Vacina é fruto do progresso intelectual da humanidade

Há pouco mais de um ano, o mundo se deparou com um novo vírus, o SARS-Cov-2, que veio trazer mudanças inimagináveis na humanidade. Uma doença de elevada morbimortalidade, que culminou no esgotamento de muitos serviços de saúde, mesmo em países desenvolvidos, onde os recursos são mais disponíveis. Não houve quem não sentisse os efeitos dessa pandemia: danos materiais, físicos, emocionais, além de mais de dois milhões de desencarnes em todo o mundo.

Apesar dessa triste situação, temos na Doutrina dos Espíritos o nosso consolo, pois nos ensina que nada nesta vida é por acaso, e não seria diferente neste grave momento. Esse flagelo, como outros, serve para que a humanidade progrida mais rápido, em pouco tempo, o que levaria muitos anos, talvez décadas ou séculos, caso não vivenciasse tal condição.

Os Espíritos da codificação informaram a Allan Kardec que um dos objetivos de um flagelo é dar a chance de a humanidade desenvolver certos aspectos, como paciência, resignação, amor ao próximo e inteligência (Kardec, 2013). É certo que o progresso intelectual é mais fácil de ocorrer que o moral e que a humanidade muito já se adiantou nesse aspecto. No entanto, diferentemente de antes, nunca vimos um momento em que tantos esforços se voltaram a um objetivo comum: o de combater uma doença que afeta a vida de todos. São pesquisadores, indústria farmacêutica e governos utilizando seus recursos intelectuais, focados em desenvolver uma vacina que traga o controle dessa pandemia.

“As vacinas têm um efeito coletivo, uma vez que impedem que uma pessoa seja transmissora do vírus, contribuindo assim para o controle da disseminação da pandemia”

Imunização: o recurso mais eficaz

Embora a era dos antimicrobianos tenha trazido grande revolução na Medicina, desde a descoberta da penicilina por Alexander Fleming, as medidas sanitárias e a imunização continuam sendo os recursos mais eficazes na prevenção das doenças infecciosas, que causam sequelas e mortes. Por isso, desde os experimentos de Edward Jenner, no final do século XVIII, diversas vacinas foram desenvolvidas e aplicadas, promovendo o controle de doenças que, no passado, afetaram significativamente a humanidade. A varíola foi erradicada. Outras doenças, como poliomielite, caxumba, sarampo, gripe, meningites, pneumonias, entre outras, puderam ser controladas, melhorando as condições de saúde da população. Mesmo quando apresenta eficácia baixa, o impacto da vacinação pode ser muito significativo. Exemplo disso é a vacina contra a gripe. Nos Estados Unidos, entre 2017 e 2018, estima-se que a vacinação evitou a doença em 7,1 milhões de indivíduos e 109 mil hospitalizações, embora a eficácia geral dessa vacina fosse de apenas 38%, considerando as variantes virais que circularam na época (GROHSKOPF et al., 2020).

E agora, perante todos os esforços despendidos na atualidade, estamos entrando num novo momento, em que se desenvolvem vacinas contra a Covid-19. Seja utilizando metodologias já conhecidas (por exemplo, vacinas de vírus inativado) ou novas tecnologias (por exemplo, vacina de vetor viral e vacinas genéticas), pesquisadores e laboratórios de várias partes do mundo estão num caminho comum, buscando no intelecto a solução para a pandemia.

 As vacinas permitem uma proteção individual para aquele que a recebe, reduzindo a chance de adoecer ou de adoecimento grave. Diferentemente de uma medicação que possa prevenir ou amenizar a Covid-19, as vacinas têm um efeito coletivo, pois impedem que uma pessoa seja transmissora do vírus, contribuindo, sobremaneira, para o controle da disseminação da pandemia. Contribuem também para se obter a conhecida imunidade de “rebanho” (proteção dada para pessoas não vacinadas diante de uma população com grande quantidade de indivíduos imunes), situação que levaria à mínima disseminação da doença na população. Embora as pessoas se vacinem pensando na proteção de si mesmas, devem se lembrar que esse recurso médico contribui igualmente para a proteção dos outros, sendo essa medida um bem coletivo.

