10 mudanças esperadas para 2021, segundo a The Economist e a Doutrina Espírita

Capa da revista the economist

A revista inglesa The Economist publicou, em sua edição de dezembro de 2020, matéria de capa trazendo um resumo de 20 pontos de uma análise feita com 50 especialistas do que está por vir para 2021. Elegemos as 10 principais e convidamos o educador Walther Graciano Jr., presidente do Grupo Espírita Cairbar Schutel, na capital paulista, o marketeiro Conrado Santos, que trabalha em várias frentes de comunicação da FE Editora, e o psiquiatra Rafael Latorraca, membro da Associação Médico-Espírita de São Paulo, para discuti-las com o olhar da Doutrina Espírita.

Os humanos querem se socializar novamente, mas o trabalho remoto basicamente permanecerá o mesmo. Vamos continuar a trabalhar on-line a partir de nossas casas cada vez mais adaptadas e com reuniões em lugares divertidos e diferentes todos os meses para socializar e conectar. Vários espaços serão criados para grandes reuniões digitais com todas as soluções resolvidas. Ninguém quer viver no trânsito ou naquele redemoinho de informações e voltar a trabalhar.

Conrado Santos – Estamos vivendo um momento realmente transformador na História. O que está por trás dessa necessidade que mudou completamente a maneira de se trabalhar? Do ponto de vista espiritual, estamos sendo sumariamente forçados a conviver dentro de nossos lares. Essa mudança imposta pela pandemia traz um resgate essencial, que é o da importância da família e do lar para as nossas vidas. Vivíamos muito mais tempo e muito mais ligados às relações externas e, de certa forma, liberados de compromissos que podem justificar a nossa encarnação. O capítulo 14 de O Evangelho segundo o Espiritismo, que trata dos laços do parentesco espiritual e do parentesco corporal, deixa claro que em uma mesma família encarnam Espíritos simpáticos, mas também de antipatias de vidas anteriores. E qual é a necessidade de se nascer debaixo do mesmo teto se não exercitar o perdão, o amor e o convívio mais íntimo para que um possa apoiar o outro? O que tínhamos como padrão era exatamente a formação de famílias nas quais, muitas vezes, a educação das crianças e o convívio eram terceirizados. Nossas horas estavam 100% dedicadas ao ganho material, e nós estávamos deixando de lado momentos em família porque quando chegávamos em casa, após tantas horas no trânsito e uma jornada de trabalho exaustiva, nossa dedicação era mínima. O sinal é claro: devemos voltar a valorizar esses momentos.

“Boa parte da população está começando a nomear coisas que antes estavam invisíveis. É uma fase de ressignificação de valores, nas quais nossas sombras estão descobertas, e avaliamos quem realmente somos. O que fazemos não deve beneficiar apenas a nós próprios ou a nossa própria família, mas o outro. Não existe uma fórmula mágica para a mudança. É esforço e um trabalho gigantesco”

(Rafael Latorraca).

As casas tornam-se mais tecnológicas e adaptadas ao trabalho diário. Muitas empresas se dedicarão a resolver as necessidades de trabalhar em casa. Você pode morar fora de uma cidade grande, trabalhar da mesma forma e gerar o mesmo valor. A localização física passa para um segundo mandato para empresas, mas para um primeiro mandato para trabalhadores.

Rafael Latorraca – Desafogar os grandes centros urbanos e fazer com que tudo se desenvolva de uma maneira mais saudável é muito bom. Um ponto de atenção aqui com relação à família, e que é um perigo, é os pais deixarem seus filhos na frente de uma tela enquanto trabalham em casa, fato vivenciado por muitos casais atualmente. Antes de dois anos de idade, isso não deve ocorrer e, acima disso, que seja restrito a, no máximo, duas horas. Não podemos deixar que cada um se torne um zumbi dentro do seu corpo. Devemos compartilhar não apenas o wi-fi dentro de casa. O intuito do aprendizado reencarnatório está diante de todos nós e passaremos por um período de adaptação. O ser humano é um ser social e vai precisar viver em um mix entre o físico e o virtual.

