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“Ambiente social que estimula a violência reflete ataques a escolas”

Telma Vinha (foto) é pedagoga, doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp e professora do Departamento de Psicologia Educacional da mesma instituição. Desenvolve pesquisas sobre clima escolar, problemas de convivência, relações interpessoais e desenvolvimento sociomoral e emocional. É coordenadora do Grupo de Estudos sobre Ética, Diversidade e Democracia na Escola Pública do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) e coordenadora associada do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM). Também coordena e desenvolve formações e projetos em escolas que visam à melhoria da qualidade da convivência e do clima escolar, favorecendo a construção da autonomia. Autora e coautora de artigos e livros, entre eles Quando a escola é democrática: um olhar sobre a prática de regras e assembleias na escola; Indisciplina, conflitos e bullying na escola; Da escola para a vida em sociedade: o valor da convivência democrática. Telma conversou com a Folha Espírita sobre o estudo que divulgou recentemente a respeito dos ataques de violência extrema em escolas no Brasil.

O que está por trás desses ataques? Existe uma explicação para eles? Há um perfil de quem pratica esse tipo de violência? Qual a motivação que está por trás dela? A professora discute o uso de armas, a comunicação violenta, a Internet, a família e a influência que cada um exerce nesses episódios e aponta os caminhos para mudanças urgentes que precisam ocorrer nas políticas públicas e na sociedade como um todo para que tenhamos dias melhores.

FOTO: ANTONINHO PERRI / UNICAMP

Folha Espírita – Telma, você e a mestranda Cléo Garcia, ambas da Faculdade de Educação da Unicamp, acabaram de divulgar um estudo sobre ataques de violência extrema nas escolas do Brasil. Ele chegou praticamente ao mesmo tempo de um ataque ocorrido no final de março na Zona Oeste da capital paulista. Hoje, justamente no dia no qual estava marcada esta entrevista, tivemos mais um episódio em uma creche em Blumenau/SC que deixou quatro crianças mortas. O que está por trás desses ataques?

Telma Vinha – Esse estudo já estava em andamento antes do que aconteceu em São Paulo. Ele teve início em 2019, na época do ataque em Suzano, depois houve o de Aracruz. Acompanhamos esse processo, e o estudo indicava que novos ataques em escolas iriam acontecer. Investigamos o que chamamos de violência extrema na escola, cometida por estudantes. O que aconteceu hoje não é considerado parte do estudo porque é de uma pessoa que tem problemas mentais e com a Polícia. O que estudamos são os ataques planejados. O nosso objetivo é tentar entender qual é o sentido da escola para esses meninos que promovem os ataques, visto que é um lugar no qual as pessoas estabelecem vínculos, vão todos os dias. Quando se tem um atentado à escola, a violência é extremamente potencializada, bem diferente do que se ocorresse em um supermercado, onde as pessoas não se veem de novo, não têm de conviver. Quando assim acontece numa escola, você afeta os grupos daquela escola, a comunidade do entorno, toda uma rede. Os efeitos depois de um ataque são muito sérios. O primeiro ataque aconteceu na Bahia em 2002. De lá para cá, tivemos 22 ataques em escolas cometidos por estudantes. O que chama a atenção é que nos últimos oito meses tivemos nove desses 22.

“Tem algo muito errado, então isso demonstra claramente que temos de acender alerta máximo. Não estão em risco apenas as escolas, mas a sociedade.”

