Mulheres que escreveram a história da Doutrina Espírita ao passar dos séculos

“Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não é mais uma simples teoria especulativa; já não é uma concessão da força à fraqueza, mas um direito fundado nas próprias leis da Natureza. Dando a conhecer essas leis, o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, assim como abre a da igualdade e da fraternidade”

(Kardec, 1866, p. 18).

O Dia Internacional da Mulher nos oferece uma oportunidade de refletirmos sobre muitas questões enfrentadas e protagonizadas pelas mulheres em todo o mundo com o passar dos séculos. Desde seus primórdios da criação da Doutrina Espírita, mesmo num tempo em que eram duramente cerceadas de seus direitos básicos, as mulheres ocuparam um protagonismo inegável.

Lançado em 1857, o mesmo ano em que foi criado o Dia Internacional da Mulher, O livro dos Espíritos já trazia uma série de questões envolvendo os preceitos do Criador sobre a igualdade de gêneros e indicava a postura correta do problema feminino: igualdade de direitos e diversidade de funções. Numa Europa tomada pela efervescência cultural dos grandes artistas e pensadores, surpreendentemente uma obra “ditada” pelos Espíritos reservou um grande espaço para colocar os pingos nos “is” e deixar clara a igualdade com a qual Deus concebeu seus filhos e suas filhas.

São muitas as questões enumeradas por Kardec em que a igualdade entre homens e mulheres é colocada de maneira tão clara e absolutamente arrojada para a época. “Assim sendo, uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher? Dos direitos, sim; das funções, não. Preciso é que cada um esteja no lugar que lhe compete. Ocupe-se do exterior o homem e do interior a mulher, cada um de acordo com a sua aptidão. A lei humana, para ser equitativa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher. Todo privilégio a um ou a outro concedido é contrário à justiça. A emancipação da mulher acompanha o progresso da civilização. Sua escravização marcha de par com a barbaria. Os sexos, além disso, só existem na organização física. Visto que os Espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos” (Kardec, 1994, questão n. 822a).

Porta-vozes da espiritualidade amorosa

Desde os primeiros tempos, as mulheres estiveram presentes de maneira fundamental para o entendimento da possibilidade de contato entre encarnados e desencarnados. Era o ano de 1848 quando as irmãs Fox de Hydesville, de Nova York, ganharam notoriedade com seu relato de estranhos sons de batidas que ouviam em toda a casa. Popularidade à parte, é fácil imaginar a comoção causada por tal assunto, ainda mais por tais informações serem provenientes de duas mulheres.

Desde então, o Espiritismo seguiu se consolidando ao redor do mundo com muitas mulheres aparecendo não somente como seguidoras dessa fé, mas também assumindo um protagonismo inquestionável numa doutrina que, além representar uma grande ameaça ao patriarcado, entendeu que algumas características do chamado sexo frágil – nervosismo, sensibilidade aguçada e delicadeza – eram o que supostamente tornava as mulheres as melhores candidatas ao aprimoramento da mediunidade.

“O Movimento Espírita no mundo hoje é o que é graças ao trabalho das mulheres, das mães, das irmãs, das esposas que se engajaram e maneira espetacular na Doutrina. E a mulher é reconhecida não mais como a rainha do lar, mas, sim, como a filha de Deus, em igualdade com o homem. O mundo espiritual operou esse arranjo, e a maior prova é a quantidade de mulheres médiuns que existem, a começar com as irmãs Fox”, afirma o historiador Oceano Vieira de Melo sobre a importância do sexo feminino na história do Espiritismo.

