do Fabio Golombek, que é o produtor e parceiro do Roberto D’Ávila. Na ligação, a Vivian me explicou que tinha um projeto e que eles queriam muito que desse uma olhada no roteiro e eu fizesse parte do projeto. Na época que recebi o convite, estava gravando uma novela, enfim, vi tudo, bati um papo com ela – conhecida por muitos anos – e no final do telefonema expliquei que não tinha data na verdade, e como expliquei estava gravando uma novela, na sequência tinha um outro projeto (na época estava fazendo o Tá no Ar) e falei que só estaria livre em uns 10 meses. Foi quando ela falou que eles iam rodar justamente naquele prazo. Li o material, tive encontros com o Fabio Golombek, Roberto D’Ávila e depois com o diretor Gustavo Fernandez e começamos a tocar o projeto.

FE – Já conhecia a história de Arigó?

DM – Já tinha ouvido falar. Ele realmente foi uma pessoa muito famosa em Minas Gerais, na minha terra, mas sabia vagamente, sabia que existia um médium Arigó e que incorporava um médico e tinha feito cirurgias. Não conhecia profundamente a história dele, o tempo que ele operou, a quantidade de pessoas que ele atendeu (fazendo cirurgias), conhecia vagamente, mas já tinha ouvido falar, sim.

FE – O que mais o surpreendeu e comoveu na história dele?

DM – A bondade, a entrega, isso realmente achei muito emocionante. Ele, durante mais de 20 anos, abriu mão da vida pessoal dele para ajudar e atender os necessitados. Ele é de um coração gigante (um homem iluminado), ele não cobrava nada, ele dizia que isso era um dom que ele tinha recebido e não podia cobrar por isso, então, durante décadas, operou milhares de pessoas. Um homem de uma generosidade, bondade, e realmente é lindo. E nos dias de hoje na situação que o mundo está passando, ele é um grande exemplo de como a gente precisa olhar e ajudar o próximo. Acho que esse filme vai chegar no momento certo, o momento que a gente vai estar saindo dessa situação maluca que estamos vivendo.

FE – De que maneira acredita que o filme vá tocar as pessoas?

DM – Ele tem uma história de vida muito linda, por tudo que já falei, pela ajuda que ele deu para tantas pessoas e uma vida dura, vida simples, um homem muito humilde e que sofreu preconceito, foi perseguido, por isso que vai tocar nesse sentido. Ele era um cara que queria praticar o bem, fez o bem e ajudou muito as pessoas, e é por isso que falo que o filme vai chegar em um bom momento. Hoje estamos vivendo esse isolamento social, esse distanciamento, e querendo ou não é uma tentativa de um olhar mais para o outro, uma forma de deixar de olhar só para a gente (para o nosso próprio umbigo). Então é isso: ele é um exemplo de luz e amor. Sua história me emocionou muito. Um dos seus filhos teve uma doença e ele não pôde curar o filho, acho isso muito forte no filme, ele ajudar milhares de pessoas e ver o filho sofrendo. Ele realmente tem uma vida muito dura, mas nada disso o impediu de ajudar o próximo.

FE – O personagem se transforma quando está incorporado. São praticamente dois personagens que você interpreta. Como se preparou?

DM – Exato são dois personagens. A gente fez um trabalho (eu e o Gustavo Fernandez) muito intenso de leituras, fiz também uma preparação corporal – achava importante que eles fossem duas pessoas, na verdade eles são duas pessoas. Toda referência que a gente teve de leitura e de pessoas que conviveram com ele é que ele era realmente outra pessoa quando ele incorporava o doutor, desde o modo de falar, nos gestos. A gente fez um trabalho muito bacana, muito intenso, de leitura, e sou um ator que valorizo muito o trabalho corporal – acho que nosso corpo fala –, o corpo é o instrumento do ator, e focamos muito nisso. Diferenciar os dois na voz, no gestual, no comportamento, no jeito de andar, e terminou sendo um trabalho lindo.

“Ele é de um coração gigante. Não cobrava nada, dizia que era um dom que tinha recebido e durante décadas operou milhares de pessoas. Nos dias de hoje, na situação que o mundo está passando, é um grande exemplo de como a gente precisa olhar e ajudar o próximo. Acho que esse filme vai chegar no momento certo, o momento que a gente vai estar saindo dessa situação maluca que estamos vivendo”

FE – Quais os desafios de se interpretar um personagem real na ficção? Você buscou referências e registros antigos de Arigó para compor o personagem?