Identificar o perfil dos que promovem os ataques nos ajuda a entender o porquê de eles acontecerem. Geralmente são jovens – o atirador mais novo com 10 anos de idade e o mais velho com 25 –, brancos e do sexo masculino. Têm gosto pela violência, pelo culto às armas. É muito comum que ostentem, tirem fotos e as postem com armas. Apresentam indícios de transtornos mentais variados, não identificados, não tratados, não acompanhados. Esses meninos apresentam também um isolamento social. Não são os populares da escola! Eles são aqueles mais reclusos que interagem mais na Internet. Se apresentam com características de discursos de ódio, de machismo, de racismo e não têm um propósito, ideias de futuro. Muitos ainda abandonaram a escola. Analisando os ataques, encontramos duas características muito importantes. Todos eles têm uma experiência de sofrimento na escola. Pode ser bullying, humilhação, exclusão. Mas não podemos dizer que essas são as únicas causas, porque não existe uma única causa. Existem fatores associados, mas o ambiente escolar tem um significado para eles de sofrimento. O segundo aspecto que a gente encontra na análise, principalmente nos últimos anos dos ataques, é que esses adolescentes são usuários do que a gente chama de subcultura extremista. Eles se articulam com comunidades on-line que incentivam violência, misoginia, extremismo. Um dado que chama a atenção é que há uns anos, para participar desses fóruns, era preciso acessar a Internet profunda, conhecida como Deep Web, e ter o navegador Thor, algo difícil. Atualmente, eles têm acesso por Instagram, Twitter. No Twitter, você acha inúmeros perfis de meninos que claramente dizem que se vence o bullying com tiro e declaram ódio contra as mulheres. No TikTok se ensina massacres. Também idolatram esses atiradores que conseguiram matar um grande número de pessoas. Então, uma das características é que o atirador não volta só por vingança, mas porque quer fazer o maior número de vítimas possível para ser glorificado nesses espaços. Muitas vezes, eles começam com games e são seduzidos a irem para outra plataforma, para fóruns, comunidades que têm neofascistas, neonazistas, que veem a diversidade como uma ameaça. Nesses grupos, eles se sentem pertencentes, são escutados, sentem que têm valor.

Crianças sem apoio fora da escola

FE – Existe uma explicação para a maior parte dos ataques ocorrer em escolas públicas?

Telma – A escola particular está melhor preparada para lidar com certas situações. Quando há uma mudança de comportamento, se conversa com a família, que normalmente tem uma condição financeira melhor, um plano de saúde que permite a procura por um especialista, um apoio psicológico. Na escola pública, na maioria das vezes, os serviços psicossociais são muito precários, e as famílias às vezes não têm condições de levar o filho a um tratamento, porque trabalha o dia inteiro ou não consegue ter gastos com transporte. O aluno da escola particular tem no contraturno aulas de inglês, pratica esporte, tem uma atividade artística. Esses meninos da escola pública, muitas vezes, não têm nada para fazer que fortaleça o espaço de socialização. Não raro, a escola é a única instituição social que frequentam. É uma realidade muito diferente.

Leia também: Fanatismo ou efeito manada? Por que precisamos refletir sobre isso?

FE – Esse movimento de ataques a escolas começou há mais ou menos 20 anos, nos EUA, um país armamentista. Eles não aconteciam no Brasil. O que mudou aqui?

Telma – OsEstados Unidos têm uma cultura armamentista, como você colocou bem, e também uma cultura da mediatização. Lá o primeiro ocorreu em 2009, em Columbine, com a morte de 15 pessoas. Ele foi o primeiro transmitido em tempo real pela televisão. O autor é considerado um verdadeiro herói. Os ataques que ocorreram no Brasil em Realengo, por exemplo, ou Suzano, são muito parecidos. Os autores usaram roupas e máscaras muito semelhantes. Nós tivemos nos últimos anos um aumento muito grande de armas circulando no Brasil, principalmente nos últimos quatro anos. Quase 480% a mais. Essa disponibilidade de armas favorece a ideia do poder da arma, da violência, e, ao mesmo tempo, a letalidade desses crimes. Um outro fator que merece destaque também e que tem a ver com o que aconteceu nos Estados Unidos é que nós vivemos nos últimos anos um discurso social encorajando direta ou indiretamente esses atos agressivos de violência extrema. Então, é como se tivesse a sociedade dado autorização para agir. Até 2017, nós tínhamos uma média de 11 tiroteios por ano nos Estados Unidos. A partir de 2018, quando começou o governo Trump, se acentuaram, e em 2022, chegaram a 46 por ano.

