Relatório sobre a fome no mundo pede mudanças em favor das minorias

O mais importante relatório sobre o assunto, intitulado o estado da insegurança alimentar no mundo 2020 (SOFI, na sigla em inglês), publicado na primeira quinzena de julho por cinco agências da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Programa Mundial de Alimentos (PMA), Unicef e Organização Mundial da Saúde (OMS), estima que, no final do ano passado, entre 720 e 811 milhões de pessoas acordavam sem saber se comeriam ao longo do dia. Em 2019, 650 milhões de pessoas passavam fome no mundo todo. Isso significa que pelo menos 118 milhões de pessoas passaram a integrar a lista da fome. A Covid-19 significou um revés que afastou ainda mais o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que busca erradicar a insegurança alimentar até 2030, melhorar a nutrição e promover uma agricultura sustentável.

Segundo o jornal El País, um dos que publicou a notícia, os autores alertam que a atual conjuntura é “significativamente mais desafiadora” que a de outros anos. “Este é o pico mais alto de fome e desnutrição crônica já encontrado”, declarou ao jornal Máximo Torero Cullen, economista-chefe da FAO. “Perdemos tudo o que havia sido recuperado até 2015.”

O El País relata ainda que, para o Unicef, “é inquietante” que em 2020 a fome tenha aumentado tanto em termos absolutos como relativos, superando o crescimento da população. O pior cenário, segundo os dados, indicaria que 10% dos habitantes do planeta sofreram insegurança alimentar no ano passado, contra 8,4% em 2019. Mais da metade deles (418 milhões) vivem na Ásia; mais de um terço (282 milhões), na África; e uma proporção menor (60 milhões), na América Latina e no Caribe. O aumento mais pronunciado, ainda segundo o jornal, foi registrado na África, onde 21% da população é afetada, mais do que o dobro em relação a qualquer outra região.

O El País informa ainda que a cifra é ainda maior se, além daqueles que tiveram uma alimentação insuficiente, forem incluídos os que não tiveram acesso a uma alimentação adequada: mais de 2,3 bilhões de pessoas, ou 30% da população global. “Um indicador que, em um ano, deu um salto tão grande quanto o dos cinco anos anteriores juntos”, adverte o relatório. As previsões para os próximos anos também não são animadoras: cerca de 660 milhões de pessoas continuarão em situação de insegurança alimentar no final desta década, em grande parte devido aos efeitos colaterais da crise desencadeada pela Covid-19.

Sobre o assunto, a Folha Espírita conversou com o sociólogo Elias Inácio de Moraes, educador social voluntário, autor do livro Contextualizando Kardec: do século XIX ao XXI e colaborador na Fraternidade Espírita, na Federação Espírita do Estado de Goiás (FEEGO) e na Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais (Aephus).

FE – Como você enxerga a situação vivida pelo planeta?

Moraes – Há uma tendência no meio espírita no sentido de explicar tudo espiritualmente. Isso é interessante, sob certos aspectos, mas é preciso tomar muito cuidado para não excluirmos a análise das causas objetivas, materiais. Existe no mundo um conflito de interesses que precisa ser explicitado se queremos promover melhorias nas condições de vida das pessoas. De um lado, há o interesse das grandes corporações, dos grandes capitais, cuja atuação está orientada para a lucratividade, para a dominação de mercados, para o ganho financeiro. Isso alimenta um pensamento que permeia a sociedade, fazendo com que as pessoas acreditem que o mundo só tem como funcionar desse jeito. Do outro lado há uma sociedade que precisa viver, aprender, crescer espiritualmente, proporcionar qualidade de vida e dignidade às pessoas. Para você melhorar a vida das pessoas você precisa fazer o mesmo com o ganho dessas pessoas, priorizar benefícios sociais, direcionar investimentos para finalidades coletivas, e isso compromete a lucratividade das empresas. Então, são interesses em conflito, e a ação política é o campo onde essas disputas acontecem, com parte da sociedade procurando ampliar direitos, garantir condições de vida, educação, saúde, alimentação e outra parte desejando garantir o seu lucro, preservar e ampliar o seu patrimônio. O século XX foi marcado por várias conquistas, em vários países, em favor do bem-estar social. Nesse início do século XXI, se observou uma forte reação no outro sentido e, nos últimos anos, temos observado em todo o planeta uma movimentação maior em favor dos interesses econômicos. Isso tem impacto direto na qualidade de vida das pessoas, sendo o mais doloroso a falta da alimentação. A fome é uma tragédia que jamais pode ser admitida em uma sociedade que se diz civilizada, e ela está voltando com força. Não há como pensar em crescimento espiritual quando se está com fome. Então, é preciso que a sociedade se organize no sentido de mobilizar as forças sociais e políticas de modo a voltar a priorizar os interesses coletivos em vez da lucratividade das empresas e dos capitais. Não é fácil cultivar espiritualidade quando se têm fome, e esse é o primeiro dever de uma sociedade que se pretende minimamente civilizada, sobretudo no nosso caso, que nos dizemos cristãos.