DM – Sim, um desafio. Nesse caso, foi um desafio duplo porque foram dois personagens dentro de uma mesma história. Tive vários encontros com a família (filhos), li muitos materiais sobre ele, tive acesso a muitas imagens, e isso foi acrescentado a todo trabalho que a gente fazia (eu e o Gustavo Fernandez). Foi um trabalho de pesquisa muito interessante e árduo – eram muitos materiais –, mas valeu a pena, foi importante para compor esses dois personagens.

FE – Há alguma curiosidade das filmagens que possa contar?

DM – Tenho uma curiosidade que não é das filmagens. É de como cheguei nesse projeto: depois que conversei com a Vivian Golombek – que ela me fez o convite –, recebi o roteiro, todo roteiro que recebo de cinema, ou de teatro, gosto de sentar no meu escritório e tiro duas horas para poder embarcar (entrar) na história. Gosto de ler de uma vez! E isso é para todos os projetos que eu recebo, é assim que eu leio. E esse filme depois que ela me fez o convite, fiquei me questionando muito porque não sou uma pessoa religiosa e fiquei pensando: “Caramba! Esse roteiro, essa história de médium”. Comecei a ler, tive uma crise de choro – sei lá! – antes da página dez. Parei! Voltei a ler no dia seguinte, li mais 15 a 20 páginas e tive outra crise de choro e com isso não consegui ler esse roteiro de uma vez, li esse roteiro em uma semana, tendo crise de choro, me questionando o “por quê” de esse roteiro ter chegado pra mim, eu que não acreditava, eu que não tinha acesso a isso, não convivia com ninguém que tivesse uma religião (até porque esse filme transformou bastante minha vida). E terminou sendo um processo ler esse roteiro, e quando eu acabei liguei na hora para a produtora de elenco falando que estava dentro do projeto. “Eu tôdentro, quero muito contar essa história. Eu preciso ser esse mensageiro, preciso ser esse ator que vai contar a história desse homem iluminado, esse filme não é só para mostrar a história dele, é um filme que veio pra transformar, acho que estava no momento da minha vida que eu precisava de algo assim”. Essa foi uma curiosidade, não aconteceu nas filmagens, e sim no meu processo de leitura. E realmente fiquei muito emocionado e mexido.

FE – Como foi rodar no seu estado natal?

DM – Foi sensacional [risos]. Minha terra que amo, apesar de não ter vivido lá, tenho Minas Gerais e a cidade de Passo como minha raiz. Sou mineiro! E tenho muito orgulho de ser mineiro, sempre muito bom estar em Minas Gerais, e terminou sendo emocionante contar a história desse homem, mineiro, da cidade de Congonhas. Foram 37 dias de filmagem (se não tiver enganado), e fiquei em Minas Gerais, rodamos nas cidades de Cataguases, Rio Novo e a cidade natal dele, Congonhas. A gente rodava seis dias por semana e folgava um. Fiquei lá o tempo inteiro, e isso foi algo muito novo na minha carreira e vida [risos]. Já fiz alguns filmes fora do Rio de Janeiro, e nos dias de folga era para voltar pra casa, folga era para ver família, amigos, mas nesse caso eu decidi ficar lá. Então, fiz o inverso, e minha família terminou indo pra lá para que eu não saísse daquele universo que estava vivendo, achei que fosse muito ruim para o nosso processo de trabalho depois de seis dias de filmagem, porque foi muito intenso, eu quebrar essa linha de pegar estrada, voltar para cidade grande, ver muita gente [risos]. Então, falei: “Quero ficar aqui. Quero respirar esse ar”. Então, minha esposa Sheilla Ramos terminou indo pra lá várias vezes, minhas filhas (por coincidência elas estavam de férias no Brasil) e inclusive a minha mais velha – Luísa – passou 10 dias comigo lá e também foi emocionante ter ela do meu lado nesse momento. Hoje inclusive ela faz cinema, acho que esses dias que ela passou lá comigo no set de filmagem acompanhando, aprendendo (ela foi muito bem recebida pela equipe) foi um empurrãozinho pra tomar essa decisão de cursar cinema. Então, foi emocionante estar em Minas Gerais e poder contar essa história.

(Foto: André Cherri)

“Todos devem conhecer um médium tão importante como ele, assim como o Chico Xavier”

(Juliana Paes, atriz)

FE – Como surgiu o convite para participar do filme?

Juliana Paes – Eu já havia trabalhado com o Roberto D’Ávila e a Moonshot Pictures em um reality show chamado “Por um Fio”, que fui apresentadora em duas temporadas, mas em set de filmagem foi a primeira vez que o convite veio, novamente, pelo Roberto, além do Gustavo Fernandez, nosso diretor. Anteriormente, eu já havia comentado com o Roberto que meus objetivos de futuro eram personagens que fossem bem diferentes de mim, que eu buscava histórias que estivessem distantes do meu estereótipo e que existisse um algo a mais. E eles me trouxeram a Arlete, que era exatamente o que eu estava em busca.