Mão de um educador bravo
Banco de Imagem

“Quando você tem um ambiente social que estimula a violência, o discurso de ódio, a polarização entre as pessoas, você vê isso sendo manifestado também nos ataques. Então, por isso que a gente diz tanto lá como aqui que vai acontecer de novo. Os EUA são os que têm a maior segurança em escolas que existe. Mas os ataques continuam.”

FE – Segurança não é a palavra-chave, correto?

Telma – Pode existir segurança, mas se existe um discurso social encorajando a violência… Vocês se lembram daquele episódio que aconteceu no começo do ano logo após a eleição presidencial? Grupos racistas que falavam dos pobres, dos nordestinos. Não tem de ter questões partidárias na escola, mas não se discutiu o que estava acontecendo, as mensagens que estavam vindo, a polarização, as agressões, o porquê de as famílias estarem brigando. Esses temas, que faziam parte do cotidiano dos jovens, foram excluídos da escola. E não poderiam ter sido. Tivemos também uma pandemia, adoecimento mental. Esses meninos voltaram para a escola depois de ficarem muito tempo conectados. Houve aumento nos casos de violência na escola. Um caldeirão, com vários fatores interferindo. Será que segurança funciona? Se sim, os Estados Unidos não teriam ataques. Somente neste ano, tivemos mais de 12 tiroteios em escolas americanas. Por que a segurança não funciona? Porque eles planejam o ataque com antecedência. Pensam como entrar. O ataque de Aracruz, por exemplo, foi planejado por dois anos. Segurança não muda a concepção. Segurança não muda sentimento. A escola precisa justamente trabalhar a mudança dessas concepções. Claro que algumas medidas podem ser tomadas. Uma escola de Vitória, por exemplo, colocou um botão do pânico. Se houver algum ataque, alguma violência, ele será acionado, viaturas policiais próximas irão se dirigir para lá, e tudo será gravado. São medidas da Polícia na escola.

Redes sociais com responsabilidade

FE – Existe uma política de comunicação na Internet que faz com que os alunos vigiem o professor como alguém que está prestes a cometer um delito. O professor se sente acuado em falar sobre determinados temas.

Telma – É uma coisa muito séria o que aconteceu e ainda está acontecendo. A família tem valores próprios, é responsável pela educação de âmbito privado e vai educar de acordo com o valor da comunidade que ela convive. Pode ser uma família generosa, mas pode ser uma que subjuga a mulher, que considera que a homossexualidade não é algo normal. Quando esse menino está na escola, os valores da sua comunidade familiar têm de ser transformados em valores coletivos e socialmente desejáveis. Essa é uma das funções da escola. Ela que vai preparar o indivíduo para uma sociedade plural diversa, democrática. Não se faz isso sem uma autonomia intelectual, sem um espaço de discussão. Temáticas que envolvam a convivência on-line são superimportante. Os alunos têm de aprender formas de manipulação das redes sociais.

FE – Como você vê a responsabilidade das plataformas digitais?

Telma – Defendemos uma política de responsabilização e punição das plataformas que abrigam conteúdo que incita violência. Tem de haver prazo para retirada desses conteúdos. A gente denuncia, por exemplo, meninos que dizem que vão fazer determinada coisa. Não acontece nada. Defendemos que haja um canal único de recebimento de denúncias, que haja investigação,
porque esses meninos anunciam previamente o que vão fazer. É preciso levar a sério esses anúncios, denunciar.

FE – E as mídias, como devem agir?

Telma – Uma das coisas que a gente diz é que não se deve divulgar nenhuma informação sobre o autor de um ataque ou sobre o processo. Deve-se focar na vítima, porque eles querem justamente serem famosos. Se é divulgado quem fez e como fez, inspiram-se novos ataques.