“O mundo espiritual se revelou através de duas meninas. Depois delas veio a codificação de Kardec, através de outras duas meninas. Na segunda edição de O livro dos Espíritos, outras duas mulheres despontaram como Ruth-Céline Japhet e as irmãs Dufaux. Através da mulher foi revelada a mediunidade amorosa, e vimos o mundo espiritual se organizando para trazer seus preceitos para o conhecimento humano, através do amor das mães, das mocinhas, da mulher”, completa.[1]

A senhora Allan Kardec e seu apoio fundamental

“[…] minha mulher […] concordou plenamente com meus pontos de vista e me secundou em minha tarefa laboriosa, como o faz ainda, por um trabalho muitas vezes acima de suas forças, sacrificando sem pesar os prazeres e distrações do mundo, aos quais sua posição de família a tinham habituado” (Kardec, 1865, p. 226).

Amélie-Gabrielle Boudet (foto), também conhecida como Madame Rivail, é uma personagem fundamental na história da implantação da Doutrina Espírita. Era professora e artista plástica francesa, casada com Allan Kardec, tendo sido uma das maiores incentivadoras do trabalho de Codificação e difusão do Espiritismo. Colaborou com os estudos de Kardec e, após a sua partida para a Pátria Espiritual, assumiu a gestão do Espiritismo, na França e no mundo.

“Até pouco tempo não tínhamos ideia da importância do apoio que Amelie deu para seu marido. Ela não era médium, era uma artista e foi a primeira grande mulher do Espiritismo no mundo, juntamente com as irmãs Baudin”, afirma o historiador Oceano Vieira de Melo. Foi professora de Letras e Belas Artes e, segundo revela-nos o dr. Canuto de Abreu, farmacêutico, advogado, médico e grande autor e pesquisador espírita, Amélie trouxe de encarnações passadas a tendência inata para a poesia e o desenho.

Em 6 de fevereiro de 1832, casou-se com o professor Rivail, nove anos mais jovem que ela. Após terminar seus estudos com Pestalozzi, no famoso castelo suíço de Zahringen (Yverdun), associou-se ao marido e fundou o Instituto Técnico, entidade dedicada ao ensino com orientação baseada nos métodos pestalozzianos. Um dado importante a ser observado é que somente em 1833 foi instituído na França o ensino primário.

Dois anos depois, em 1835, Amélie e Kardec foram obrigados a encerrar as atividades do Instituto Técnico devido a dificuldades, mas ela seguiu se dedicando a cursos gratuitos que seguiram sendo ministrados pelo casal – de 1835 a 1840 – em sua própria residência.

Por conta de sua qualidade, a obra pedagógica de Kardec ganhou destaque e foi adotada pela Universidade da França como material didático. Graças a esse reconhecimento, o casal conseguiu equilibrar sua situação financeira e, em 1855, Kardec passou a se dedicar à sua pesquisa sobre os fenômenos sobrenaturais das mesas girantes, dando assim os primeiros passos da Codificação da Doutrina Espírita.

Amélie sempre acompanhou seu esposo nas sessões de investigações e reuniões das mesas girantes e estudos referentes à obra da Codificação, atuando como uma secretária no árduo trabalho que teria pela frente. As reuniões que se iniciaram na casa da Família Baudin passaram a ter como sede a residência do casal, o que exigiu da parte de Madame Rivail um trabalho exaustivo, pois o lugar se tornou pequeno demais para receber tantas pessoas. Assim, em abril de 1858, Allan Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, instalada em outro endereço. Devotada e fiel apoiadora de seu trabalho, o codificador contou com apoio incondicional de sua esposa nessa arriscada empreitada, que foi alvo de ódio, injúria, intrigas, calúnias, muita inveja por parte de pessoas com pensamentos retrógrados que se transformaram em ferrenhos inimigos e acusadores.

Em 1869, quando Kardec, aos 64 anos, partiu para o mundo espiritual, Amélie assumiu a frente da obra e do trabalho realizado por seu marido. Assim, passou a ser a única proprietária legal da revista e da livraria e criou um fundo chamado “Caixa Geral do Espiritismo”, totalmente voltado para a propaganda do Espiritismo.

Dedicada a manter vivo o legado de Kardec, fundou ao lado de seguidores de seu esposo a Sociedade Anônima do Espiritismo, empenhada em utilizar todos os meios permitidos pelas leis para promover e dar continuidade a Revue Spirite, seguir publicando as obras do codificador e demais livros abordando o Espiritismo. Posteriormente, a fundação mudou seu nome para Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec.

