Consumo consciente: o caminho para a nossa sobrevivência

Andre Trigueiro
Andre Trigueiro

André Trigueiro é jornalista pós-graduado em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, onde leciona a disciplina “Geopolítica Ambiental”. Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-Rio, é também autor dos livros Cidades e soluções – como construir uma sociedade sustentável (Ed. Leya, 2017); Mundo Sustentável – abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação (Ed. Globo, 2005), Mundo sustentável 2 – novos rumos para um planeta em crise (Ed. Globo, 2012); Mundo sustentável – abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação (Ed. Globo, 2005), coordenador editorial e um dos autores do livro Meio ambiente no século XXI (Ed. Sextante, 2003), Espiritismo e ecologia (Ed. FEB, 2009) e A força do um (2019). Premiado inúmeras vezes por seu trabalho como jornalista ambiental, Trigueiro é também conferencista espírita, tendo a sustentabilidade como um dos temas de suas palestras, que leva Brasil afora como um alerta a todos nós.

Dias antes do início da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021, a COP 26, André Trigueiro falou com a Folha Espírita sobre consumo consciente e o que precisamos fazer, com urgência, para salvar a nós mesmos em um mundo que não precisa da nossa espécie para seguir.

Consciência e qualidade de vida

Folha Espírita – As pessoas têm consciência sobre o quanto o que consomem impacta no planeta?

André Trigueiro – A questão é que a maioria da população do planeta não consome hoje o suficiente para ter qualidade de vida e uma menor parte o faz muito além do necessário, gerando distorções e desequilíbrios. Então, o primeiro ponto é que a gente precisa equilibrar essa balança e promover a disponibilidade de recursos minimamente necessários. Estou falando de moradia digna, alimentação saudável, acesso à educação, saúde, ao transporte, lazer e entretenimento. Tudo isso envolve consumo de água, matéria-prima, energia e infraestrutura para termos qualidade de vida. Então, a questão é que precisamos fazer a justa repartição dos recursos, de forma ética e sustentável, sendo seletivos em relação aos meios de produção e conscientes na forma de consumir os recursos. A consciência cresce e se expande, ela passa por certificação e selagem, pela noção de que todos os produtos, todos os itens consumíveis, têm uma história por trás e a gente precisa conhecê-la para fazer as escolhas certas, premiando, recompensando quem protege o meio ambiente e a legislação trabalhista e descartando quem depreda, destrói, devasta o meio ambiente, sem respeitar as relações trabalhistas.

FE – Podemos considerar que de 50 anos para cá o homem adotou um modelo de desenvolvimento baseado no consumo e isso impactou fortemente na produção de lixo, que em sua maioria não é reciclado e afeta a vida de seres em todo planeta. O que fazer para reverter essa situação?

Trigueiro – Na verdade, desde a Revolução Industrial, há mais de 200 anos, a sofisticação dos meios de produção intensificou a necessidade de disponibilizar bens de consumo e abriu o apetite para o que se convencionou chamar de sociedade de consumo. Então, o fomento ao consumismo vem de mais tempo. A produção monumental de lixo é apenas uma das questões problemáticas referentes ao consumismo, e nós ainda não conseguimos resolver a contento essa avalanche de resíduos e rejeitos que são descartados de forma invariavelmente inadequada, poluindo o planeta e gerando impacto sobre biodiversidade e também sobre a nossa saúde. Deixando claro que a reciclagem, embora seja importante, não é uma panaceia. Ela não resolve todos os problemas da produção monumental de lixo. Todo processo de reciclagem também demanda energia, emite gases estufa, gera esgoto. Então, não é simples a equação. A reciclagem reduz impacto, mas não é a solução definitiva do problema do lixo.

Não podemos ser predadores de nós mesmos e exaurir as condições de habitabilidade no planeta, e isso passa pelo consumo consciente.

O momento pede mudanças na cultura

FE – Quais caminhos temos de seguir para alcançar um modelo no qual o consumo não seja um agente de destruição e devastação do meio ambiente?

Trigueiro – A solução passa por educação. Precisamos formar consumidores conscientes, pessoas que entendam que o consumo é um ato político. Ele não deveria ser associado apenas a lazer e entretenimento, satisfação e prazer. A gente precisa entendê-lo como um elemento indutor da sustentabilidade ou da destruição, ter uma política pública, um modelo de desenvolvimento que estimule crédito e financiamento para quem tem sensibilidade para as questões do consumo consciente, do ecodesign e de materiais que não sejam degradantes, ou seja, para quem faça a coisa certa e embaraços, problemas, burocracia, ônus financeiro para quem vai na contramão disso.

