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Por que é tão importante olhar para o “fluxo” e tomar decisões sobre os dependentes químicos

Uma massa de pessoas viciadas em crack e outras drogas circula diariamente entre uma rua e outra no centro de São Paulo. O “fluxo”, como é conhecido, se tornou um problema para os moradores e comércio da região, que sofrem com o afastamento de pessoas e clientes, que evitam passar por ali, já que as drogas trouxeram também assaltos e violência. Quem passa por ali não esquece. É, sem dúvida, uma cena dantesca, um grave problema social, que vem se repetindo não só ali, mas em vários outros lugares no mundo.

Entre operações policiais e polêmicas sobre levar usuários de drogas do centro da capital paulista para outro local, muitos especialistas dizem que a política de repressão à cena de uso de drogas que tem sido adotada tem fracassado há mais de 10 anos e que outra política pública, de trazer saúde, moradia e renda aos usuários seria mais efetiva, inclusive para trazer mais segurança à região. Então, o que fazer com essa legião de drogados que vivem fora da realidade entre um cachimbo de crack e outro?

O psiquiatra Edson Luiz dos Santos Cardoso (foto), membro da Associação Médico-Espírita de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, que participou de um painel
sobre dependência química e espiritualidade no Mednesp 2023, o congresso da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil), acredita que a internação compulsória é um recurso para o dependente químico. “Entendo como médico, mas também como médico espírita, que o ser humano perde o seu livre-arbítrio quando está enlouquecido ou completamente intoxicado por uma substância química. O álcool e outras drogas agem em uma região do nosso cérebro chamada pré-frontal, que nos adéqua, nos dá limites. É o que faz com que nós estejamos agora nesse momento tranquilo, sentados adequadamente, falando num tom adequado para esta entrevista. Uma pessoa que está sob efeito de substância química, portanto com essa região ‘anestesiada’, perde toda sua adequação. Por isso que quando alguém bebe fica alterado, fala alto, briga, dirige de uma forma que não deveria, ofende – e depois vai se arrepender, chorar – e suas emoções ficam sem freios e limites. O álcool faz isso. Por isso, é a porta de entrada para outras drogas. É um facilitador”, afirma.

De acordo com o psiquiatra, que escreveu um capítulo que trata da questão ética e do livre-arbítrio versus internação compulsória no livro Bioética espírita, da AME-Brasil Editora, as pessoas que estão nas ruas estão com um uma total perda do seu livre-arbítrio, totalmente dominadas tanto pela substância quanto pelos Espíritos obsessores. “São Espíritos que desencarnaram bebendo, usando drogas. Como não têm mais o corpo físico para consumir essas substâncias eles se aproximam. Isso é uma regra”, garante. “Se alguém é um dependente químico nesta encarnação e não abandonar o vício vai desencarnar como um depende químico. Então, a tendência vai ser ficar aqui, preso às drogas, vampirizando quem está na mesma sintonia, ou seja, se satisfazendo por meio das emanações do encarnado”, explica.

É por essa razão, segundo Cardoso, que quando alguém estiver na rua nesse estado de domínio total tem que sofrer uma intervenção. “Na psiquiatria, nossa posição é muito clara. Internamos uma pessoa quando ela está em risco de vida, risco de suicídio, quando está colocando um terceiro em risco, seja de agressão, de homicídio, ou quando a pessoa não tem crítica de sua doença. O dependente químico preenche geralmente esses requisitos, motivo suficiente para agirmos. Tenho experiência com trabalho de mais de 10 anos em uma comunidade terapêutica, na qual eram recebidas pessoas viciadas nos mais variados tipos de drogas. Todas ficavam internadas por pelo menos nove meses para conseguir vencer a dependência química, aprender uma espécie de ‘novo funcionamento’ para poder voltar à sociedade de uma maneira diferente e não cair de novo na droga de preferência. Muitos acabavam entrando num hospital por internação compulsória e iam para a fazenda terapêutica por internação compulsória. No primeiro mês ficam com raiva da família, não aceitam, brigam por seus ‘direitos’, mas estão lá doentes. Quando passa um mês no qual estão sem a droga, agradecem”, revela.