FE – O que mais é importante?

Telma – Defendemos a ampliação do sistema de proteção social, o fortalecimento do serviço de atendimento psicológico/psiquiátrico das redes. A gente já vem de um adoecimento mental da pandemia. Também defendemos políticas públicas na área da convivência, que ajudem a escola a transformar o ambiente. Isso tem várias estratégias que podem ser utilizadas.

FE – Qual é o papel do gestor, da escola, do diretor, dos orientadores, dos coordenadores?

Telma – É preciso levar adiante qualquer sinal que o aluno apresente de violência. Essa é uma questão muito importante. Nos estudos que a gente tem acompanhado, os gestores, muitas vezes, estão assoberbados com uma série de coisas burocráticas, avaliações externas. Grande parte se sente estressada por causa de problemas de convivência, de disciplina, dentro da escola. Então, acabam mais apagando incêndio do que conseguindo criar dentro da escola uma política de fomento da qualidade da convivência. Temos exemplos de países como Chile, Colômbia e Espanha que têm adotado políticas de convivência democrática e cidadã. Esse tipo de política vai preparando a escola primeiro para diferenciar os problemas de convivência. Tem problemas que só perturbam, que atrapalham como indisciplina, mas tem problemas que são violência, bullying, agressividade. Muitas vezes, a escola lida com problemas de natureza distinta da mesma maneira. É preciso atuar em uma dimensão preventiva do racismo, da violência, com estratégia, assertividade, autorregulação emocional. Atualmente, a gente sabe como desenvolver uma cultura de diálogo na escola. É importante a implantação de rodas de diálogo ou assembleias quinzenais em cada turma, nas quais discute-se sobre a convivência. É um processo no qual ao se aprender, se perceber, se identificam problemas, colocam-se argumentos, ouve-se a perspectiva do outro, busca-se assim uma solução coletiva e, ao mesmo tempo, se preparam alguns profissionais da escola para implantar espaços de mediação de conflito. Por exemplo: eu briguei com você na saída da escola e fiz um post na Internet. Eu expus alguém! O espaço de mediação é de âmbito mais privado. Lá eu tenho que expressar o que me aconteceu, como eu me senti e o outro vai colocar a perspectiva dele. Aprende-se, na ação, a substituir violência pela palavra.

“Existe uma série de recursos que mudam a cultura da escola. É preciso políticas públicas de fomento para isso, que incluem a formação de professores, para que eles consigam melhorar a qualidade das relações, criando um ambiente mais humanizado. Quando você faz isso todo mundo ganha: o gestor, os profissionais, os estudantes. Muda-se a qualidade do clima da escola. Todos se sentem mais pertencentes àquela escola e tornam-se mais participativos.”

É urgente que a sociedade se una para exigir uma série de coisas, inclusive dizer que não dá mais para a gente ignorar o espaço escolar, que tem de ser essencial em termos de acolhimento, de formação, de escuta, porque a nossa sociedade está em risco. A gente só perdeu até agora.

FE – Como você vê a importância do desenvolvimento do valor moral para a construção do ser humano de forma integral?

Telma – Minha área de pesquisa é o desenvolvimento moral, os valores, o desenvolvimento de autonomia. Existe uma diferença entre clima escolar e convivência. O clima é a busca pelo bem-estar das pessoas que estão lá, de confiança, relações de apoio. Quando a gente fala em convivência, falamos de convivência ética e democrática. Por quê? Porque é na convivência que eu aprendo valores como respeito, justiça, que eu desenvolvo empatia, o reconhecimento do direito do outro e o meu direito. Isso tem de estar presente na escola. Só o conteúdo curricular não é capaz de transformar ninguém.

“A vivência e o pensar sobre questões são capazes de transformar. Tem que haver uma coerência entre aquilo que se pretende ensinar e aquilo que se vive na ação.”

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