Amélie desencarnou em 21 de janeiro de 1883, às 5 horas, de maneira tranquila e demonstrando rara lucidez de Espírito. Seu empenho e devotamento ao marido e seu trabalho como codificador representam alicerces incomparáveis para a expansão e crescimento do Espiritismo não somente na França, mas em todo o mundo.

A primeira mensageira da espiritualidade a serviço da ciência

Com o passar dos anos e graças aos arranjos do plano maior, a espiritualidade começou a despertar o interesse dos cientistas e, mais uma vez, encontramos mulheres servindo como importantes elos entre essas duas pontas do conhecimento. Nesse panorama desponta o nome da italiana Eusábia Paladino, cujos fenômenos físicos produzidos por seu intermédio – movimento de objetos, levitação de mesas e dela própria, aparição de luzes, materializações, execução de trechos musicais sem contato humano, por meio de vários instrumentos, entre outros – serviram de objetos de pesquisa.

Ela não teve qualquer ligação com Kardec, porém entrou para a história como a médium que passou pelo exame do maior número de estudiosos e sábios, muitos deles ferrenhos contestadores que definiam tais fenômenos como pura falcatrua, que com o passar do tempo renderam-se às evidências do Espiritismo.

Entre esses cientistas e estudiosos estavam nomes como o historiador da ciência, escritor, tradutor e administrador da Escola Politécnica de Paris Albert de Rochas, o astrônomo, pesquisador psíquico e divulgador científico francês Camille Flammarion, o professor de Filosofia da Ciência na Universidade de Turim Adolfo Bisson, o engenheiro francês Gabriel Delanne, entre muitos outros.

Exemplo de coragem e vanguarda, o Espiritismo sempre esteve profundamente entrelaçado com vários movimentos de justiça social, do abolicionismo aos direitos das crianças e ao feminismo. Assim, as reuniões espíritas tornaram-se uma importante forma de disseminação de ideias, tanto por meio de médiuns que entregavam mensagens do mundo espiritual sobre a importância da libertação de todas as pessoas, quanto por meio de conversas entre os participantes dos encontros.

Duas mulheres unidas pelo plano espiritual

Na França do século XIX, surgiu Ermance De La Jonchére Dufaux (foto), filha de um rico produtor de vinho e trigo que ainda na infância começou a demonstrar um inexplicável desequilíbrio nervoso, a fazer premonições e expressar opiniões de Espíritos. Em 1855, com apenas 14 anos, Ermance publicou seu segundo livro Spiritualiste, e tempos depois deu voz à donzela de Orléans com o livro A história de Joana D’Arc, ditada por ela mesma.

Sobre Joana D’Arc, vale destacar que no capítulo XXXI de O livro dos médiuns (1861), ela está presente no item 12, esclarecendo sobre o exercício da mediunidade e alertando sobre um sentimento que deve ser observado e corrigido, o orgulho: “Deus me encarregou de desempenhar uma missão junto dos crentes a quem ele favorece com o mediunato. Quanto mais graça recebem eles do Altíssimo, mais perigos correm e tanto maiores são esses perigos, quando se originam dos favores mesmos que Deus lhes concede.

As faculdades de que gozam os médiuns lhes granjeiam os elogios dos homens. As felicitações, as adulações, eis, para eles, o escolho. Rápido esquecem a anterior incapacidade que lhes devia estar sempre presente à lembrança. Fazem mais: o que só devem a Deus atribuem-no a seus próprios méritos. Que acontece então? Os bons Espíritos os abandonam, eles se tornam joguete dos maus e ficam sem bússola para se guiarem. Quanto mais capazes se tornam, mais impelidos são a se atribuírem um mérito que lhes não pertence, até que Deus os puna, afinal, retirando-lhes uma faculdade que, desde então, somente fatal lhes pode ser.