Cardoso explica que a desintoxicação começa na região pré-frontal do cérebro. Quando a pessoa começa a ficar desintoxicada, começa a recuperar seus limites, seus freios, seu comportamento e sua adequação melhoram. “O que eu via na comunidade terapêutica eram pessoas que tinham entrado em conflito com a lei, com a família, agredido, roubado. Depois de desintoxicadas eram pessoas educadas, que respeitavam tudo e todos, que pediam desculpas. Eles diziam que tinham de olhar para suas latas de lixo porque elas que as ajudariam a não querer mais voltar para a droga e que não podiam se esquecer dela. Porque uma vez dependente químico sempre dependente químico”, diz.

O psiquiatra explica que o dependente químico é um ser que teve contato com a substância química em encarnação passada. Muitas vezes, experimentou a bebida social, aí foi vindo mapeando seu perispírito, e como tinha grande prazer com isso, vem para esta encarnação com uma tendência maior. Recebe toda orientação do plano espiritual para que não continue com aquele vício porque vai poder trazer muitos problemas para ele, desde cânceres, cirroses e a própria dependência novamente. “Aí o que que acontece? Pode vir numa família que vai ter quem bebe, usuários. Para quê? Para receber aquela genética física e para ter aqueles modelos e exemplos. Mas não para cair, porque foi preparado no mundo espiritual para vir, mas não cair. Vem para passar por situações, mas para vencer. Só que muitos ainda não conseguem”.

“Além do entorpecimento psíquico, as drogas também liberam toxinas que atingem o perispírito, o laço que une o corpo físico ao Espírito. Os danos causados ao corpo físico também se refletem no corpo espiritual. A dependência prossegue até mesmo depois da morte, o perispírito carrega as lesões e pode plasmar uma predisposição orgânica no novo corpo físico.”

No Mednesp 2023, o psiquiatra conversou com a Folha Espírita:

FE – O que é considerada uma dependência química?

Cardoso – Existe um entendimento de que a dependência química está relacionada apenas às drogas ilícitas, como maconha, cocaína e crack, mas não é verdade. Álcool, tabaco e, inclusive, alguns medicamentos lícitos também estão nesse grupo. A pessoa começa a consumir algo, normalmente por curiosidade, torna-se um usuário ocasional, depois mais frequente e, então, passa a ter transtornos: familiares, sociais, no trabalho, na saúde. Assim, tudo vai gerando transtorno e se tornando algo compulsivo na vida da pessoa, dominando seus desejos e vontades. As substâncias vão tomando conta da vida da pessoa e gerando cada vez mais uma busca progressiva pela chamada droga de preferência.

FE – Existe algum gatilho que pode desencadear essa dependência?

Cardoso – Existem muitas teorias, mas nenhuma delas explica totalmente por que uma pessoa se torna dependente. Sabemos que existem fatores, inclusive genéticos. Se em uma família o pai, a mãe e os tios bebem, a criança que está nessa família vai ter uma herança genética que vem dessa árvore genealógica. Então, essa criança pode desenvolver a dependência. Também há outros fatores trazidos em teorias psicodinâmicas e psicológicas. Hoje está muito em voga se falar que dependência química é uma doença da falta de pai. Não o pai simplesmente como pessoa, mas o pai que tem a chamada função paterna, a de orientação, de dar limite, de estar presente, de ser um modelo. Muitas vezes, os dependentes químicos têm pais ausentes no verdadeiro sentido da palavra. Essa ausência está sendo muito estudada porque gera uma falta de autocuidado. É como se o dependente precisasse daquele olhar, daquele cuidado do pai. Como não tem, também não sabe se cuidar e vai se colocando em situações de risco por não saber cuidar de si próprio, de não ter autolimite, autocontrole. Ele passa a vida procurando a lei do pai, o limite do pai e vai infringindo várias normas, leis, buscando esse pai. Existem fatores de vulnerabilidade. Famílias desestruturadas, com muitas desavenças, agressividades, falta de diálogo, de afeto. E a criança vai se criando nesse meio caótico. Um lar que ao invés de tranquilizar traz mais ansiedade e angústia. E aí, sem saber como lidar com esses sentimentos frustrações, a pessoa vai buscar algo externo e encontra essas substâncias.

