Pandemias trazem grandes lições e também avanços científicos

Em O livro dos Espíritos, questão n. 793, temos a seguinte pergunta:“Têm os flagelos destruidores utilidade, do ponto de vista físico, não obstante os males que ocasionam? Têm. Muitas vezes, mudam as condições de uma região, mas o bem que deles resulta só as gerações vindouras o experimentam”.

Na questão n. 740, há outro esclarecimento sobre o tema: “Não serão os flagelos, igualmente, provas morais para o homem, por porem-no a braços com as mais aflitivas necessidades? Os flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo”.

Hoje, ao atravessarmos a pandemia global de Covid-19, é difícil termos o distanciamento histórico necessário para olharmos as lições e os avanços que ela nos proporcionará, tanto no aspecto moral quanto no tecnológico e científico. Por isso, resgatamos os destaques da palestra “As principais pandemias ao longo da história e suas repercussões na saúde integral do ser humano”, feita pelo médico infectologista Vicente Pessoa (foto), no mais recente congresso da Associação Médico-Espírita Internacional, para nos ajudar a trazer uma perspectiva histórica das lições e dos avanços trazidos pelas pandemias.

Vicente Pessoa é infectologista, mestre em Epidemiologia pelo Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás e vice-presidente da Associação Médico-Espírita de Goiânia (AME-Goiânia). Ele abordou as principais pandemias que acometeram o planeta nos últimos séculos, como a peste negra, varíola, febre amarela, disenteria, cólera, gripe influenza e o tifo, e mostrou o desenvolvimento intelectual e moral proporcionado por esses flagelos.

Para quem quiser saber mais sobre o tema, preparamos um podcast especial da Folha Espírita. Ouça no Spotify, Google Podcast, Apple Podcast, Anchor e principais plataformas de podcast.

Condições favoráveis para pandemias

“Provavelmente, a pandemia que estamos vivendo não será a última que enfrentaremos. Na verdade, o ser humano sempre acaba abrindo espaço para novos vírus e novas bactérias. Mesmo depois da Covid-19, novos vírus devem emergir e causar novas pandemias. As terríveis condições de saúde pública, o desconhecimento da teoria microbiológica das doenças, as péssimas condições de higiene e tratamento da água foram fundamentais para instalação da Peste Negra, como também da Cólera e da Varíola nos séculos anteriores. No momento atual, o nosso estilo de vida favorece a disseminação de vários vírus. Vivemos num mundo globalizado, onde as distâncias são reduzidas e diminuídas, chega-se ao outro lado do mundo em poucas horas. Vivemos em aglomerações urbanas, em que as pessoas estão sempre muito próximas, em contato regular, e isso acaba favorecendo a transmissão de vírus respiratórios e outros.”

Castigo divino?

“A gente não percebe, mas vários avanços políticos, econômicos, científicos e sociais foram trazidos pelas pandemias, e elas também influenciaram a arte, a literatura, a arquitetura e o modo em que vivemos atualmente. Anteriormente, as doenças traziam uma ignorância muito grande junto com elas, não se sabia, por exemplo, que as infectocontagiosas eram transmitidas de uma pessoa para outra, afinal, nem se sabia da existência dos micro-organismos e que eles eram os agentes causadores das epidemias. Nasceu então o conceito que as enfermidades poderiam ser castigos divinos, um castigo de Deus contra os humanos, contra o comportamento da época.”

“As pandemias são aceleradores do desenvolvimento moral e intelectual da humanidade. E é sob essa ótica que nós devemos olhar para a da Covid-19”

Peste Negra: considerada a mãe das pandemias

“A Peste Negra foi uma pandemia de longuíssima duração, desde os anos 1300 até os anos 1800. Ela coincidiu com anos de muitas dificuldades produtivas nas lavouras, de invernos muito rigorosos, que acabaram levando a população a uma fome imensa, a estados de desnutrição e conflitos pela luta de alimentos. Quando a peste adentrava uma cidade, dizimava a maior parte da população. Há relatos, por exemplo, da epidemia de Peste Negra que assolou a cidade italiana de Nápoles, que tinha na época mais de 160 mil habitantes e acabou ficando com um pouco mais de 20 mil moradores.