Nunca me cansarei de recomendar-vos que vos confieis ao vosso anjo guardião, para que vos ajude a estar sempre em guarda contra o vosso mais cruel inimigo, que é o orgulho. Lembrai-vos bem, vós que tendes a ventura de ser intérpretes dos Espíritos para os homens, de que severamente punidos sereis, porque mais favorecidos fostes.

Espero que esta comunicação produza frutos e desejo que ela possa ajudar os médiuns a se terem em guarda contra o escolho que os faria naufragar. Esse escolho, já o disse, é o orgulho” (Kardec, 2013, cap. XXXI, item XII).

Emissária de Kardec e Victor Hugo antes da chegada de Chico Xavier

Partindo agora para o Brasil, nasceu em 1878, em Três Ilhas, Amazonas, Zilda Gama (foto), a grande antecessora de Francisco Candido Xavier. Uma das médiuns mais reconhecidas no Brasil, começou a sentir a presença dos Espíritos ainda jovem, quando, durante momentos difíceis, recebia mensagens mediúnicas de seu pai e de sua irmã, já desencarnados.

Por seu intermédio, Espíritos desencarnados puderam enviar mensagens através de obras psicografadas. Em 1912, recebeu a primeira mensagem assinada por Allan Kardec, que se tornou seu guia, passando com frequência ensinamentos que hoje fazem parte do livro Diário dos invisíveis.

Em 1916, os Espíritos benfeitores com os quais se comunicava informaram-lhe que passaria a psicografar uma novela e, a partir daí, o Espírito de Victor Hugo passou a escrever por seu intermédio. A primeira obra foi Na sombra e na luz, depois vieram Do calvário ao infinito, Redenção, Dor suprema e Almas crucificadas, todos publicados pela Federação Espírita Brasileira (FEB).

Foi professora e diretora de escola. Em 1931, participou ativamente de um movimento em prol dos direitos femininos e escreveu uma tese sobre o voto feminino, aprovada no Congresso Nacional do Brasil. Escreveu contos e poesias para vários periódicos, como Jornal do Brasil, a Gazeta de Notícias e a Revista da Semana, todos publicados no Rio de Janeiro.

Em 1959, sofreu um derrame cerebral e viveu o resto dos seus dias numa cadeira de rodas, assistida pelo sobrinho Mário Ângelo de Pinho. Desencarnou em 10 de janeiro de 1969, no Rio de Janeiro (Zilda…, 2021).

Caroline e Pélagie Baudin – as irmãs da Codificação

As irmãs Caroline e Pélagie Baudin foram jovens médiuns que contribuíram com Allan Kardec na codificação do Espiritismo. Em agosto de 1855, Kardec iniciou seu estudo sistemático das comunicações espíritas na casa do Sr. Baudin, pai das jovens. As meninas psicografaram quase todas as questões que foram publicadas na primeira edição de O livro dos Espíritos, em 1857. Durante muito tempo, a identidade das irmãs foi mantida em segredo (Irmãs…, 2021).

Guardiã da pureza doutrinária

Berthe-Victorie-Alexandrine Thierry de Maugras (foto) nasceu em Sarreguimes, França, em 4 de outubro de 1821. Grande amiga do casal Kardec (Amélie Boudet e Allan Kardec), foi membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e cofundadora e primeira vice-presidente da União Espírita Francesa.

Após o desencarne de Amélie, parte dos documentos e manuscritos que pertenciam ao codificador do Espiritismo foram queimados em um verdadeiro ato contra a Doutrina. Graças ao empenho de Berthe Fropo (nome de casada), boa parte desse acervo foi recuperado e hoje nos ajuda a compreender o contexto histórico do Movimento Espírita francês.

Corajosa e fiel aos ideais do codificador, foi uma ferrenha defensora da pureza doutrinária da codificação espírita e denunciou publicamente quando a obra de Kardec começou a ser desvirtuada, fugindo das recomendações deixadas por Amélie. Foi oponente valorosa de Pierre-Gaëtan Leymarie, que, após assumir a direção do movimento espírita francês, passou a adulterar o plano doutrinário traçado por Kardec, norteando-se por influência de ideologias alternativas.