O álcool é usado, muitas vezes, para diminuir o estresse, a ansiedade, uma fobia social. O jovem que tem medo de dançar, de conversar com alguém que está gostando acha no álcool o relaxamento que tira o medo e se “automedica” com as substâncias químicas sem saber. E aí vemos o cigarro que relaxa, a cocaína que deixa o ser humano mais forte e potente, porque dentro dele tem uma criança amedrontada. Se está triste busca a euforia da cocaína, do crack, fica forte, eufórico, alegre, fugindo das próprias dores que não sabe como lidar. Quando faltou o diálogo, o amor e o afeto, busca-se isso em alguém. Mas em quem, se esse alguém não conseguiu buscar nem no seu pai, nem na sua mãe? Ele não confia em ninguém, e como se sente insuficiente consigo acaba buscando a substância química para tentar ser forte sozinho, autossuficiente sozinho. Essa é uma das principais características dos dependentes químicos: eles quererem lutar sozinhos.

“Certa vez, dei uma receita de um medicamento para um dependente químico e ele me perguntou se o remédio não o tornaria dependente. Se ele já era dependente, por que o medo em relação ao que receitei a ele? Aos poucos fui entender que a substância que ele comprava por ele próprio não precisava de ninguém. Mas a minha receita só poderia ser dada por mim, e ele não queria ser dependente de mim.”

FE – Como fazer com que um dependente químico se desarme e confie em alguém, aceitando ser tratado?

Cardoso – Tem de haver toda uma reconstrução com um psicólogo, psiquiatra, grupos de ajuda mútua e com espiritualidade para fazer com que essa pessoa se desarme. Tem de ter alguém em quem ele realmente possa confiar. E aí entra um papel do trabalhador da área da saúde para conseguir resgatar, adquirir uma relação de confiança com esse ser e construí-lo de uma forma diferente.

“Ouvi muitas vezes dizerem: ‘obrigado porque você fez isso por mim. Eu achava que ninguém se importava mais comigo, que ninguém me amava mais, não sabia mais quem eu era’.”

FE – Ainda temos um mundo extremamente alcoolizado?

Cardoso – O álcool é considerado hoje a principal droga consumida, e para todos os estudiosos da área da dependência química é a principal e a pior das drogas. É o que mais escraviza, o que mais adoece, o que mais leva para os hospitais, o que mais leva acidentes, o que mais mata.

FE – E o crack?

Cardoso – Foi muito importante a vinda do crack. Graças a ele, as pessoas fora da periferia começaram a se incomodar porque estavam roubando suas casas. Os usuários de crack desorganizaram tudo, bem diferente dos de maconha, que não desorganizavam tanto, e de cocaína, que demoravam muito para se desorganizar. O alcoolista se desorganiza, mas não rouba dentro da casa dele. Nos próprios congressos de Psiquiatria, poucos profissionais iam para salas voltadas à dependência química. Isso mudou completamente.

FE – E a maconha?

Cardoso – Existe uma grande confusão em torno da maconha em questões ditas como medicinais e em sua defesa. O que é medicinal é um componente contido nela e não ela, e isso está sustentando a defesa de uma possível liberação no país, de sua legalização. O componente poderia ser industrializado e usado para tratamento, mas liberar a maconha para uso recreativo não, porque vai entorpecer, vai viciar e deixar o ser humano dependente.

FE – Qual a relação entre pensamento e abertura de canais mentais?

Cardoso – Quando se usa uma substância química, abre-se um canal. Quando eu penso bem ou eu penso mal, eu abro um canal. Um canal que pode ser bom e que pode ser ruim. Kardec perguntou para os Espíritos sobre como se saberia se um pensamento é meu ou de um Espírito. E os Espíritos responderam que o primeiro é sempre o nosso. O próximo pode não ser. Eu posso escolher no livre-arbítrio beber água, um suco natural e qual é o caminho que eu abro? Se eu sou um dependente químico quem se associa a mim espera uma recaída. Mas se a pessoa está firme,
se espiritualizando, sendo atendida nos grupos de ajuda mútua e passa meses sem que volte a usar drogas, esses Espíritos o abandonam. Somos responsáveis pelos nossos pensamentos e nossas escolhas.

FE – O que é o Apoio Fraterno do qual você faz parte e que se disseminou na AME-Brasil?