FE – A pandemia causou também outras alterações: o perfil das novas vítimas da fome mudou. Segundo Torero Cullen, antes a insegurança alimentar era estreitamente vinculada à pobreza. “A Covid-19 provocou uma forte guinada que não esperávamos na população da América Latina”, diz o economista. “Isso ocorreu por causa da duração dos confinamentos e da sua relação com a informalidade no trabalho, cuja média é de 54% e que pode chegar a 70% em alguns países. Parte dessa classe média perdeu tudo de repente e entrou pela primeira vez na estatística da fome. O que acha que nós, brasileiros, devemos fazer para mudar esse cenário?

Moraes – Não há como fazer face a um cenário como esse da pandemia sem a participação do Estado. A solidariedade humana, tão somente, não tem poder de alcance para situações tão generalizadas. Aliás, a figura do Estado foi pensada como um agente que poderia atuar nessas situações que escapam ao controle dos indivíduos. Em alguns países vimos os seus governos viabilizarem recursos para garantir pelo menos o básico para as pessoas que se viram em estado de fragilidade, seja mediante bônus para os não assalariados, seja mediante crédito subsidiado para pequenas empresas. Em outros, a preocupação foi em não comprometer a lucratividade das empresas, os orçamentos públicos. Nesse sentido, é a atuação dos governos de cada país que determina se as condições de vida da sua população serão mais ou menos afetadas, se haverá ou não fome e até mesmo a quantidade de pessoas que morrerão. É muito comum no meio espírita as pessoas tentarem explicar situações como a pandemia, a pobreza, buscando causas espirituais e isso é um grande equívoco. Pandemias, tsunamis e grandes acidentes são ocorrências inevitáveis da vida material. O que há de espiritual nisso é o modo como atuamos diante dessas situações. Nas sociedades mais solidárias uns cuidam dos outros; nas sociedades mais egoístas, cada um cuida dos seus interesses, e o coletivo é ignorado. Como decorrência da crença geral que vigora em cada sociedade, umas sofrerão mais, outras menos, de acordo com as diretrizes adotadas por seus governos. O que podemos fazer é exigir dos governantes que priorizem as condições de vida das pessoas em vez de se preocuparem prioritariamente com a economia. Se as pessoas estiverem bem ao final, a economia pode ser reconstruída rapidamente. Se apenas a economia estiver bem e as pessoas estiverem mal, a economia não se sustentará no longo prazo. Gosto de pensar como seria se Jesus fosse o ministro da Economia, ou o presidente da República. Penso que esse seria o modelo ideal de sociedade.

Para você melhorar a vida das pessoas você precisa fazer o mesmo com o ganho dessas pessoas, priorizar benefícios sociais, direcionar investimentos para finalidades coletivas, e isso compromete a lucratividade das empresas. Então, são interesses em conflito, e a ação política é o campo onde essas disputas acontecem, com parte da sociedade procurando ampliar direitos, garantir condições de vida, educação, saúde, alimentação e outra parte desejando garantir o seu lucro, preservar e ampliar o seu patrimônio.

FE – Os sistemas alimentares do futuro devem proporcionar meios de vida dignos para as pessoas que trabalham neles, em particular para os produtores de pequena escala dos países em desenvolvimento, segundo o relatório. Para Torero Cullen, “a Covid-19 pode ser uma oportunidade para fazer coisas diferentes. Se não fizermos uma mudança estrutural dos sistemas agroalimentares, a situação se tornará muito complicada.” O que você acha que precisa ser feito?

