A codificação da Doutrina e o desenvolvimento da nossa moral

Nos 216 anos de nascimento de Allan Kardec, conversamos com Irvênia L. S. Prada (foto), médica-veterinária, professora titular e pesquisadora em Neuroanatomia, ex-presidente da Comissão de Ética da Faculdade de Medicina Veterinária da USP e integrante da AME-SP, AME-Brasil e AME-Internacional. Palestrante espírita e autora de diversos livros, dentre eles A questão espiritual dos animais, um dos maiores best-sellers da FE Editora, ela escreveu ainda Espiritismo – razão como método, mediunidade como laboratório, moral como objetivo, uma aula sobre a Doutrina e a obra de Kardec, sobre quem falamos abaixo:


FE – Se para a vinda de Jesus foi necessário que a sociedade daquela época absorvesse os princípios da cultura grega, da cultura macedônica, preparando o terreno para as ideias e verdades de Jesus, quais as bases na sociedade do século XIX para a vinda do Espiritismo?
Irvênia – Toda vez que o plano espiritual realiza um projeto dessa magnitude, existe também a preparação cultural do ambiente onde irá ocorrer a proposta de uma grande mudança. Não foi diferente com a Codificação do Espiritismo. Costumo dizer que ele veio na época certa, em meados do século XIX. Até o século XVII, a gente não podia chamar ainda o conhecimento de ciência porque não estava organizado como a conhecemos hoje. Tudo estava atrelado aos interesses do Estado e do dogmatismo religioso, nada podia ser contestado. No século XVII, finalmente o conhecimento conseguiu se desgarrar dos dogmas religiosos e pôde caminhar sozinho, estruturando-se como ciência, por meio do método racional. Em seguida, no século XVIII, veio o Iluminismo, que trouxe o conhecimento como base do progresso humano, e, no século XIX, o Positivismo, reforçando o valor do método científico, do conhecimento, mas com finalidade utilitarista, visando aos interesses da coletividade. Então, tudo isso veio ocorrendo para que, quando eclodisse o Espiritismo codificado por Allan Kardec, a sociedade já tivesse uma base cultural. Nem todos estavam preparados, mas uma grande parte da coletividade estava, sim. Por essa razão, afirmo que o Espiritismo veio na época certa.

“O exercício do livre-arbítrio é de total responsabilidade de cada um de nós. O que está certo ou errado está impresso na nossa consciência. Entendermos o contexto da Doutrina, com base na ciência, com reflexão filosófica e com consequência moral resultante da nossa decisão, é algo fantástico!”

FE – O professor Rivail tinha formação acadêmica que permitia que ele tivesse total domínio do que estava fazendo, fale-nos mais sobre isso.
Irvênia
– Eu gosto muito dos comentários que o professor Herculano Pires faz na introdução de obra sobre a vida de Léon Denis, sobre o fato de que tanto ele quanto Kardec terem sido celtas, druidas. Assim, traziam o espírito celta de promover reformas para a sociedade, particularmente no aspecto moral. Kardec veio com todo esse preparo reencarnatório, além de uma formação acadêmica exemplar. Ele participava dos círculos mais altos da intelectualidade parisiense. O Espiritismo veio na época certa, com a pessoa certa, o que trouxe credibilidade a ele. Desde a época dos gregos, a ideia da aquisição do conhecimento era a de atendimento às necessidades humanas, o que vai desembocando no aspecto moral. Para que isso se concretizasse, e esse conhecimento pudesse desembocar nas consequências morais que Kardec deixou tão bem estabelecido na Doutrina, era preciso uma reflexão filosófica. Para que serve o conhecimento? Para que serve eu estudar tudo isso? É para que depois, em virtude do conhecimento, eu faça uma reflexão sobre o significado desse conhecimento e use isso como finalidade meritória para o bem de todos. E assim surgiu essa estrutura fascinante da Doutrina Espírita, de ciência com base na razão, de reflexão filosófica que desemboque na moral enquanto bem comum. O livro que escrevi sobre o Espiritismo é um chamamento para que os espíritas tenham conhecimento das obras básicas da codificação, entendendo que os valores morais nelas referidos representam fruto, consequência desse conhecimento.


FE – Como você vê o fato de Kardec ter colocado Jesus como modelo?
Irvênia
– Algo magnífico! Kardec foi aos Evangelhos e concluiu que o ensino moral é comum a todos. Aproveitou desses evangelhos a questão moral. E isso está bem claro em várias passagens. Jesus, quando curava, sempre deixava uma recomendação moral, que nem todos entendiam. Como também nos disse Emmanuel, “saúde é a perfeita harmonia da alma”. Mesmo com fragilidades orgânicas, o indivíduo pode estar saudável se o seu Espírito estiver em harmonia. Daí surge o entendimento de que a Doutrina nos dá sobre a verdadeira figura de Jesus como agente de autocura, o que se encontra evidente em A Gênese, de Kardec, capítulo XV.28.

1 Vida e obra de Léon Denis, de Gaston Luce. Introdução e revisão doutrinária de J. Herculano Pires. São Paulo, EDICEL, 1978.

A entrevista completa está disponível no programa Portal de Luz, pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=jDDCri6AFy4&feature=youtu.be

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