FE – E como foi trabalhar com o Gustavo?

JP – Eu já conhecia o Gustavo, e ele é um gênio! Ele não é o tipo de diretor que só senta na cadeirinha, ele realmente põe a mão na massa, entende de todos os processos, e ele é muito humano! E isso me encanta muito, porque ele sabe olhar para o ator na hora que precisa e dá aquele toque assertivo, sabe? Nas filmagens, a gente ensaiava, e ele dava um pequeno sopro no nosso ouvido, e era aquilo o suficiente. Ele é preciso! Isso dá muita confiança, o set fica leve e você sabe que pode se entregar. Eu gosto de ser dirigida, e quando você sabe que tem um diretor preciso, dá uma sensação de segurança muito gostosa.

“Eu sou criada numa família espírita, então essa temática é muito natural para mim, mas eu sei que para muitas pessoas esse assunto tem um tom de fenômeno e mistério, por isso acho importante a gente contar a história do Arigó”

FE – Você já conhecia a história de Arigó?

JP – Zé Arigó, na minha concepção, foi o precursor dessas cirurgias espirituais. Quando ele morreu, eu nem era nascida, mas já tinha ouvido falar, porque venho de uma família muito espírita e espiritualizada também, então era comum conversas entre os meus pais, com a minha avó e alguns familiares mencionando essas figuras. Lembro que falavam de personas que fizeram história com essas cirurgias espirituais, como o Chico Xavier, então o nome do Zé Arigó sempre teve presente nessas conversas.

FE – Como você descreve a Arlete?

JP – Arlete era a esposa e prima de 4º grau de Zé Arigó. Ela era alguns anos mais velha do que ele e sempre foi uma mulher de esteio para ele. Arlete sempre foi uma mulher de presença forte, com muita personalidade, uma mulher em quem ele se apoiava e acolhia. Ela sempre foi uma grande companheira, embora num primeiro momento não tenha sido incentivadora dessa missão de Arigó em atender todas as pessoas que o procuravam e achava que ele não deveria dar ouvido para as vozes que ele escutava. Ela o ajudou quando ele duvidou da própria sanidade, o levando em muitos médicos e tentando entender o que estava acontecendo com as dores de cabeça, visões e luzes que ele via. Como ela sempre foi muito católica, mesmo apoiando o Arigó, ela não concordou com ele no início, mas entendia que ele precisava acabar se livrando daquela angústia e sofrimento. Percebo Arlete como uma fortaleza, como uma rocha! Ela é uma mulher forte, resoluta e que sempre foi um apoio para o Arigó. As cirurgias praticadas por Arigó nunca foram remuneradas, e eles eram muito humildes, então por muitos momentos, foi Arlete com seu ofício de costureira, debruçada naquela máquina, quem trouxe o sustento para a família durante muitos momentos.

FE – Você interpretou a Arlete em 3 fases. Como foram as caracterizações para você?

JP – Foi impressionante! Os profissionais são extremamente precisos, pois quando eu chegava para a maquiagem, eles já sabiam exatamente que marca de expressão colocar ou tirar, qual cabelinho branco ou mais escuro precisava manter. E é incrível que embora seja muito rápido, o resultado é muito marcante. Para mim, o figurino e a caracterização são 50% do trabalho do ator, porque quando a gente veste a roupa, muda o rosto e o cabelo, o nosso corpo já fica diferente, a gente já entra em um outro universo. É uma magia que acontece, e para mim é essencial para terminar de desenhar a personagem na minha cabeça.

FE – Qual foi o maior desafio durante as filmagens?

JP – O grande desafio nesse filme foi não dar um tom paranormal para a história do Zé Arigó. E para isso buscamos nos apoiar na verdadeira história do Arigó e tentar reproduzir todos os detalhes que tivemos acesso. Não se trata de uma ficção. Essa história aconteceu, as pessoas são reais, e os filhos dele estão vivos e vieram nos acompanhar nas filmagens. Tudo que a gente conta está documentado. Então como se explica? Como se explica você cortar alguém e não ter contaminação? Como se explica as pessoas não sentirem dor? Como se explica a cicatrização tão rápida? Como se explica as pessoas não terem uma queda de pressão ou desmaio? Outro desafio, principalmente na segunda e na terceira fase, foi vestir essa personagem que é tão diferente de mim, tão simples e com muito mais idade do que eu tenho, com um corpo e uma vivência que eu não tenho. Mas embora tenha sido um desafio, por outro lado foi muito libertador, pois pude me despedir da vaidade, gravar cenas de cabelo branco, de óculos e com as marcas de expressão acentuadas. Foi bom ter o compromisso de simplesmente ser. Só ser é muito bom!