Berthe Fropo levou a público o que chamou de desmandos de Leymarie, no artigo “Um pouco de luz”, publicado na Revue Spirite, edição da segunda quinzena de outubro de 1883. Ela também combateu duramente as propostas de Leymarie e seus aliados de renomear a Sociedade Anônima para a continuação das obras de Allan Kardec como Sociedade Científica do Espiritismo.

“Por que essa evolução? O que se pretendia fazer, removendo o nome do fundador, o mestre que vocês diziam ser tão respeitado e tão venerado. Em nome de todos os meus irmãos de crença, venho pedir-lhe o motivo; essa evolução é muito grave para que não tenhamos a explicação”, escreveu Fropo (1884).

Escreveu diversos artigos para o jornal O Espiritismo (Le Spiritisme) e é a autora do livro Muita luz (Beaucoup de Lumière), obra fundamental para a compreensão das primeiras gerações da História do Espiritismo (Berthe…, 2021).

Efeitos luminosos e materialização

Natural de Parintins, no Amazonas, Anna Rebello Prado (foto) é a primeira grande médium de materialização do Brasil. Considerada a mais completa do século XX, sua família sempre esteve envolvida com grupos espiritistas da região onde vivia. Seus tios maternos Anna, Emiliano e Jovita eram funcionários do serviço público federal e realizaram um importante serviço difusão do Espiritismo.

Em 9 de junho de 1901, casou-se com o cearense Eurípedes de Albuquerque Prado, um dedicado estudioso das questões ligadas à imortalidade da alma que conheceu a Doutrina Espírita através do livro O céu e o inferno. Ao lado do marido, que foi comerciante, jornalista e professor, além de ser eleito superintendente municipal de Parintins, o equivalente ao atual cargo de prefeito, Anna Prado foi viver em Belém com os filhos Eurídice, Eratósthenes, Antonina e Dinamérico.

O interesse por assuntos ligados ao Espiritismo partiu de seu marido, que, após saber dos fenômenos das mesas girantes, começou a realizar reuniões em sua casa. Anna não participou das primeiras reuniões, dizendo estar sempre ocupada com afazeres domésticos. Numa tarde de domingo, ela foi surpreendida pelo chamado do marido e participou de sua primeira reunião, e fenômenos começaram a ser registrados inicialmente em torno da mesa, como estalidos, violentos abalos. Depois surgiram pancadas e objetos sendo lançados ao solo e o transporte de uma flor do jardim para a mesa da casa.

Segundo Magalhães (2012), “Seguiram-se as materializações em plena obscuridade, apenas perceptíveis pelo tato, […]; gradualmente, da obscuridade plena, passou-se a uma luz muito tênue e de materializações de membros esparsos – um braço, mãos etc. – ao aparecimento de vultos perfeitos e até ao reconhecimento dos mesmos por parte dos parentes. As faculdades mediúnicas de Anna tiveram rápido desenvolvimento. Do interior do lar, alcançaram o domínio público, ultrapassando as fronteiras paraenses, para, logo mais, varar os limites do nosso país e do continente americano, sendo noticiados na França e Alemanha”.

Anna sofreu com o preconceito que imperava na época. Foi difamada, atacada, perseguida e acusada publicamente de estar atuando. Sujeitou-se a provas cruéis, como a ficar presa em uma gaiola de ferro, durante o transe, para provar a veracidade dos fenômenos que provocava: tiptologia, raps, levitação de objetos, escrita direta, sonambulismo, transporte, desdobramento, desmaterialização, aparecimento de luzes espirituais, psicofonia, audiência. Todas essas experiências foram documentadas com fotos e atas.