Se o nome que você pretende usar para sinalizar o caminho que a corporação deve seguir é ESG ou outro qualquer isso para mim é o que menos importa. O mais importante é que haja compromisso e que isso não seja um interesse circunstancial, porque moda é algo que passa. O que a gente precisa mudar é a cultura.

FE – Consumir de forma consciente é uma questão de sobrevivência?

Trigueiro – Certamente a sobrevivência da nossa espécie neste planeta passa por uma outra forma de pensar e praticar o consumo. O consumo favorece a vida, o consumismo depreda, devasta e destrói as condições que suportam a vida na Terra. Não podemos ser predadores de nós mesmos, não podemos exaurir as condições de habitabilidade no planeta, e isso passa pelo consumo consciente.

FE – Hoje muito se fala em ESG. Para as empresas, isso vem se tornando algo estratégico, e sabemos que serão cada vez mais cobradas por isso. Não é estranho que a sociedade venha despertando para isso, mas, ao mesmo tempo, pouco faz para, de fato, mudar a situação? O que falta?

Trigueiro – Bom, com toda franqueza, ESG para mim é mais do mesmo. Há 30 anos, na Rio-92 surgiu o conceito de desenvolvimento sustentável. Na Rio + 20, o de economia verde. Agora fala-se em ESG. Então, não importa o nome, a expressão da moda. O que faz a diferença é a atitude. Que as empresas se convençam de que, até por uma questão de sobrevivência no mercado, pelo nível crescente de exigência dos consumidores, pela existência das redes sociais pressionando o setor privado, as grandes corporações, pela necessidade de atender às expectativas de acionistas, se essas empresas têm capital aberto, há uma nova configuração de expectativas e exigências do mercado. Se o nome que você pretende usar para sinalizar o caminho que a corporação deve seguir é ESG ou outro qualquer isso para mim é o que menos importa. O mais importante é que haja compromisso e que isso não seja um interesse circunstancial, porque moda é algo que passa. O que a gente precisa mudar é a cultura.

FE – Recentemente, uma pesquisa apontou que as pessoas consumiram de forma mais consciente na pandemia, evitando, por exemplo, o desperdício de alimentos. Como você enxerga isso? Você acha que a sociedade como um todo está, realmente, fazendo essa reflexão? Com a vida voltando ao seu ritmo pós-pandemia, o que você acha que fica disso tudo?

Trigueiro – A pandemia ainda não acabou.O pós-pandemia é algo que a gente não sabe exatamente como será, mas eu, desde o início desta que é a maior pandemia do nosso tempo, construí a convicção de que não teríamos por que acreditar que a pandemia por si só haveria de determinar uma mudança em escala na cultura, no pensamento e na expectativa das pessoas. Nem todos aproveitaram a oportunidade para, realmente, rever conceitos, posicionamentos, ter a coragem de enxergar as coisas dentro de outra perspectiva, outro ponto de vista. Portanto, com toda a franqueza, não tenho nenhum motivo para acreditar que a pandemia significou uma ruptura importante, uma mudança sensível, em alguma ordem de grandeza impressionante que expresse novas atitudes, novas formas de fazer, pensar e sentir. Eu não estou convencido disso. E, sinceramente, até gostaria que isso acontecesse, mas não tem nenhuma evidência de que algo vá nessa direção.

As mudanças climáticas estão aí, os prejuízos já estão acontecendo, e a velocidade com que essa crise se agiganta é algo factível. A gente não precisa fazer muito esforço para testemunhar que o clima mudou. E mudou para pior no que diz respeito à nossa qualidade de vida, nossa resiliência, nosso bem-estar.

FE – A ativista sueca Greta Thunberg criticou recentemente que os governos têm muito blá-blá-blá em relação a mudanças climáticas. Você não acha que os países também estão muito preocupados com suas economias e pouco com o bem comum, buscando ações conscientes que impactam toda a humanidade?

