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A eutanásia é solução para abreviar o sofrimento?

No último mês, o ex-primeiro-ministro holandês Dries van Agt e sua esposa, Eugenie, optaram por morrer juntos por eutanásia dupla na Holanda. Dries e Eugenia van Agt estavam casados há 70 anos. Ambos tinham 93 anos e morreram assistidos por médicos em 5 de fevereiro em um hospital na cidade de Nijmegen, no Leste do país, onde viviam, segundo informou a The Rights Forum, uma fundação pró-Palestina fundada por van Agt.

Conforme noticiou o portal G1, com base em informações da fundação, o ex-premiê, que governou a Holanda entre 1977 e 1982, tinha sequelas de uma hemorragia cerebral que teve em 2019, e sua esposa optou por não viver sem o marido. A eutanásia é legal na Holanda desde 2002, mas só pode ser aplicada se a pessoa estiver em sofrimento, sem perspectiva de alívio e tenha o desejo de morrer. Isso é certificado por pelo menos dois médicos. Na Europa, além da Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Espanha e Portugal permitem a eutanásia.

Luís Gustavo Langoni Mariotti (foto), médico com especialização em Geriatria pela Escola Paulista de Medicina, com área de atuação em Medicina Paliativa, coordenador do Departamento de Cuidados Paliativos da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil), nos traz esclarecimentossobre a decisão do casal pela eutanásia.

Folha Espírita – Qual a sua análise sobre o caso?

Luís Gustavo Langoni Mariotti – Falar sobre o sofrimento humano é sempre muito delicado quando você não vive aquela experiência e não acompanha de perto a situação que levou ao processo de adoecimento. Pelo que vimos, ele tinha tido um acidente vascular cerebral e ficado bastante sequelado. Talvez aí haja alguns motivos, que a gente não sabe ao certo, que podem envolver falta de cuidado ou de suporte social adequados, recursos financeiros, perda de sentido na vida etc., ou uma dificuldade em aceitar as limitações que a vida lhe impôs naquele momento, em termos de redução da capacidade funcional, intelectual etc. Enfim, podem ser muitas as razões e os fatores possíveis que podem levar uma pessoa a entrar num estado de desespero intenso, a ponto de pedir para que alguém abrevie sua vida.

É bom esclarecer que, no Brasil, a eutanásia é crime, assim como o suicídio assistido. Este é legalizado em países como Holanda, Bélgica e Canadá, por exemplo, e em alguns estados dos Estados Unidos. Algumas associações médicas, como o colégio americano dos médicos e a associação internacional de hospitais e cuidados paliativos, apontam que a eutanásia e o suicídio assistido talvez não sejam as melhores práticas para a gente aliviar o sofrimento de alguém. E por que eu trago essa informação? Porque quem atua e cuida de pessoas com doenças crônicas avançadas e ameaçadoras da vida – eu já trabalho há mais de 13 anos nessa área – vê com muita frequência a falta de cuidado adequado, de um trabalho de equipe multidisciplinar que ofereça um conjunto de cuidados holísticos e ativos para promover a prevenção e o alívio do sofrimento. Um cuidado multidimensional, ou seja, que envolva os aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais. Há fontes de sofrimento que não são cobertas, que não são cuidadas, que não são tratadas. Talvez esta seja a pergunta que devemos fazer nessas situações: que tipo de recurso e cuidado essas pessoas recebem? Ou não recebem, a ponto de pedirem a eutanásia ou o suicídio assistido.

Acho que a questão não é um juízo de valor sobre o fato em si, embora eu seja totalmente contrário, em qualquer situação, à prática da eutanásia e do suicídio assistido. No entanto, acredito ser preciso entender um pouco melhor os meandros da vida de quem faz essa escolha. Quanto a esse casal, por exemplo, devemos considerar aquilo que eles entendiam como o sentido da vida, qual a experiência do sofrimento e o suporte que eles receberam, a ponto de acreditarmos que talvez eles estivessem num sofrimento tão intenso que os levou a pedir o abreviamento de suas vidas.