Durante cinco anos, Anna Prado vivenciou uma vasta produção mediúnica e, após ser vítima de um acidente caseiro com fogo a álcool, desencarnou em 23 de abril de 1923. Passadas três décadas de sua morte, Anna Prado ressurgiu através a psicografia de Chico Xavier com a mensagem “Observação oportuna”, publicada no livro Instruções psicofônicas. Na mensagem ela aborda a vaidade: “A vaidade na excursão difícil, a que nos afeiçoamos com as nossas tarefas, é o rochedo oculto, junto ao qual a embarcação de nossa fé mal-conduzida esbarra com os piratas da sombra, que nos assaltam o empreendimento, buscando estender o nevoeiro do descrédito ao ideal que esposamos, valendo-se, para isso, de nosso próprio desmazelo” (Espíritos diversos, 2013, cap. 50).

A cantora e poetisa das violetas

“Com profunda gratidão minh’alma ferida,

Abençoe Kardec e a sua memória,

Com doze entonações e voz sincera,

Eu quero cantar a sua história:

Eu quero expressar que eu te dou a vida”,

(Trecho do poema “Un Recuerdo a Kardec”).

Amalia Domingo y Soler (foto) foi uma grande médium que, ao lado de Fernandez Colavida, implantou o Espiritismo na Espanha e deixou livros extraordinários. Se tornou notável escritora, oradora e intelectual. Deixou um legado valiosíssimo e foi a primeira mulher espírita do mundo a enfrentar o preconceito contra o Espiritismo em terras espanholas.

Nasceu em Sevilha, Espanha, em 1835, e não conheceu seu pai. Com apenas oito dias de vida ficou cega, mas um farmacêutico local conseguiu reverter o quadro, porém passou a vida enfrentando deficiência visual. Foi alfabetizada pela mãe e, aos 5 anos, conseguia ler com fluência e, aos 10, escreveu suas primeiras poesias, publicadas mais tarde, quando tinha 18 anos.

Seu contato com o Espiritismo aconteceu graças a um médico, que lhe ofertou um exemplar do El Critério, um periódico espírita publicado pela Federação Espírita Espanhola. Em 1872, na edição de n. 9 do jornal, ela publicou o artigo “El Espiritismo es la Verdad”. De origem muito humilde, nunca teve recursos para aquisição de livros e periódicos, mas recebeu de presente do líder do movimento Espírita espanhol, Fernandez Colavida, uma coleção completa de Allan Kardec.

Aos 44 anos, encontrou-se com o seu mentor espiritual, padre Germano, Espírito autor de um de seus livros mais notáveis, Fragmentos das memórias do padre Germano. Ela também ficou conhecida como “poetisa das violetas”.

A dedicação de Amalia Domingo y Soler na divulgação do Espiritismo é reconhecida como de incomparável importância. Entre seus inúmeros trabalhos publicados, destacam-se os mais de cinquenta artigos publicados em novembro de 1878 no jornal A Gazeta de Catalunha, no qual rebateu acusações que eram lançadas contra o Espiritismo pelo conêgo dom Vicente Manterola e outros padres e bispos da Espanha.

Em maio de 1879, assumiu a direção do jornal La luz del Porvenir, destinado às mulheres. Publicou o artigo “A ideia de Deus”, que provocou a ira da Igreja e a suspensão do periódico por quarenta e duas semanas. Durante essa suspensão, foi publicado um substituto, El Eco de la Verdad.

Até 1891, escreveu 1.286 artigos, que foram publicados em periódicos na Espanha e no exterior (Amalia…, 2021).

A grande dama da educação brasileira

Anália Emília Franco (foto) nasceu em Resende, no estado do Rio de Janeiro, em 1º de fevereiro de 1853. Aos 16 anos foi aprovada num Concurso de Câmara para exercer o cargo de professora primária. Em 1872, formou-se como Normalista, em São Paulo. Um ano antes, quando a “Lei do Ventre Livre” foi sancionada no país, determinando que todos os nascituros de escravas no Brasil Império seriam considerados livres, encontrou sua verdadeira vocação.

