Vítimas da irritação

Sandra Marinho

Como é difícil não se irritar nos dias atuais, diante de tantas situações de inconfomidade que vivenciamos! Certa vez, a médica Marlene Nobre, em uma de suas palestras, falou que a indignação faz parte da natureza humana. Indignamo-nos perante a injustiça, o mal e tudo o que nos fere a moral, os sentimentos e o nosso jeito de ser. No entanto, a indignação não deve evoluir para a revolta, cujos efeitos são sempre negativos para nós e para a coletividade. Por outro lado, também não é saudável e tampouco produtivo vivermos em estado de indignação vazia.

Vocês já perceberam que uma atitude comum decorrente da indignação é a irritação? Até que ponto nos irritarmos diante de tudo o que não concordamos é salutar ou eficaz? De fato, não conseguimos sofrear a irritação perante situações ou coisas que nos pertubam, porém o que dizer das pessoas que vivem irritadas com tudo e na maior parte de sua existência? O que as fazem se “indignar”, irritando-se com quase tudo?

Quem nos chama a atenção é Emmanuel no livro Estude e viva, psicografado por Chico Xavier. O autor começa a escrever sobre o assunto fazendo a seguinte observação: “As ocorrências da irritação aparecem muito mais frequentemente nos caracteres enobrecidos, como uma espécie de enfermidade da retidão, se a retidão pudesse adoecer”.

Creio que Emmanuel quis dizer que todos conhecemos pessoas possuidoras de uma ampla visão da vida, são extremamente responsáveis e dedicam-se aos seus deveres, com afinco e disciplina. São extremamente disciplinadas e perfeccionistas no que fazem. No trabalho, nos empreendimentos de caráter social que abraçam e no seio familiar. Enfim, são pessoas irrepreensíveis na sua conduta. E, por entenderem que estão acima da média dos outros mortais, passam a acreditar-se com extensa margem de direitos, superestimando o próprio valor. Como diz a moçada “ficam se achando”!

Nesse estado de espírito, a pessoa se abala facilmente com contratempos e vacilações alheias, supernaturais de ocorrer no dia a dia de qualquer pessoa. Acredita-se vítima de incompreensões e ofensas alheias e se magoa facilmente. Sempre melindrosa, torna-se díficil no relacionamento.

Emmanuel trata esse problema como verdeira patologia da mente. Como identificar tais doentes da alma? São aqueles que entre os mais íntimos são vistos como enfermos prestimosos e amados, mas evitados, porque todos reconhecem a sua envergadura moral, porém nunca se sabe o momento em que a pessoa vai explodir. Assim, melhor ficar longe! Já no campo do trabalho, por serem conhecidos pelo péssimo humor, esses companheiros, embora estimáveis e preciosos, mas que, infelizmente, não pensam duas vezes para ofender alguém com as suas cobranças e críticas, são procurados ou consultados em último caso e muito excepcionalmente. Ou então, são colocados à margem, na conta de amigos temperamentais ou nervosos distintos.

Acredito que o leitor, com essa descrição de Emmanuel, tenha se lembrado de alguém com esse perfil, como, por exemplo, um parente que todos admiram pelo seu valor, mas que, realmente, tem que medir as palavras para falar com ele. Aquela mulher que sozinha criou os filhos, enfrentando muitas dificuldades e conseguiu educá-los, formá-los e transformá-los em adultos valorosos, mas que, lamentavelmente, baseada nesse supervalor que se atribui, se tornou uma senhora cheia de melindres e cobradora, não somente dos filhos, mas de toda a sociedade. Por essa razão, vive triste e insegura e com a constante sensação que é portadora de créditos que ninguém reconhece. E se somos nós o enfermo ou a enferma? O que fazer? Emmanuel convida-nos a fazer um autoexame e, se nos encontrarmos em tal estado enfermiço, recomenda-nos que nos tratemos, assim como se medica um órgão doente. Lembra-nos de que, mesmo se não nos acharmos diante de tal enfermidade, que o melhor remédio, tanto para combater quanto para prevenir, é nos mantermos serenos diante das dificuldades e operosos na prática do bem, à frente de qualquer situação. Não se esqueça de que a erva-de-passarinho asfixia de preferência as árvores nobres, e a tiririca se alastra como verdadeira calamidade na terra boa.

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