Aplicar os ensinamentos do Evangelho deve ser a conduta cristã

Não podemos alegar que desconhecemos as normas que regem a conduta de um cristão. Afinal, as lições contidas no Evangelho estão contadas a partir de situações reais vividas por Jesus, sempre diante de uma pequena ou, às vezes, grande multidão que o acompanhava a fim de ouvi-lo. Ele, porém, não se limitou a falar por parábolas, que ele tão bem criava a partir da realidade daquela gente e dos seus costumes, na sua maioria chancelados pelos judeus. E se trouxermos os seus ensinamentos para os dias atuais e para a nossa realidade, até que ponto os aceitamos como norma para a nossa conduta? E, se aceitamos, em que medida conseguimos colocar em prática? Obviamente, não pretendo aqui afirmar que já alcançamos o pleno entendimento a ponto de nos conduzirmos sem dificuldade pelas lições do Evangelho! Afinal, se assim fosse, o que estaríamos fazendo aqui, neste mundo de provas e expiações, não é mesmo?

Humberto de Campos, no livro Contos e apólogos, psicografado por Chico Xavier, em lição intitulada “A conduta cristã”, nos conta o seguinte episódio protagonizado por um cameleiro (condutor de camelos) chamado Ibraim ben Azor.

Ibraim entrou na singela casa de Simão Pedro, onde se encontrava Jesus, que o fitava com os olhos translúcidos. O cameleiro vinha ali pedir instruções da Boa-Nova ao Mestre, às quais Jesus respondeu com a sua habitual doçura.

– Mestre – perguntou o cameleiro. Na hipótese de aceitar a nova revelação –, como me comportarei perante as criaturas de má-fé?

Ao que Jesus respondeu:

– Perdoarás e trabalharás sempre, fazendo quanto possível para que se coloquem no nível de tua compreensão, desculpando-as e amparando-as, infinitamente.

Ao ouvir esta resposta do Mestre, Ibraim disparou com outras tantas perguntas, sobre outras possibilidades terríveis que poderiam atingi-lo.

– E se me cercarem todos os dias?

– Continuarás perdoando e trabalhando em benefício deles – respondeu Jesus.

– E se me caluniarem? Admitamos que tais pessoas me vergastem com frases cruéis e apontamentos injustos… Como proceder se me enlamearem o caminho, atirando-me flechas incendiadas?

– Perdoarás e trabalharás sem descanso, possibilitando a renovação do pensamento que a teu respeito fazem – respondeu o Nazareno.

Inconformado com as respostas do Mestre, o consulente insistia nas suas pressuposições de todo o tipo de mal que alguém lhe pudesse fazer.

– Senhor – clamou ele, desapontado. – E se as pesadas mãos dos ignorantes ameaçarem-me a casa? Se a maldade perseguir-me a família, os meus entes mais caros, nos seus interesses?

– Perdoarás e trabalharás, a fim de que a normalidade se reajuste sem ódios, compreendendo que há milhões de seres na Terra fustigados por aflições maiores que a tua, cabendo-nos a obrigação de auxiliar, não somente os que se fazem detentores do nosso bem querer, mas também todos os irmãos em humanidade, que o Pai nos recomenda amar e ajudar incessantemente.

Ibraim ainda faz outras inquirições às quais Jesus sempre respondia com as duas recomendações principais: “Perdoarás e trabalharás…” fazendo, ao final, a seguinte ponderação:

– Depois de todos os nossos deveres integralmente cumpridos, não passamos de meros servidores, à face do Pai, a quem pertence o Universo, desde o grão de areia às estrelas distantes.

A certa altura do inusitado diálogo, conturbado e já sem argumentação, o cameleiro chama Simão e pergunta se aquele homem era realmente o Messias, e quando este confirmou a identidade do Mestre, Ibraim, carrancudo, como se tivesse recebido uma grande ofensa, foi embora, sem dizer adeus.

Será que em muitas ocasiões não nos comportamos como Ibraim, o cameleiro? Aceitamos de bom grado os ensinamentos do Evangelho quando aplicado aos outros, mas em relação a nós, questionamos?

Afinal, como assim, perdoar coisas tão graves? E trabalhar servindo não parece que somos fracos, bobalhões, sem brios, sem amor-próprio? O fato é que não nos elevaremos à condição de anjos para a qual fomos criados enquanto negarmos a importância do perdoar, trabalhar e servir….

Pensemos nisto.

Fonte

Contos e apólogos, por Humberto de Campos, psicografia de Chico Xavier.

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