Consternada por saber que os filhos e as filhas dos negros se transformaram em mendicantes pelas ruas depois de serem expulsos das fazendas por serem impróprios para o trabalho, trocou seu cargo na capital de São Paulo por outro no interior, disposta a socorrer as crianças necessitadas. Em um bairro de uma cidade do estado de São Paulo montou uma casa para montar uma escola primaria, a Casa Maternal, mantida com seus próprios recursos. Para conseguir oferecer a alimentação das crianças, saiu pessoalmente para mendigar em prol dessas crianças.

Sua coragem despertou a ira de católicos, escravocratas e monarquistas, que passaram a defini-la como uma mulher perigosa. Entre 1897 e 1898, sofreu cegueira temporária. Nessa época, estreitou seus laços com o Espiritismo e jamais deixou de lado a sua fé.

Após construir uma dedicada obra com algumas escolas maternais no interior do estado, mudou-se para São Paulo, onde atuou com garra e dedicação em grupos abolicionistas e republicanos, sempre tendo as crianças desamparadas como sua prioridade. Em 1898, fundou a revista Álbum das Meninas, que trazia em sua primeira edição o artigo “Às mães e educadoras”.

Na época da abolição da escravatura e a Proclamação da República, Anália já mantinha dois grandes colégios gratuitos para meninas e meninos. Mais adiante, auxiliada por 20 senhoras apoiadoras, fundou a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, inaugurada em 1901 em São Paulo. Seguiram-se outras entidades educacionais, como Escolas Maternais, Escolas Elementares e o Liceu Feminino.

Escritora incansável, publicou numerosos artigos, folhetos, tratados sobre a infância e uma enorme gama de material destinados a professoras com o intuito de desenvolver as faculdades afetivas e morais das crianças, instruindo-as ao mesmo tempo. Escreveu ainda o livreto O novo manual educativo, dividido em três partes: “Infância”, “Adolescência” e “Juventude”.

Seu legado conta ainda com a revista mensal A Voz Maternal, várias escolas e creches na capital e no interior de São Paulo, assim como bibliotecas, maternais, cursos profissionalizantes, num total de 37 instituições. Fundou a Colônia Regeneradora D. Romualdo, entidade dedicada à instrução de garotos mais aptos para a lavoura, a horticultura e outras atividades agropastoris. O lugar também acolhia moças “desviadas” para um trabalho de regeneração.

Sua obra ficou imortalizada em 71 escolas, dois albergues, uma colônia regeneradora para mulheres, 23 asilos para crianças órfãs, uma Banda Musical Feminina, uma orquestra, um Grupo Dramático, além de oficinas para manufatura de chapéus, flores artificiais etc., em 24 cidades do interior e da capital paulista.

Desencarnou em 20 de janeiro de 1919, em São Paulo, aos 66 anos, vitimada pela gripe espanhola. Após a sua morte, seu esposo, Francisco Antonio Bastos, seguiu adiante com os propósitos de Anália e fundou no Rio de Janeiro o Asilo Anália Franco. Seu legado e seus ideais permanecem vivos até os dias de hoje (Anália…, 2021).

Ela abriu as portas do Espiritismo para Chico Xavier

Impossível esquecer o nome de dona Carmen Pena Perácio quando se pensa na biografia de Chico Xavier. Os primeiros passos do grande médium de Pedro Leopoldo na Doutrina Espírita foram norteados pelo casal de espíritas Hermínio Perácio e sua esposa Carmen, responsáveis por iniciar Chico no Espiritismo. Assustados com a obsessão de uma das irmãs do médium, a família de Chico recorreu ao casal de espíritas, que, após algumas reuniões, conseguiram obter a desejada cura. A partir desse momento, Chico seguiu participando do Culto do Evangelho no Lar com o casal Perácio e iniciou sua jornada na Doutrina.