Trigueiro – Greta Thunberg foi muito feliz ao ironizar o excesso de discursos, os investimentos em marketing vultosos em contraposição a atitudes e compromissos que foram assumidos e que se traduzem como ações aferíveis, mensuráveis, no plano do concreto, da forma mais rápida e efetiva possível. O que na verdade me parece dramático, e é um problema do nosso tempo, é que nós não estamos conseguindo traduzir em atitudes o que parece consensual no plano do discurso. Há uma distância ainda grande que separa os diagnósticos bem contundentes da ciência, nos chamando a atenção para o senso de urgência na tomada de decisão, freando o aquecimento global e os tomadores de decisão que não conseguem avançar numa agenda de curto e médio prazo. Se comprometem no longo prazo quando eles mesmos não estarão mais aqui ou alijados da atividade política. Então, você está se comprometendo no longo prazo, e nele não há tempo para resolvermos problemas que precisam ser enfrentados agora. O aquecimento global e as mudanças climáticas estão aí, os prejuízos estão acontecendo, e a velocidade com que essa crise se agiganta é algo factível. A gente não precisa fazer muito esforço para testemunhar que o clima mudou. E mudou para pior no que diz respeito à nossa qualidade de vida, nossa resiliência, nosso bem-estar. E essa mudança do clima já determina prejuízos crescentes que alguns países se dão ao trabalho de constatar e manifestar preocupação, mas não o suficiente para deixar de subsidiar combustível fóssil, para conter desmatamentos, para financiar países pobres que não têm condições de lidar com o que já está acontecendo em relação à mudança climática. Então, esse estado de inércia nos custa muito caro. E não é de agora, já tem algum tempo. Um relatório chamado Stern review, de Nicholas Stern, um ex-diretor do Banco Mundial, mostra exatamente que o custo de não se fazer nada é muito maior do que o de fazer o que se recomenda para evitar uma catástrofe climática. E nós continuamos patinando, hesitando, e isso custa caro para a humanidade. Vamos pagar essa conta.

FE – Em um mundo com muitos países com baixo índice de educação e miséria, como educar sobre consumo consciente?

Trigueiro – É um equívoco achar que só pessoas de posse, só as que têm uma boa educação compreendem a importância do consumo consciente. Quando falamos do tema em comunidades de baixa renda, por exemplo, estamos nos referindo ao aproveitamento de partes dos alimentos que são descartados no lixo. Quando são aproveitadas cascas de frutas ou legumes ou partes das verduras que costumam ser desprezadas isso é consumo consciente. Quando são reaproveitadas certas embalagens ou se percebe valor de mercado de lixo seco, papel, papelão, plástico, metais e elas não são jogadas no lixo, mas segregadas e busca-se fazer disso matéria-prima retornável para a indústria, é uma forma de se realizar o consumo consciente. Quando se transforma lixo orgânico, restos de frutas e legumes em matéria-prima para compostagem, produzindo adubo de excelente qualidade, isso é consumo consciente. Eu acho que a gente precisa entender melhor o universo do consumo consciente. Ele tem diferentes leituras, abordagens e compreensões, independentemente do nível de renda.

A importância de fazer a diferença para o mundo

FE – Como podemos salvar o mundo para nós mesmos e as próximas gerações?

Trigueiro – O mundo não precisa ser salvo. Não é ele que está em perigo, somos nós. Dependemos dele, não ele de nós. Portanto, é bom estarmos muito bem informados sobre o que está em jogo. Não é a Terra, somos nós. E se continuarmos desperdiçando as oportunidades de compreendermos como a natureza funciona e nos beneficiarmos de uma relação mais equilibrada, harmoniosa e inteligente com o meio ambiente, se acharmos que não há risco, quando na verdade há, somos nós que estamos ameaçados, e não o planeta.

FE – O que você acha que é preciso fazer para mudar já?