É uma doença de altíssima virulência e letalidade, mais de 50% das pessoas afetadas pela peste morriam. Além disso, seus sintomas eram muito excruciantes, os infectados sentiam dores muito intensas nas regiões acometidas, e os gânglios necrosados exalavam um odor muito desagradável. Além da sentença de morte quase certa, uma vez que não se conhecia a origem da doença, tampouco os tratamentos, o cheiro desagradável fazia com que essas pessoas fossem isoladas.

A Peste Negra trouxe um grande impacto econômico porque atingiu adultos e jovens na idade produtiva. Teve também um impacto religioso, já que as pessoas passaram a questionar o motivo que essa doença atingia crianças e pessoas inocentes, trazendo como consequência um questionamento da ordem da Igreja Católica, e acabou levando às reformas e ao surgimento do Protestantismo, por exemplo.

Hoje sabemos que as pandemias levam a grandes avanços científicos e não poderia ser diferente com a Peste Negra. Além de contribuir para o desenvolvimento dos equipamentos de proteção individual, que nasceram das tentativas de proteger os médicos no contato e tratamento dos infectados, ela também levou à descoberta de medicamentos diversos e ao que hoje conhecemos como as secretarias de saúde, um grupo de pessoas responsável pela tomada de decisões em relação à saúde da comunidade. O isolamento das cidades também surgiu nessa época, quando elas eram classificadas como pestilentas e cercadas; ninguém entrava, ninguém saía para que a doença não se espalhasse.

Nessa época também surgiu a ideia dos lazaretos, locais que podiam ser um navio ou uma ilha onde as pessoas que chegavam via transporte marítimo eram isoladas e mantidas em quarentena, ou seja, por 40 dias. E por que 40 dias? Não se sabe muito bem, mas a verdade é que tudo na Bíblia era relacionado a 40 dias, Jesus passou 40 dias no deserto, Ele ficou com os apóstolos 40 dias após a ressureição, enfim, tudo na Bíblia gira ao redor de 40 dias. E como a religião tinha um impacto importante naquela época, acreditava-se que as pessoas tinham que ficar 40 dias nesses lazaretos, que nos traz a ideia de ‘quarentena’ que nós usamos até hoje.”

Devemos a descoberta das vacinas à epidemia de Varíola

“Entre 12 e 70% das pessoas infectadas com Varíola vêm a óbito. É uma doença extremamente deformante, com o surgimento de várias úlceras ao longo do corpo. Os doentes sofriam uma repressão social muito intensa, porque essas lesões acabavam deixando sequelas na pele, e a pessoa ficava marcada como sobrevivente ou portadora de Varíola. Era uma doença que existia na Europa e que Cristóvão Colombo ‘levou’ para as Américas com suas frotas navais. Ela dizimou a população de uma ilha no Caribe.

Uma das consequências da epidemia de Varíola foi a escravidão no continente americano. Diante de tantos óbitos em decorrência da Varíola, a esquadra armada dos espanhóis acabou ficando sem mão de obra barata para explorar essas ilhas, e foi aí que surgiu a ideia de trazer os negros da África como escravos. Um dos fatores desencadeantes do tráfico negreiro que impactou tanto a história da humanidade, que trouxe tanto prejuízo aos negros, foi a Varíola, que dizimou a população dessa ilha quando Cristóvão Colombo desembarcou lá no século XV.

A Varíola, no entanto, também trouxe avanços para a humanidade. Já se sabia naquela época que só se pegava a doença uma vez, quem sobrevivia não adquiria uma segunda vez, mas não se sabia o mecanismo que estava por trás disso. Assim, inicialmente os médicos começaram a usar a prática da inoculação. O Dr. Edward Jenner, um médico inglês que atuava no interior da Inglaterra, acabou percebendo que havia uma outra doença muito parecida, a varíola bovina. Após muito estudo e pesquisas, ele retirou a secreção da pústula de uma mulher que ordenhava vacas e inoculou no garoto James Phillips. Ele adoeceu por alguns dias, teve um período febril, recuperou-se e depois foi exposto à varíola humana e não adoeceu. Esse fenômeno é considerado como aquele que deu origem à vacinação, uma das maiores conquistas de saúde pública da humanidade, salvando milhões de vidas todos os anos graças às vacinas.”