FE – Pesquisando aqui sobre o caso, vi que a Holanda permite a eutanásia dupla para casais. Segundo os dados apontados, já foram 116 casos no país desde 2022. O que você nos diz sobre uma lei como essa? Muitos têm a visão de que os países que legalizam a eutanásia são mais modernos, dando o livre-arbítrio para o cidadão. Você acha que esse é o caminho?

Mariotti – Se pegarmos a trajetória histórica dos cuidadores multimilenares, passando pela profissão médica e demais profissionais da saúde, em nenhum momento conseguiremos identificar uma validação de que seja papel do profissional da saúde aliviar o sofrimento de alguém matando esse alguém. É quase que um sentimento inato a todos nós a própria preservação das nossas vidas. Como disse Herculano Pires, há a falta de uma cultura e de uma educação para a morte. Se houvesse o entendimento da importância da experienciação do processo do final da vida e a compreensão da morte como algo natural, assim como é o nascimento, as pessoas compreenderiam a importância da própria vida e de despertar valores, despertar em cada ser um verdadeiro propósito, que é viver a vida como for possível, se deparando com situações que são naturais. Muitas delas envolvem o próprio adoecimento físico. Isso quer dizer que é possível recebermos amparo, bons cuidados, sermos bem cuidados até o final da nossa vida.

Agora, existem alguns que defendem a eutanásia e o suicídio assistido por conta do sofrimento das pessoas, acreditando que isso é respeitar a autonomia do indivíduo. Há contrapontos interessantes em relação a esses argumentos. Primeiro, a autonomia do indivíduo não é absoluta. Por exemplo, você não pode dirigir bêbado sem estar submetido a sanções; na Medicina, pessoas podem sofrer penalizações se não tiverem uma conduta prudente. É interessante que algumas pesquisas mostram que até 43% das pessoas que pedem por eutanásia ou por suicídio assistido o fazem por se sentirem um fardo para familiares, cuidadores ou amigos. Precisamos tomar bastante cuidado também com aquelas pessoas que estão com depressão ou têm algum transtorno mental grave. Em relação ao controle da dor, hoje temos diversos recursos possíveis para seu controle adequado, inclusive a sedação paliativa.

“14% de toda a população no mundo que tem um sofrimento grave relacionado à saúde recebe cuidados paliativos, com suporte de uma equipe multiprofissional para o melhor enfrentamento da sua condição, da sua qualidade de vida. É um número ainda muito irrisório e é preciso melhorar isso.”

FE – Você citou que as pessoas deveriam encarar a morte como um processo que um dia vai chegar e por isso devem se preparar para isso. Você acha que a espiritualidade por si só ajuda as pessoas idosas a lidarem melhor com essa fase da vida?

Mariotti – Acredito que sim. A pessoa não precisa necessariamente ter uma crença religiosa, mas quando ela encontra alguns aspectos que a auxilia no entendimento dessa temporalidade da vida física, essa perspectiva do transcendente, da continuidade da vida, de tudo o que ela faz aqui, isso dá sentido sobre o próprio sofrimento. É um recurso para o melhor enfrentamento das coisas.

“Não é raro o paciente nos pedir remédios para acabar com seu sofrimento. Quando vamos a fundo, entendemos a perda da independência, a ausência de suporte social, o mau controle dos sintomas físicos, como dor, náusea, vômito. A pessoa não consegue se alimentar adequadamente ou não dorme bem e entra em um quadro de humor depressivo. Tudo isso pode precipitar esse desejo de morrer. É claro que se você oferece cuidados ao longo do tempo, se você está junto dessa pessoa e dessa família, cuidando até o final da vida, é muito natural que esse sentimento seja amenizado, e o paciente nem toca mais no assunto.”

FE – Como é tudo isso dentro do ponto de vista médico-espírita?

