Uma manhã, um sanduíche de mortadela e os Espíritos do Senhor

Mãos e um sorriso desenhado na areia

No prefácio de O Evangelho segundo o Espiritismo, que acredito ser a porta de entrada e acolhimento dos nossos corações, lemos: “Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos Céus, qual imenso exército que se movimenta ao receber as ordens do seu comando, espalham-se por toda a superfície da Terra e, semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar os caminhos e abrir os olhos aos cegos”.

Nesses dias obscuros, nos indagamos onde anda esse exército, já que a cada dia travamos uma batalha por manter acesa a chama da esperança. E o prefácio da luminosa obra, prossegue: “Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas hão de ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos”.

Confesso que, como a maioria dos Espíritos encarnados, lanço meu olhar, ao ler passagens como essa, para bem longe da dinâmica da vida cotidiana, mas bastou que um dia eu despertasse com olhos de ver, que fiquei extasiado ao encontrar um dos Espíritos do Senhor bem na porta de casa. Naquela manhã, despertei manifestando gratidão por mais um dia e, após o café, me preparei para ir realizar compras no mercado.

Armado de álcool em gel, máscara e toda a armadura necessária para a batalha cotidiana contra o vírus, fui abrir o portão para tirar o carro e fui surpreendido por um Espírito do Senhor, melhor dizendo, dois Espíritos do imenso exército que se derrama sobre o mundo. Pois bem, naquela manhã, a Prefeitura havia enviado para meu bairro um exército de garis. E quando saí para a calçada, dois deles estavam sentados no chão, cada um segurando um suculento sanduíche de pão com mortadela. Assim que meu olhar cruzou com um deles, recebi um grande sorriso que veio acompanhado de um melodioso bom-dia! De pronto devolvi o sorriso e respondi com a mesma boa energia, desejando-lhes um bom-dia!

Dessa forma, os dois Espíritos do Senhor, que não tinham asas, nem faziam lembrar o imenso cortejo de estrelas cadentes derramados sobre a Terra, me trouxeram um profundo ensinamento.     Para minha surpresa, os dois garis ergueram, ao mesmo tempo, seus sanduíches de pão com mortadela na minha direção, e disseram: “Está servido?”

Confesso que fiquei emocionado e me voltei para a leitura do prefácio de O Evangelho segundo o Espiritismo que fiz antes de sair de casa, justamente o prefácio da portentosa obra. Dei-me conta do quanto minha visão sobre as coisas de Deus é míope. Nosso dia a dia é permeado por esses Espíritos do Senhor que vêm até nós manifestar alegria e simplicidade. Estou me referindo a dois garis numa cidade que poucos conhecem, aqui no litoral da Paraíba, onde estou recluso, chamada Pitimbu. Cidade litorânea ainda sem grife, portanto, desconhecida, mas de praia tão bela como as mais famosas do Nordeste. Aqui a carência é imensa, e a fome bate pra valer na dignidade humana. Aquele pão com mortadela dos garis talvez tenha sido a única refeição do dia, não sei, mas sem dúvida era um manjar para os estômagos nordestinos que têm no cuscuz o alimento diário.

Os Espíritos do Senhor não se manifestam de forma espetaculosa, mas simples, e estão por aí. E o prefácio do Evangelho segue em mais dois parágrafos, dizendo: “As grandes vozes do Céu ressoam como sons de trombetas, e os cânticos dos anjos se lhes associam. Nós vos convidamos, a vós homens, para o divino concerto. Tomai da lira, fazei uníssonas vossas vozes, e que, num hino sagrado, elas se estendam e repercutam de um extremo a outro do Universo”. Diariamente, as trombetas ecoam em nossos ouvidos para que possamos despertar a respeito da urgência da vida e do seu verdadeiro sentido.

Anjos sem a pompa da sociedade humana vêm nos convidar para o divino concerto. Não é preciso formalidades, mas é necessário ter olhos de ver, ouvidos de ouvir e coração para sentir. De repente, estavam ali diante de mim dois homens sensíveis e educados desejando dividir o pão e a mortadela num simbolismo que me remeteu à última ceia de Jesus com seus apóstolos. O pão que me foi oferecido manifestou um verdadeiro sacramento, um rito em que o Cristo me convidava a ser melhor naquele dia e no resto da minha vida. “E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: ‘Tomai, comei, isto é o meu corpo’” (Mateus 26:26).

Fechando o prefácio do ESSE, o último parágrafo nos faz um convite: “Homens, irmãos a quem amamos, aqui estamos junto de vós. Amai-vos, também, uns aos outros e dizei do fundo do coração, fazendo as vontades do Pai, que está no Céu: Senhor! Senhor!… e podereis entrar no reino dos Céus”.

O Espírito de Verdade

Quando colocamos em movimento a nossa capacidade cognitiva quanto ao mundo que nos cerca, até o farfalhar das folhas de uma árvore nos fala de Deus, ou por meio de um pão com mortadela. Agradeci aos dois Espíritos do Senhor, e disse para mim mesmo: “As estrelas cadentes estão descendo sobre a Terra e iluminando nossos caminhos”.

Amém!

Fonte

O Evangelho segundo o Espiritismo

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