Como as epidemias de Febre Amarela, Diarreia e Tifo impactaram a ordem política mundial

“No início do século XIX, uma frota de 75 navios de Napoleão rumou para uma ilha do Caribe para torná-la um posto avançado para invadir a região Sul dos Estados Unidos e conquistar o país. Se ele tivesse conseguisse esse feito, a ordem política mundial seria muito diferente de hoje. No entanto, suas tropas foram dizimadas por uma epidemia de Febre Amarela, que não atingiu a população local porque era constituída predominantemente de escravos negros ou de seus descendentes, que já traziam uma certa tolerância à doença da África.

Isso aconteceu de novo por volta de 1812, quando o grande exército napoleônico, que por onde passava dizimava tudo com seus 500 mil homens, entrou no território asiático em direção à Rússia e foi atacado por uma epidemia de disenteria causada por uma bactéria chamada shigella, dizimando grande parte dos soldados. Quando Napoleão finalmente entrou em confronto com as tropas russas, ele contava com 25 mil homens desnutridos e com grande debilidade orgânica, não conseguindo assim o seu intento de invadir a Índia. Na volta, o exército ainda encontrou a epidemia de Tifo, dizimando ainda mais as suas tropas. Dos 500 mil homens que saíram da França, apenas 15 mil voltaram vivos.”

Tratamento de esgotos e melhores condições sanitárias graças à Cólera

“A Cólera aconteceu no século XIX na Europa, mesma época em que viveu Allan Kardec. As pessoas ficavam muito desidratadas e abatidas, porque é uma doença bacteriana que causa uma diarreia intensa. Na época, não se sabia quais eram as causas nem como tratá-la. Por volta de 1854, um médico inglês, após muito estudo, mostrou que a doença é de transmissão hídrica e instituiu com a prefeitura local medidas de tratamento da água, saneamento básico e higiene para que as pessoas deixassem de adquirir essa doença.

É devido à cólera que observamos os primórdios dos princípios do método epidemiológico de investigação de surto de epidemias, que é usado até hoje para investigar o caso zero, a taxa e o modo de transmissão das doenças.”

Perigos dos vírus respiratórios

“Em 1918, ocorreu a pandemia de gripe, ou influenza, que matou milhões e milhões de pessoas e nos trouxe a ideia do perigo dos vírus respiratórios, que poderiam impactar a humanidade de maneira significativa pela facilidade de transmissão e pela sua alta mortalidade. O contexto social em que a nossa sociedade estava estruturada, muito urbana e aglomerada, facilitava a transmissão do vírus, que poderia ser transmitido facilmente pelo contato próximo de pessoa a pessoa. Surgiu então a necessidade de construção de medidas de prevenção para os vírus influenza e as vacinas de influenza que até hoje são usadas com muito sucesso na prevenção das doenças causadas por esse vírus.”

Avanços trazidos pelas pandemias

“A Peste Negra nos trouxe os comitês de saúde, o isolamento das cidades, a ideia de quarentena com os lazaretos, o uso dos equipamentos de proteção individual, grande influência nas artes e na política e o questionamento do modelo hipocrático das doenças. A Varíola trouxe o conceito de não recorrência e, especialmente, a vacinação. A Cólera disseminou medidas de higiene e a importância do tratamento da água e do saneamento básico, bem como o advento do método de investigação científica de novas doenças. A pandemia da gripe nos advertiu sobre a necessidade de estarmos alertas em relação aos vírus respiratórios.

Muitas outras pandemias afetaram a humanidade – Poliomielite, Tuberculose, Hanseníase, Sarampo e a do Vírus da Imunodeficiência Humana (Aids) – e conseguimos, por meio do estudo de cada uma, avanços científicos impressionantes, como a teoria dos micro-organismos como causadores de doenças, a importância da assepsia nos procedimentos cirúrgicos e o desenvolvimento de antibióticos que, com as vacinas e a anestesia, talvez sejam as grandes conquistas de saúde na atualidade.

Essa pandemia de Covid-19 nos trará grandes ganhos em tecnologias de vacinas, ventilação mecânica e novos equipamentos de proteção individual mais eficazes e duradouros. As pandemias são aceleradores do desenvolvimento moral e intelectual da humanidade. E é sob essa ótica que nós devemos olhar para essa pandemia, como uma oportunidade de progresso intelectual. Mas o progresso moral vai ser um obstáculo caso o homem tenha dentro de si o orgulho e o egoísmo e os não combata por meio da sua transformação moral.”

Fontes O livro dos Espíritos; Associação Médico-Espírita Internacional; Folha Espírita.

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