Mariotti – Não só dentro da Doutrina Espírita, mas dentro das religiões como um todo, espiritual, ninguém advoga que o abreviamento da vida humana seja um recurso ou melhor recurso para aliviar o sofrimento. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo 5, encontramos duas comunicações importantes: uma do Espírito Bernardinho, em 1863, e outra de São Luís, em 1860. Nos itens 27 e 28, eles trazem uma reflexão sobre isso, quando perguntados se é correto pôr fim às provas do próximo, quando se pode ou é preciso, ou, por respeito aos desígnios de Deus, deve-se deixá-la seguir seu curso. Eles orientam que não sabemos qual é o tempo da prova de alguém nem se isso pode ser mudado. Será que Deus não nos coloca em uma posição ou situação para abrandar o sofrimento do outro ao invés de matá-lo para aliviar o sofrimento? Precisamos refletir sobre isso para oferecer os melhores cuidados às pessoas com grave sofrimento relacionado à saúde.

FE – Existe algum estudo que mostre que a espiritualidade ajuda as pessoas a enfrentarem essas situações limítrofes?

Mariotti – Desconheço que exista algum estudo científico robusto de intervenção que contribua para uma redução de pedidos de eutanásia. O que posso dizer é que muitos pacientes, portadores de condições graves, quando recebem uma intervenção espiritual, um acolhimento, um suporte religioso, sobretudo aqueles que estão no hospital, são menos internados na UTI. Do mesmo modo, recebem menos medidas desproporcionais ao contexto de saúde grave e, geralmente, acabam tendo sintomas mais controlados, apresentam melhor qualidade de vida, se sentem mais em paz, se sentem mais preparados para resolver pendências e com um menor sofrimento.

FE – Como os profissionais da saúde podem e devem agir em situações como essa?

Mariotti – A primeira coisa é respeitar a legislação brasileira e o próprio código de ética médica, que deixa claro que é vedado, ao médico, abreviar a vida do seu paciente. Uma boa parte dos profissionais ainda tem experiências com bastante sofrimento, por falta de uma formação ao longo da jornada acadêmica da graduação relacionada à Medicina Paliativa, área de atuação extremamente importante. É uma proposta mais recente, que auxilia e contribui para que os profissionais possam estar mais instrumentalizados para cuidar daqueles com grande sofrimento relacionado à saúde.

Precisamos cuidar da saúde mental desses profissionais, pois percebemos uma grande insatisfação em relação à questão de remuneração, ao sentido da própria profissão, à carga horária excessiva, aos desafios do próprio sistema de saúde, seja ele público ou privado. Então, esse é um elemento importante. Acho que ao longo da jornada profissional, temos que ter a humildade e o entendimento de refletir de tempos em tempos sobre como estamos atuando na nossa profissão. Se às vezes não estamos precisando de uma ajuda profissional psicológica devido à sobrecarga de trabalho e aos desafios, inclusive do ponto de vista familiar.

“Buscamos uma profissão que tem o papel de cuidar do outro. Acho, então, que a primeira lição que precisamos fazer é cuidar de nós mesmos, vivendo um processo de autoespiritualização. Temos a contribuição da Doutrina Espírita como pilar científico, filosófico e religioso, um instrumento a mais para que possamos encontrar algumas respostas e seguirmos na nossa vida profissional e pessoal com mais sentido, com mais propósito, com mais paz no coração”.

FE – Que recado você deixa para quem está passando por dificuldades?

Mariotti – A mensagem de Jesus é a mais consoladora que podemos ter. Quando Cristo nos exemplificou que era preciso fazer o possível para que cuidássemos de nós mesmos, para que pudéssemos modificar as situações e ter um melhor enfrentamento, Jesus nunca negou a nossa finitude. Jesus pedia para darmos as mãos uns aos outros e entregar a nossa vida a Deus. É preciso que a pessoa que esteja passando por essa situação tenha os recursos necessários para que seu sofrimento seja amenizado, sejam eles financeiros, emocionais, sociais, espirituais e da dor. É preciso enxergar a vida como um contínuo, a morte como uma passagem e que, possivelmente, reencontraremos aqueles afetos tão queridos, aqueles que velam por nós, aqueles que investem em nós do outro lado da vida. Quando, de maneira muito humilde,

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