Trigueiro – Em primeiro lugar, precisamos ter governantes que não sejam analfabetos ambientais e coloquem a sustentabilidade no eixo das políticas públicas. Isso é fundamental. Em segundo lugar, empresas, corporações que sejam alvo de boicote, de consumidores que percebam maneiras equivocadas dessas empresas ou corporações fazerem gestão, operar em seus negócios. Também acho importante eliminarmos por completo a cultura do descartável. Não faz sentido em pleno século XXI termos plásticos descartáveis da forma como vemos disseminado. Não é possível acharmos que o “usou e jogou fora” seja uma solução porque não é. O culto ao descartável é um problema. Acho também que a gente precisa se dar conta do ato de comer. Não é um ato, eu diria, que deveria ser desprovido de consciência. Obviamente para aqueles que têm como realizar essa escolha, porque num país que voltou a ter fome não há opção para milhões de famílias, come-se o que se tem à frente, de forma indigna. Para um país que é megaprodutor mundial de alimentos, ter fome é uma vergonha. Mas eu estou dizendo que, em circunstâncias ideais, a gente devia ter muito cuidado para não ingerir qualquer alimento desprezando a origem. Saber em que circunstâncias esse alimento foi produzido, se de origem animal, não desconhecer todo o processo que envolve dor, crueldade, sofrimento que recai sobre os bichos, se há pesticida ou transgênico, em que circunstâncias e que cuidados foram tomados nesse sentido, tudo não deveria ser ignorado. Investir em educação de qualidade também é importante. E os pais têm de participar das reuniões na escola, reivindicar ajustes na grade curricular, preparando essa garotada para encarar os desafios que são imensos e estão se multiplicando. Dentro de casa, têm de complementar essa formação escolar, ajudando a garotada a compreender o que importa fazer e de que jeito, não sendo passivos e fazendo a diferença no dia a dia.

Há uma visão muito moderna, arrojada, do Espiritismo no século XIX de que nós deveríamos ser mais cautelosos no ímpeto consumista. Consumir o necessário seria, em linhas gerais, a meta. E nós precisávamos nos contentar com menos do que nós normalmente ambicionamos.

FE – Você acha que a raiz do consumo desenfreado reside na força do materialismo que ganhou espaço nos séculos XIX e XX? O Espiritismo nos dando uma visão de vida futura é uma alternativa ao materialismo e com isso poderia ajudar no redirecionamento?

Trigueiro – Olha, tem uma diferença entre teoria e prática. Tem muito espírita consumista. Eu sinceramente não me iludo em relação à maneira como pessoas que se dizem espiritualizadas são muito distraídas, dispersas ou alienadas em relação a essa inclinação consumista. E acho que os espíritas precisam estudar. Em O livro dos Espíritos, na parte das Leis Morais, há um subitem na lei de conservação que Kardec, com maestria, destaca que seria um convite para o discernimento entre o que seja necessário e supérfluo. Nós, portanto, estamos sendo desafiados a praticar uma visão espiritualizada da vida, não retroalimentando o consumismo. Então, a resposta objetivamente é: o Espiritismo oferece ferramentas úteis para a compreensão do que seja o consumo consciente. Mas o Espiritismo é uma coisa, e o Movimento Espírita é outro. As pessoas que se dizem espíritas nem sempre estão atentas a esses detalhes. Isso para mim é relativamente simples de se perceber.

Desperdício Imoral

FE – Religião e consumo combinam?

Trigueiro – Como eu já disse, o consumo favorece a vida. O problema não é consumir. Para viver a gente precisa consumir. O consumismo traz o sufixo “ismo”, que remete ao desperdício e excesso. E aí temos um problema moral. O desperdício é imoral em qualquer cultura. Em qualquer lugar do mundo não se deveria desperdiçar água, alimento, tempo, energia, nada. O desperdício é imoral. Não há um problema em relação ao consumo, mas ao consumismo, por atentar contra a vida ou às condições que a sustentam. Temos uma contraposição entre religião e consumismo, mas não entre religião e consumo.

FE – Que lições nos dão os Espíritos sobre o consumo e a preservação dos recursos?

Trigueiro – Na questão n. 705 de O livro dos Espíritos, dentro da lei de conservação, Kardec indaga à espiritualidade maior: “Por que nem sempre a Terra produz bastante para fornecer ao homem o necessário?” A resposta é, a meu ver, a grande síntese do consumo consciente: “A Terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se”. Então, há uma visão muito moderna, arrojada, do Espiritismo no século XIX de que deveríamos ser mais cautelosos no ímpeto consumista. Consumir o necessário seria, em linhas gerais, a meta. E nós precisávamos nos contentar com menos do que nós normalmente ambicionamos. A matéria não resume felicidade. Acumulação de bens e posses é traiçoeira para quem leva a sério o desenvolvimento espiritual. Matéria é ferramenta, é acessório. A matéria não resume o sentido da existência nem os objetivos mais importantes da nossa passagem por esse planeta.

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