FE – Qual sua expectativa para o filme?

JP – Eu sou criada numa família espírita, então essa temática é muito natural para mim, mas eu sei que para muitas pessoas esse assunto tem um tom de fenômeno e mistério, por isso acho importante a gente contar a história do Arigó, porque é imprescindível, todos os brasileiros devem conhecer um médium tão importante como ele, assim como o Chico Xavier. São pessoas que vivem para ajudar e têm como única missão nesta vida ser instrumento para outras entidades espirituais que estão presentes entre nós e querem ajudar. A minha expectativa é que as pessoas conheçam esse médium excepcional, essa criatura fantástica, que viveu uma vida de bondade e amor pelo próximo. Mas espero também que as pessoas entendam que, além do que a ciência pode explicar ou os nossos olhos podem ver, existe o mistério e as coisas que a gente sente.

Quem foi José Pedro de Freitas, o “Arigó”

José Pedro de Freitas nasceu em 18 de outubro de 1921 e viveu em Congonhas (MG). Ganhou o apelido de “Arigó”, que significa “simplório”, gente da roça. Desencarnou em 11 de janeiro de 1971, em um acidente de carro, após um mal súbito ao volante. Paranormal com impressionantes faculdades mediúnicas (clarividência, clariaudiência, incorporação, psicografia, materialização, transporte de objetos, premonição e mediunidade de cura), foi por intermédio dele que o Espírito do médico alemão Dr. Fritz e sua equipe realizaram inúmeros diagnósticos, prescrições mediúnicas e cirurgias espirituais que o tornaram internacionalmente conhecido e que beneficiaram milhares de pessoas em 21 anos de trabalho mediúnico, gratuito, dedicado à caridade. Processado e preso por exercício ilegal da Medicina, Arigó foi estudado por vários médicos e cientistas internacionais e teve várias obras publicadas a seu respeito.

Em entrevista à Folha Espírita em setembro de 2015, Leida Lúcia de Oliveira, que lançou na ocasião Cirurgias Espirituais de José Arigó, pela AME-Editora, conta que acompanhou desde muito cedo a trajetória mediúnica de Arigó. Aos 10 anos, começou a ajudar Dr. Fritz, o Espírito que sempre esteve ao lado do médium, permanecendo nesse trabalho até sua desencarnação. Foram 13 anos de convivência diária. “É importante que as futuras gerações tomem conhecimento de como funcionou o trabalho de um dos maiores médiuns de cura do planeta, isso dito pelos cientistas da Nasa”.

Durante os 21 anos de trabalho de Arigó, as curas mais espetaculares desafiaram o mundo médico e católico. Pessoas portadoras das mais variadas e estranhas doenças foram curadas de maneira espetacular, e isso despertou a atenção de autoridades no mundo todo. “Há mais de 60 anos, quando Arigó manifestou sua mediunidade, a grande maioria das pessoas não sabia o que era Espiritismo e muito menos quem era Allan Kardec. O pouco que se sabia era que o Espiritismo era coisa do demônio. Foi preciso que houvesse essas polêmicas cirurgias para despertar, naquela época, a humanidade. O fato de Arigó curar por meio de um Espírito causou um grande impacto e mexeu com a crença de muita gente. Da mesma maneira, o trabalho de materialização feito por Chico Xavier e Peixotinho em Pedro Leopoldo teve a finalidade de despertar a curiosidade das pessoas e afirmar a imortalidade da alma. Talvez hoje já não exista mais a necessidade da manifestação de tais fenômenos”, afirmou Leida Lúcia na ocasião.

“Não se vê, na atualidade, tantos médiuns com intervenções físicas com material cortante como as realizadas por Arigó. Talvez porque o tempo desse tipo de intervenção tenha passado e não seja mais necessário, bem como pela falta de médiuns com características adequadas para esse trabalho”, avaliou Andrei Moreira, então presidente da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais, responsável pela edição do livro. O médico Roberto Lúcio Vieira de Souza, que, com Moreira, assina um capítulo sobre cirurgias e curas espirituais na visão espírita, completou: “Hoje, o Movimento Federativo Espírita do Brasil e as Associações Médico-Espíritas são contrários ao uso de instrumentos cortantes durante a cirurgia espiritual”.

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