É fato que essas vacinas contra a Covid-19 precisaram ter suas pesquisas aceleradas. Enquanto espera-se, ao menos, de 4 a 5 anos para se ter uma vacina pronta para uso, no atual contexto, devido ao elevado impacto que a pandemia está causando, com menos de um ano temos vacinas sendo utilizadas, por isso é esperado que elas não sejam perfeitas. Podem ter eficácia abaixo do ideal e efeitos colaterais indesejados. No entanto, as evidências apontam para uma elevada segurança e uma efetividade suficiente para contribuir no controle da pandemia, permitindo-nos o seu uso. Portanto, é momento de comemoração, de esperança, uma luz no fim do túnel para socorrer esta humanidade que se encontra adoecida.

Medidas de precaução permanecem

É importante considerar que nenhuma vacina é 100% eficaz (nem todas as pessoas vacinadas estarão protegidas da doença), assim como que, por questões logísticas, não será possível vacinar toda a população ao mesmo tempo, portanto, as medidas de precaução, como uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento social, continuarão sendo necessárias até que a pandemia esteja devidamente controlada.

“O estado emocional interfere no sistema imunológico”

Falando-se em eficácia, diversos fatores podem interferir na resposta individual a uma vacina: tecnologia da vacina, armazenamento, transporte do material, condições ou doenças que a pessoa é portadora e que reduzem sua capacidade de desenvolver imunidade, entre outros. Aqui, destaco um aspecto que é pouco falado, mas é de grande importância, o emocional/espiritual.

Uma metanálise (síntese de diversas pesquisas), publicada no periódico científico Brain, Behavior, and Immunity, avaliou a produção de anticorpos após a vacinação contra a gripe de pessoas sob condições de estresse importante comparadas àquelas que se encontravam emocionalmente equilibradas (PEDERSEN et al., 2020). Dez estudos entraram nessa análise, e todos eles identificaram que pessoas mais estressadas produziam menor quantidade de anticorpos. Esse achado corrobora a hipótese de que o estado emocional interfere diretamente sobre o corpo físico, incluindo o sistema imunológico, responsável pelas defesas orgânicas.

“Não apenas a pandemia em si é um convite à nossa transformação, para um mais rápido adiantamento deste planeta, mas a busca de uma imunidade, com o imprescindível auxílio das vacinas, também exige de nós a educação da alma”

Na literatura espírita, encontramos algumas importantes referências acerca dessa temática. Manoel Philomeno de Miranda (2015) nos aponta que mau humor, pessimismo, revolta, ódio, ciúme, lubricidade e viciações de qualquer natureza são responsáveis pela perda do comando celular por parte do Espírito encarnado, ocasionando falhas no sistema imunológico. André Luiz (2014) diz que “as depressões criadas em nós por nós mesmos […] plasmam determinados campos de ruptura na harmonia celular. […] Verificada a disfunção, toda a zona atingida pelo desajustamento se torna passível de invasão microbiana […]”.

As palavras dos amigos espirituais não poderiam ser mais claras para nos informar que a vigilância dos sentimentos está no cerne da saúde integral. Para se desenvolver imunidade, é preciso um íntimo movimento de educação da alma. Por isso, André Luiz (2014) afirma que nos ensinamentos de Jesus, vencendo em nós a animalidade, o orgulho, a vaidade, a cobiça, a crueldade e a avareza, bem como vivenciando a simplicidade, a humildade, a fraternidade sem limites e o perdão incondicional, poderemos encontrar a “imunologia perfeita em nossa vida interior, fortalecendo-nos o poder da mente na autodefensiva contra todos os elementos destruidores e degradantes que nos cercam e articulando-nos as possibilidades imprescindíveis à evolução para Deus”.

Não apenas a pandemia em si é um convite à nossa transformação, para um mais rápido adiantamento deste planeta, mas a busca de uma imunidade, com o imprescindível auxílio das vacinas, também exige de nós a educação da alma. Afinal, nada é por acaso, e tudo na natureza nos convida à evolução.

Ricardo de Souza Cavalcante é infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) e presidente da Associação Médico-Espírita de Botucatu.

Gibi conta quais tipos de vacinas os cientistas estão desenvolvendo contra a
Covid-19! Confira!

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