Cardoso – O Apoio Fraterno surgiu em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, há 21 anos. Com certeza, foi idealizado pelo plano espiritual para auxiliar o Movimento Espírita com pessoas que vivem o problema da dependência química, o que já era muito bem-feito na prevenção, mas não com quem estava batendo nas nossas portas. Temos de estender a mão a essas pessoas. Aí veio a intuição de fundar esse projeto, que é um grupo de ajuda mútua parecido com os Alcoólicos Anônimos, mas espírita. Temos 12 princípios vinculados à ciência atual e também à Doutrina Espírita. Trabalhamos em dois momentos. No primeiro, voluntários são capacitados e treinados pela AME-Brasil para trabalhar com grupo de autoajuda, recebendo as famílias que estão vivenciando o drama da dependência química. Num primeiro momento estão ali voluntários, dependentes e codependentes, que são os familiares dos dependentes. Trabalhamos os 12 princípios do Grupo Apoio Fraterno. Abrimos para discussão dos assistidos para ver o entendimento e aí é que a gente traz a Doutrina dos Espíritos. O grupo se divide em dois, voluntários ficam com codependentes e outros com dependentes, temos depoimentos pessoais que ajudam a trazer uma espécie de galeria de espelhos. O dependente químico fala da sua história da dependência, aquilo que o atrapalha, as dificuldades que teve ou aquilo que está o sustentando num caminho sem o álcool, sem a droga, como conseguiu passar por aquela semana, o que o ajudou naquele período. Por ter a mesma doença, quem o ouve recebe aquelas palavras como um espelho e avalia seus comportamentos. A troca no trabalho do apoio fraterno é muito mais profunda que isso, vai no sentimento, porque a droga é só o final do caminho. Antes tem a ansiedade, o estresse, a depressão e a frustração, que é o que leva o ser humano a buscar a droga. Os voluntários se igualam aos dependentes químicos no Apoio Fraterno e contam como vencem esses pontos.

FE – Tratar do espiritual é muito importante para o dependente químico?

Cardoso – Sim, as pessoas nem imaginam o quanto. Quem passa nove meses numa comunidade terapêutica nos cinco primeiros meses não sai de dentro dela. Está lá para se recuperar, se olhar, se reencontrar para, depois do quinto mês, poder fazer visitas em casa. Fica uma semana em casa, três semanas na comunidade. Mais uma semana em casa, mais três semanas na comunidade, até fechar os nove meses. E as coisas que essas pessoas mais reclamavam e que presenciei é quando a família não tinha nada da espiritualidade em casa porque dentro da comunidade, dentro das clínicas, é ensinada a espiritualidade como uma ferramenta extremamente importante para o ser humano ficar de pé. Muitos contavam que a família não tinha fé, uma religião, que tentavam orar com eles. Estavam desesperados, necessitando de Deus.

“O nosso mundo como um todo está ainda muito carente de Deus, muito carente de fé. Então eles sentem muito. E as pesquisas hoje falam da importância da espiritualidade e religiosidade para os pacientes.”

FE – As obras espíritas falam que as drogas que chegam aqui são muitas vezes criadas no mundo espiritual. É um ciclo sem fim?

Cardoso – A dependência química é uma luta espiritual. Muitos ajudando e muitos Espíritos obsediando. No mundo espiritual existe uma organização muito grande, como a nossa. Na tecnologia, por exemplo, o que estamos usando aqui já havia muito antes no mundo espiritual. Com as drogas ocorre o mesmo.

“O problema das drogas pode bater na porta de qualquer um, e as famílias têm de buscar ajuda, inclusive de profissionais da saúde, por se tornarem codependentes e adoecerem também. A família tem de ser instruída, usar ferramentas para ajudar seu familiar a sair da dependência química. Deve buscar psiquiatras e grupos de autoajuda. Os dependentes químicos têm de saber que são seres humanos amados por Deus e que ele acredita neles. Devem também procurar auxílio médico, abrir o coração, buscar grupos de autoajuda e espiritualidade.”

Clique aqui ou em outras plataformas de podcast para ouvir a entrevista completa.

Para saber mais sobre a dependência química e o grupo Apoio Fraterno, adquira pelo site da AME-Brasil o livro Dependência química e espiritualidade na visão médico-espírita, organizado por Cardoso e pelo psiquiatra Alejandro Veras.

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