Depois das condutas médicas, a certeza de que Jesus faria algo

Esta não é lá uma história com final feliz, já devo avisar ao querido leitor. Ser médico, ser espírita e estar na caminhada pela melhoria enquanto ser humano tem seus dias de glória, mas também muitos dias de luta. Dias em que minha limitada capacidade de amar e servir não é suficiente; em que nada do que é ensinado em seis anos de Medicina tem alguma serventia.

Tenho desenvolvido o hábito de fazer uma preparação do ambiente quando chego no consultório: ligo o computador, ajusto a altura da cadeira, faço as devidas adequações ergonômicas e sintonizo com Jesus e a espiritualidade amiga. Com uma prece, tento fazer daquelas quatro paredes um recinto de cura, onde as abordagens podem ir além do corpo físico.

Trabalho com pessoas com deficiência. Em sua maioria, deficiências adquiridas, nas quais, no geral, existe uma ruptura da rotina, uma transformação profunda nas estruturas internas e externas. Vivencio o luto todo dia, de perdas recentes e de outras longínquas, quando não houve a morte do corpo, mas uma relativa desintegração do que um dia existiu, em um contato realístico com a efemeridade da existência humana.

Eu amo o que faço e busco diariamente ajudar meus pacientes a viverem a melhor vida que podem ter. Estudo para mostrar caminhos e seguir até parte deles com cada um, mas a jornada é individual e deve ser trilhada ativamente. Procuro encontrar as habilidades que ainda estão íntegras, os gostos e as tendências dos pacientes e agir a partir disso, em um plano terapêutico individualizado. E faço isso na posição de ser humano que sofre e quer ajudar outro ser humano que também sofre. Na posição de curadora ferida, de quem lida com a deficiência dentro de casa.

Chamei a primeira paciente daquela tarde. Dona Estela, 72 anos, entrou na sala em cadeira de rodas empurrada pela neta. Cada vez que vinha para a consulta, queixava-se que doía uma parte do corpo. Certa vez, era o ombro direito, em outra, o joelho esquerdo, os quadris, a lombar. Hoje, tudo isso doía, além da cabeça, o “pé” da barriga e aquele cansaço que não ia embora. Ela sentia que não era capaz de fazer nada, apesar de ter um exame físico que não condizia com sua crença. Da parte motora, seria capaz de garantir seu autocuidado, ajudar em tarefas domésticas, mas tudo o que fazia era ficar na cama.

Perguntei a ela o que gostava de fazer, o que trazia certo ânimo para a sua existência. Nada. O que Dona Estela mais queria era que Deus a levasse deste planeta e não havia nada que a fizesse desistir de estar morta em vida. Não tomava as medicações conforme prescrito, não marcava consulta com psiquiatra, não aderia aos exercícios, não fazia mais suas orações e tinha se ausentado da participação como orientadora de eucaristia.

Tentei estimular a participação da neta, principal cuidadora, durante o atendimento, mas ali também havia forte resistência, hostilidade e cobranças conscientes e inconscientes para que eu resolvesse magicamente (e sozinha) a complexidade da encarnação daquela família.

Chamei Jesus. Em meu íntimo, queria que ele resolvesse em um milagre aquela situação. Que acalmasse os ânimos de uma e desse coragem à outra. Que, minimamente, sentissem minha empatia e todo o esforço que eu estava tentando fazer para ajudar. Não deu certo. Tomei as condutas médicas baseadas em evidência, nos melhores estudos, e torci para que surtisse algum efeito. O que me cabia estava carimbado, mas levantei os olhos aos céus na certeza de que o médico dos médicos, o mais amoroso, paciente e competente faria o resto.

Obs.: Dona Estela é uma personagem fictícia, uma quimera de muitas histórias de vida e desafios que aparecem diante de mim, me inspirando coragem, fé e a humildade de saber que a “cura” vai além deste mundo e além das mãos desta mera encarnada. Ser médica é um aprendizado diário de me colocar a serviço do outro, mas com firmeza e amor, na certeza de que o Cristo multiplica os peixes, transforma água em vinho e faz da dor uma grande semente de evolução.

Ana Luiza Abicalil Momi é médica residente de Medicina Física e Reabilitação, coordenadora médica do Departamento Acadêmico da AME-SP e membro do Departamento de Ensino da AME-SP.

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