Foi com Hermínio e Carmen que o médium buscou esclarecimentos sobre mediunidade latente desde a infância, quando ficou órfão de mãe aos 5 anos de idade. O casal presenteou Chico com exemplares de O Evangelho segundo o Espiritismo e O livro dos Espíritos, de Allan Kardec, livros que se transformaram nos alicerces da fé espírita e o orientaram para aceitar a mediunidade e lidar com a presença dos Espíritos (Chico…, 2021).

Uma vida e muitas obras dedicadas ao estudo da Doutrina Espírita

Nascida em Pedra Azul, Minas Gerais, em 3 de maio de 1946, há mais de 40 anos Marta Antunes de Oliveira de Moura representa um dos pilares da Federação Espírita Brasileira (FEB). Nascida em lar de ascendência holandesa com pais e avós espíritas, é formada em Biologia e Biomedicina pela Universidade de Brasília e participa ativamente do estudo e das atividades de formação doutrinária do trabalhador espírita. Integrante da FEB desde 1980, atualmente é coordenadora das Comissões Regionais na área da Mediunidade e uma das vice-presidentes da federação.

Autora e organizadora de diversos livros espíritas e colaboradora da revista Reformador (Marta…, 2021).

A guardiã do acervo espírita

Natural do bairro da Lapa, na zona Oeste de São Paulo, Elza Mazzonetto Machado (foto) nasceu e cresceu em uma família de ascendência italiana. Formou-se como técnica em Nutrição, Pedagogia e Direito. Criada em berço espírita, participou da Mocidade Espírita da Lapa, onde conheceu o futuro marido, Paulo, com quem se casou em 1951, e escreveu uma história de dedicação a divulgação do Espiritismo e prática da caridade.

Ao lado de Paulo fundou o Museu Espírita, com sede no bairro da Lapa, o primeiro no mundo a se dedicar à preservação da memória filosófica e religiosa da Doutrina codificada por Kardec. Tinha tanto zelo pelas obras raras do local que impedia pesquisadores de ficarem a sós com os livros do século XIX, conta Oceano Vieira de Melo, colaborador do museu. Elza desencarnou em 2016, aos 88 anos, de um câncer de pelve.

A incansável dama da ciência e da espiritualidade

Uma vida dedicada ao ideal médico-espírita, à criação e ao crescimento das Associações Médico-Espíritas (AME) no Brasil e no mundo, aos trabalhos espirituais e assistenciais do Grupo Espírita Cairbar Schutel, na capital paulista, e da Instituição Lar do Alvorecer Marlene Nobre, em Diadema (SP), e à criação e direção da Folha Espírita, a dra. Marlene Nobre apresentou programas de rádio e tevê, realizou incontáveis conferências e palestras no Brasil e exterior. Impossível resumir a vida e a importância de Marlene Nobre em poucas linhas.

Sempre cumprindo o que lhe foi determinado por seus mentores, Chico Xavier, Cairbar Schutel e Dr. Bezerra de Menezes, em seus 77 anos de vida atuou incansavelmente como uma das principais lideranças do movimento espírita no país, escreveu vários livros e fez de sua vida um exemplo raro da prática da doação do amor (Iandoli Jr.; Campos, 2020).

Referências

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CHICO Xavier. União Espírita Mineira (UEM), [2021?]. Disponível em: https://www.uemmg.org.br/chico-xavier. Acesso em: 25 fev. 2022.

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FROPO, B. Um pouco de luz. Revue Spirite, Paris, 1884. Disponível em: https://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/L158.pdf. Acesso em: 25 fev. 2022.

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IRMÃS Baudin. Luz Espírita, [2021?]. Disponível em: https://www.luzespirita.org.br/index.php?lisPage=enciclopedia&item=Irm%C3%A3s%20Baudin. Acesso em: 25 fev. 2022.

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ZILDA Gama. União Espírita Mineira (UEM), [2021?]. Disponível em: https://www.uemmg.org.br/biografias/zilda-gama. Acesso em: 25 fev. 2022.


[1] Acesse o Podcast da entrevista com Oceano Vieira de Melo disponível nesta edição.

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