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Tragédias familiares pedem reflexão sobre nosso papel como sociedade

No último mês, um adolescente de 16 anos confessou ter matado o pai, a mãe e a irmã na casa onde a família morava, na Zona Oeste da capital paulista, após uma briga por conta de um celular. O crime chocou o país porque, apesar de ter procurado a polícia para revelar o ato, ele só o fez três dias depois, tendo mantido os corpos em casa. Em depoimento à Polícia Civil, o garoto demonstrou frieza e falou com naturalidade sobre como teria atacado os familiares. Questionado, ele disse não estar arrependido e afirmou que, se fosse possível, faria de novo. Ele chegou a ir à academia e fez compras de alimentos com os familiares já mortos em casa.

No mesmo período, um outro jovem da mesma idade matou os pais adotivos a marteladas, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, saiu de casa para lanchar com um amigo e, quando voltou, ateou fogo no quarto do casal. O menino, que vivia com a família desde 2014, quando foi adotado, ligou para a polícia e contou que o motivo foi uma discussão porque os pais não queriam que o jovem faltasse à escola para ir à aula de jiu-jítsu.

Certeza que todos nós, ao nos depararmos com essas notícias, fizemos uma série de reflexões sobre o porquê desses atos. Seriam reflexos psiquiátricos ou espirituais? Sobre isso, fomos ouvir o psiquiatra da Infância e Adolescência Marcus Ribeiro (foto), presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME-SP).

Folha Espírita – Como você avalia os episódios do ponto de vista psiquiátrico e espiritual?

Marcus Ribeiro – Aqui cabe uma discussão que perpassa tanto o campo jurídico quanto o médico: até que ponto esse comportamento pode ser entendido pelo prisma da psicopatologia ou não. Sem ter o entendimento profundo do caso, é imprudente dar qualquer opinião específica. De todo modo, um ponto importante para refletirmos em casos como esses é que, quando algo assim acontece, nós falhamos enquanto sociedade, humanidade e Espíritos. Acredito que a reflexão maior deve ser sobre prevenção. O que temos feito ou como temos feito quando se trata de orientação, cuidado e instrução das nossas crianças? O que temos cultivado e repassado para as nossas crianças enquanto valores e princípios e qual o investimento afetivo, emocional para elas?

FE – Muitos dirão que deveria voltar a se discutir sobre a maioridade penal… Como você vê essa questão?

Ribeiro – Discutir a maioridade penal é focar no final do problema, quando a tragédia já aconteceu. É uma discussão sobre como enxugar o gelo: se será com pano, com papel higiênico ou com guardanapo. Acredito que deveríamos direcionar o nosso esforço enquanto sociedade, enquanto indivíduos, para lidar com o começo, antes de isso acontecer. Esse deveria ser o maior investimento. É claro que em ambos os casos cabe à Justiça, depois do ocorrido, e a verificação sobre quais as medidas preventivas para evitar que algo nesse sentido aconteça novamente. E não cabe a mim decidir nada disso. Mas acho que precisamos começar a desenvolver um outro olhar sobre o que temos feito. Muitos se mobilizam com força para discutir a maioridade penal, mas não usam a mesma energia para discutir educação, para buscar apoio às famílias e oportunizar ambientes mais qualitativos do ponto de vista do desenvolvimento socioemocional. Uma pergunta importante é: o quanto temos possibilitado que as famílias estejam com seus filhos? O quanto temos investido na educação e preparação dos pais para que eles também desenvolvam habilidades de educação socioemocional? Creio que estamos canalizando, na maioria das vezes, a força e a energia para a punição ao invés da prevenção.

FE – Ambos os garotos foram adotados. Isso influencia em atos assim?

Ribeiro – Isso não tem a ver com a adoção, que é um ato de amor. A gente sabe o quanto as crianças que estão em situação de vulnerabilidade, negligência, ou em situações nas quais não têm acesso a uma família, a um cuidado, o quanto isso implica na saúde dela e no seu desenvolvimento de uma forma geral. Então, acho que a gente tem que ser muito cuidadoso em não estigmatizar a adoção como algo de risco, como algo negativo. Pelo contrário, acho que temos que pensar isso como algo que ajuda, que auxilia. Claro que vão ter desafios decorrentes naturais desse processo, assim como a gestação natural também tem os seus.

FE – O que deve ser avaliado em casos assim?