Não apenas “para os que trabalham neles”, pois uma sociedade mais espiritualizada pensa em todos os seus membros. O desemprego e a falta de trabalho não são uma decisão dos indivíduos. Hoje você nem pode dizer a uma pessoa que ela pode plantar alguma coisa no seu quintal, porque as pessoas não têm sequer um quintal. Todas as terras foram tomadas por proprietários particulares e não há onde uma pessoa plantar algo com que possa alimentar sua família. O próprio modelo econômico cria situações de fome e de miséria. Manter uma porcentagem maior de pessoas desempregadas é uma maneira de manter o valor dos salários em patamares vantajosos para as empresas. Com o avanço da automação e da robótica e o uso crescente da Inteligência Artificial, estima-se em mais de uma dezena de milhões a quantidade dos novos desempregados somente no Brasil. Não há “empreendedorismo” que dê conta dessa situação. Mundialmente isso representa outra tragédia, talvez ainda maior que a da Covid-19. Vimos que, com a pandemia, os ricos conseguiram abocanhar ainda mais riqueza, enquanto os mais pobres perderam até o pouco que tinham. A “mudança estrutural” a que o entrevistado se refere precisa ser ainda mais profunda; é preciso repensar a própria lógica do sistema econômico, deixando de privilegiar o capital e a lucratividade das empresas e focando nas condições de vida das pessoas. Não se pode servir a Deus e a Mamon; ninguém tem como servir a dois senhores; ou se desagrada a um, ou se desagrada ao outro. Já sabemos disso há dois mil anos. É preciso saber escolher o lado que interessa à maioria, o lado dos fragilizados, e a maioria são os pobres, os excluídos. Os ricos são minoria. Não há como atender às necessidades da sociedade sem desagradar as pessoas ricas. É uma escolha que precisa ser feita.

FE – Os especialistas propõem seis caminhos para a mudança, dependendo do contexto: implementar políticas de consolidação da paz em zonas afetadas por conflitos que possibilitem ajuda humanitária; aumentar a resiliência climática; fortalecer a economia dos mais vulneráveis; intervir e baixar o custo dos alimentos nutritivos; abordar a pobreza e as desigualdades estruturais; e mudar o comportamento do consumidor para promover padrões dietéticos com impactos positivos na saúde humana e no meio ambiente. E você?

Os especialistas quase sempre imaginam soluções de cima para baixo, como se os detentores do poder econômico fossem se preocupar, de repente, com a paz, com o clima, com os mais vulneráveis. Isso não vai acontecer. Ao contrário, as guerras, a devastação ambiental, a miséria, tudo isso é fruto do interesse econômico que, para atingir seus objetivos, lança mão de todos os expedientes, sem a menor preocupação ética, ambiental ou com vidas humanas. É preciso ter claro que o poder econômico não trabalha pela via da gentileza ou da solidariedade; seu único interesse é o lucro. Quando pensa no ser humano é porque sabe que é o trabalho dele que produz a riqueza que lhe proporciona o lucro. Nesse sentido há uma dificuldade no meio espírita, que é muito avesso à discussão das temáticas sociais e à atuação política; há uma crença de que as soluções virão do mundo espiritual, que virão Espíritos superiores promover a transformação de que o mundo necessita, que Deus vai dar um jeito de mudar o mundo. Essas crenças não encontram respaldo na história; o que a história demonstra é que toda mudança em favor da sociedade foi conquistada mediante luta, mobilização, pressão popular. Deus age no mundo através dos seres humanos. Em vez de esperar que as mudanças venham por iniciativa das lideranças do planeta, é preciso criar a consciência de que a maior caridade que se pode fazer é ajudar a impulsionar as mudanças em favor dos interesses da maioria, que são os pobres, os desempregados, os moradores das periferias, os que sofrem discriminação e preconceito. Nesse sentido é preciso ter claro o papel das nossas lideranças. São essas pessoas que podem influenciar a sociedade como um todo no sentido de promover as mudanças necessárias nas leis, nas instituições sociais, nos modelos econômicos, no sistema político, de modo a direcionar as prioridades para os trabalhadores, os pequenos empresários que fazem funcionar a ponta da economia, os desempregados, os pobres, os marginalizados. É um grande trabalho de conscientização que começa pela base da pirâmide social, mas para isso é preciso que o meio espírita supere sua aversão pelas questões de conteúdo social e político. Não se trata de abraçar a política partidária, o que é de foro íntimo, mas de abrir espaço na sua programação para estudos e debates de temas sociais, da política enquanto filosofia, de identificar meios pelos quais se possa garantir melhores condições de vida para todos os seres humanos.

Em vez de esperar que as mudanças venham por iniciativa das lideranças do planeta, é preciso criar a consciência de que a maior caridade que se pode fazer é ajudar a impulsionar as mudanças em favor dos interesses da maioria, que são os pobres, os desempregados, os moradores das periferias, os que sofrem discriminação e preconceito.

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