Desafios sociais e econômicos permanecem e exigem mais de nós

Marjorie Aum

2020 pode ter terminado, mas todos os desafios sociais e econômicos, que foram duramente ampliados em função da pandemia, ainda irão persistir e exigirão uma postura ativa de todos nós. A construção de um novo mundo, onde possa predominar o bem e a fraternidade, sem distinção de raças ou povos, convida todos nós a realmente fazermos a nossa parte como espírita-cristãos conscientes.

O livro Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, de autoria espiritual de Humberto de Campos, psicografado em 1938 por Chico Xavier, ao analisar cronologicamente os fatos da história do Brasil, demonstra a missão evangelizadora da nossa nação e o acompanhamento feito por Jesus ao longo de nosso processo evolutivo. No entanto, sabemos que, para ocuparmos o nosso lugar como “coração espiritual da Terra”, cabe a nós mesmos nos esforçarmos coletivamente na prática do Evangelho de Jesus, a fim de irradiar ao nosso próprio país e a toda humanidade a paz e a tolerância.

Os recursos naturais existentes no nosso planeta não seriam escassos para alimentar toda a população, caso, desde o princípio, tivéssemos agido fraternalmente em relação aos nossos semelhantes, sem manifestar as chagas do egoísmo e da vaidade. No entanto, as desigualdades que hoje nos fazem sofrer são fruto de nossas próprias imperfeições, que cristalizaram injustiças, pobreza, fome e dor ao longo dos milênios e que se tornaram tão complexas de serem resolvidas. Em Há dois mil anos, livro escrito por Emmanuel e psicografado por Chico Xavier, no capítulo 6 da segunda parte, temos as seguintes palavras do Cristo: “Trabalharemos com amor, na oficina dos séculos porvindouros, reorganizaremos todos os elementos destruídos, examinaremos detidamente todas as ruínas buscando o material passível de novo aproveitamento e, quando as instituições terrestres reajustarem a sua vida na fraternidade e no bem, na paz e na justiça, depois da seleção natural dos Espíritos e dentro das convulsões renovadoras da vida planetária, organizaremos para o mundo um novo ciclo evolutivo, consolidando, com as divinas verdades do consolador, os progressos definitivos do homem espiritual”.

Um novo olhar para o atual cenário

Diante das considerações do nosso Mestre Jesus, podemos buscar um novo olhar para o cenário que se descortina neste momento. Afinal, o Brasil pós-pandemia evidenciou ainda mais intensamente as suas desigualdades, como bem revela o pronunciamento da alta comissária para os Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet, numa entrevista coletiva realizada em dezembro, na cidade de Genebra, quando ela destacou o impacto “devastador” da pandemia de Covid no Brasil. Ela mostrou que esse impacto atingiu fortemente os grupos mais vulneráveis, como as pessoas que vivem em situação de pobreza, afrodescendentes, indígenas, LGBTs e pessoas privadas de liberdade.

Já vínhamos contabilizando problemas graves no nosso país nos anos anteriores. Prova disso são os números divulgados recentemente. Em dezembro, foi publicado pelo PNUD, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) relativo a 2019. O ranking do IDH, liderado neste último relatório pela Noruega, mostra que a avaliação do Brasil até cresceu de 0,762 para 0,765, mas, apesar de não ter havido um retrocesso, caiu cinco posições no ranking em relação ao ano anterior, ficando em 84º lugar entre os 189 países avaliados.

O objetivo da criação do IDH, calculado anualmente desde 1990, foi o de oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o PIB (Produto Interno Bruto), que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento de um país. Criado com a colaboração de economistas renomados, entre eles o indiano Amartya Kumar Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, o IDH mede o progresso de uma nação a partir de três dimensões: renda, saúde e educação. Não avalia felicidade ou bem-estar da população, mas tem o mérito de melhorar a compreensão de como os países estão caminhando em relação a esses três pilares e, a partir daí, auxiliar debates e análises para uma constante melhoria. A constatação é clara: o ritmo de avanço do Brasil e a falta de investimentos nestes três pilares básicos foram mais lentos do que o de outros países, o que o fez perder posições.

A grande preocupação é que este resultado ainda não reflete os impactos do ano de 2020. Na composição do IDH, a saúde é avaliada pelo fato de a população possuir ou não condições de ter uma vida longa e saudável, com boa expectativa de vida. O acesso ao conhecimento é medido nos adultos acima de 25 anos pela média de anos de educação recebidos durante a vida, e para crianças que ainda vão iniciar a vida escolar, a expectativa de quantos anos receberão de escolaridade. O padrão de vida, ou renda, é medido através de cálculos que mostram o poder de compra da população em comparação a outros países. Fica fácil prevermos que todos estes aspectos foram abalados negativamente pela pandemia.

Segundo outros dados também publicados em dezembro, desta vez pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), relativos a 2019, o trabalho infantil no país, entre crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, embora venha diminuindo discretamente desde 2016, ainda é muito alto e atingiu 1,768 milhão. Metade dessas crianças e adolescentes trabalhava na agricultura (24,2%) ou no comércio (27,4%), ou seja, são crianças que estavam no campo ou vendendo coisas para poder ajudar a família.

Já se sabe que a crise causada pela Covid-19 ocasionou tanto a redução de ações de fiscalização pelo Governo Federal como o aumento da necessidade de participação das crianças na composição da renda familiar do brasileiro. Afinal, o trabalho infantil está intrinsecamente associado à pobreza e à vulnerabilidade social das famílias. Devemos nos lembrar, inclusive, que a pandemia fechou as escolas, fundamental para conter o problema. Em meio à crise causada pela pandemia, o pagamento do auxílio emergencial para os trabalhadores informais mais pobres até ajudou a diminuir o contingente de brasileiros na pobreza, por isso economistas consideram essa queda algo transitório. Prova disso é que, em setembro, mês a partir do qual o auxílio passou de R$ 600 para R$ 300 por mês, a pobreza já voltou a crescer, na comparação com meses anteriores.

Portanto, para que se alcancem melhores patamares econômicos, equidade social, respeito à infância, aumento do acesso à educação e saúde, há muito que se fazer. Cada um de nós, nas suas atividades e funções profissionais, deve realizar uma profunda autoanálise a fim de perceber se tem feito todo o bem possível, se tem se esforçado por extinguir o que cabe a si das injustiças e dos abusos do mundo, se está tratando com generosa bondade seus subordinados e funcionários, caso os tenha, e se tem realizado o seu trabalho com o sincero intuito de ser útil à sociedade. Como nos ensina O Evangelho segundo o Espiritismo, somos responsáveis não somente pelo mal que fizermos, mas pelo mal decorrente do bem que deixarmos de fazer.

Afinal, como nos disse Jesus, os recursos não nos faltam. O que nos falta é a devida sabedoria para que saibamos dividir fraternalmente o necessário à vida, abandonando o egoísmo, a fim de que, num futuro próximo, possamos habitar um mundo justo, onde nenhum irmão sinta fome ou frio e onde todos possam conviver em harmonia.

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