Ribeiro – O que precisamos pensar é que crianças que vivenciaram traumas, abusos, sejam eles quais forem, precisam de um cuidado, de uma intervenção, desenvolvida por profissionais capacitados, nessa área específica para que seu desenvolvimento possa percorrer uma trajetória mais saudável diante de muitas fragilidades. É possível fazer isso, buscando-se ferramentas para que isso gere um lugar de acolhimento. Sabemos que em relação ao neurodesenvolvimento, principalmente na primeira infância, ter uma figura de referência que ofereça um lugar de acolhimento, de apoio, de referência de limites e um apego seguro são fatores isolados de promoção de saúde mental. Então, se há algo que a gente possa fazer nesse sentido, é pensar mais, refletir mais sobre o quanto temos oferecido algo nesse sentido. Seja no ambiente familiar ou no ambiente institucional, buscar experiências de acolhimento, de afeto de qualidade positiva e de construção de limites servirá de modelo para essas crianças e para esses jovens, porque é isso que vai criar uma estrutura emocional e cerebral que permita, mais tarde, na infância mais tardia ou mesmo na adolescência, que hajam ali recursos de autorregulação, de lidar com as próprias frustrações, uma série de habilidades socioemocionais importantíssimas para o desenvolvimento saudável. Isso precisa ser construído desde cedo.

FE – O que é preciso levar em conta?

Ribeiro – Possíveis transtornos mentais, sejam eles quais forem, que podem levar a esse comportamento violento. Sabemos que históricos de abuso físico, emocional e sexual podem resultar em traumas profundos, que podem levar também a estados e a atos de extrema violência. Não sabemos se é o caso, mas precisamos levar isso em consideração. Dinâmicas familiares, influências externas, como a própria mídia, bullying, influência de grupos extremistas, tudo isso pode influenciar bastante, de uma forma geral. No entanto, especificamente nesses casos, é necessária uma avaliação mais completa, uma análise detalhada do histórico de saúde mental desses jovens, das dinâmicas familiares e de outros fatores contextuais.

FE – Sob a perspectiva espiritual, como enxerga esses casos?

Ribeiro – Da perspectiva espiritual, também diversas questões poderiam implicar, e nenhuma delas pode ser uma causa específica. A gente poderia falar, e não estou falando do caso em si, mas de uma forma geral, de questões que envolveriam desequilíbrio espiritual e influências negativas, assim como tantos outros fatores. Devemos vibrar por essas famílias e por esses Espíritos.

FE – Como sociedade, o que podemos fazer para diminuir a ocorrência de casos como esses?

Ribeiro – Precisamos nos mobilizar mais em ações, em mudanças reais, significativas, primeiro com nós mesmos. E isso precisa ser ampliado para outras frentes sociais, políticas, familiares, escolares etc., para que possamos trabalhar todos em uma única direção. E isso tem que começar em nós, porque se os nossos valores não estão alinhados a isso, a uma prática de fraternidade, de acolhimento, de amorosidade, como é que vamos passar isso enquanto família, enquanto sociedade, enquanto instituições para as crianças? Fica uma coisa meio ambígua, meio hipócrita. Falamos, mas não vivemos. Achamos, mas não fazemos. Então, acho que isso leva para essa reflexão também.

FE – Jovens como esses, que cometeram um crime bárbaro, foram para a Fundação Casa e sairão em dois anos por conta da idade. Alguém assim pode voltar a viver em sociedade?

Ribeiro – Se não acreditarmos nisso, estamos fadados a nos destruir. Se não acreditarmos que as pessoas possam melhorar, que possam se modificar. Muitas vezes, isso não depende só do indivíduo. Temos de nos questionar enquanto sociedade e enquanto sistema também. O que esse sistema tem oferecido de reabilitação? Será que o que temos oferecido realmente reabilita? Será que isso realmente oferece oportunidades? De uma forma geral, não estou falando dos casos especificamente. Há outras perspectivas para isso, porque se queremos realmente reabilitar alguém, se o interesse é realmente esse e nos importarmos com isso, precisamos também nos questionar, porque às vezes o sistema não faz isso, às vezes o sistema faz o aprisionamento ou faz só o aumento da violência, do estigma, daquilo que já é a motivação do próprio crime, por exemplo. Então, há várias perspectivas. Desde uma perspectiva, por exemplo, psiquiátrica, que vai desde a avaliação até o tratamento. Se estamos falando de um diagnóstico psiquiátrico, se é isso o caso, como reintegrar? Como que esse jovem vai ser avaliado? Ele está sendo avaliado? Que tipo de tratamento será oferecido? Será que é um tratamento adequado, com terapia, medicação, suporte? Como é que se dá essa reabilitação, desde o desenvolvimento de habilidades sociais, controle de impulso, participação em programas que possam aumentar a chance de uma reintegração bem-sucedida, se ele vai ter um suporte, um monitoramento contínuo, mesmo após a liberação, se vamos conseguir garantir para esse jovem os recursos para que ele progrida e receba o tratamento necessário. Na perspectiva social, que engloba a questão do estigma, da aceitação, isso também implica oportunidade de educação, de emprego; e na perspectiva jurídica, isso implica em como funciona o sistema de justiça juvenil, as condições de liberdade, enfim. Há tantas questões que podemos ter uma ideia da dificuldade. Tudo é um desafio, mas não algo impossível. Cada caso é único.

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