Tudo o que é repetitivo torna-se virtual e em regime de assinatura. De igrejas, arte, academias, cinemas, entretenimento. Às vezes, iremos para coisas físicas, mas os números não darão para manter as infraestruturas físicas que tínhamos antes. Poucos lugares podem manter alguns modelos abertos. Em breve, haverá serviços sofisticados de realidade virtual para uso doméstico.

Conrado Santos – A questão n. 783 de O livro dos Espíritos nos coloca que o aperfeiçoamento da humanidade muitas vezes necessita de convulsões momentâneas, atingindo a nossa zona de conforto e, a partir disso, nos coloca diante de avanços. Isso vem ocorrendo de forma acelerada nos últimos meses. Quantas vezes tínhamos a dificuldade de, por questões do trabalho, trânsito, atividades dentro do lar, de nos vincularmos a uma atividade de estudo, de prece? Agora tudo isso está na palma das nossas mãos. Uma cena que ficou muito marcada para mim e que está no livro Nosso Lar é quando André Luiz descreve um momento da prece coletiva que ocorre em um grande salão, projetada para todas as residências e instituições da cidade. Um milhão de pessoas estava conectada ali. Nas nossas casas espíritas, tínhamos cerca de 150 pessoas por noite. Imaginem o que podemos fazer hoje! Vamos precisar interagir de outras formas e teremos mais tempo para nos dedicar a questões sociais, ambientais, prática de esportes ao ar livre. Sentimos falta do contato com os companheiros do grupo espírita, de um passe, mas nada que a gente não possa imaginar que, com esforço e dedicação, nós não sejamos capazes de vencer com amparo da espiritualidade.

O tratamento de dados pessoais torna-se mais delicado, e as grandes plataformas vão mudar. As pessoas voltam a pagar as assinaturas devido ao senso de transparência que isso envolve. Eles preferem pagar a doar seus dados. As grandes marcas hoje valem sua credibilidade. Tudo pode ser copiado ou replicado, exceto prestígio. O valor da empresa hoje depende de muitos fatores, e não apenas de sua venda anual.

Conrado Santos – Acho que a palavra de ordem para a qual estamos sendo empurrados é a ética. A sociedade vive um momento em que está atrás disso. No mundo capitalista, as empresas trabalham para dar lucro a um pequeno grupo de acionistas, existe uma concentração de renda com poucos beneficiados. Tudo isso tem sido questionado, inclusive pelo trabalhador, que se pergunta o que seu trabalho gera à sociedade. As marcas precisarão estar muito mais engajadas e comprometidas para que suas imagens possam ser ainda respeitadas. Marcas são resultado de pessoas em torno de um propósito, e nele não cabe mais que seja única e exclusivamente a geração de fortunas. No capítulo 4 de O Evangelho segundo o Espiritismo,São Luís fala que, além da nossa necessidade da evolução com a encarnação, nós também reencarnamos para cumprir um papel junto à própria coletividade. Não importa se você é engenheiro, médico, jornalista ou cozinheiro. Todos nós temos um papel e, ao longo de nossas existências sucessivas, vamos avançando com conhecimento e ajudando o desenvolvimento intelectual da humanidade. Estamos muito mais propensos a perguntar qual o nosso papel, qual o nosso propósito na nossa profissão. Existem métricas que começam a gerar valor para as empresas muito mais do que simplesmente o balanço financeiro e que estão ligadas ao seu impacto social, ambiental, educacional. Estamos diante de uma transformação na qual o modelo de negócios será transformado de uma forma muito melhor, com novos propósitos, com empresas perseguindo a credibilidade e a ética para se sustentarem e seres humanos muito mais engajados e transformados, não pensando apenas em comprar, consumir, ganhar, guardar e viver. Os espíritos que chegam à Terra, certamente em sua maioria, trazem na sua consciência esses valores e o compromisso de transformação.

“Vejo com muito otimismo tudo isso que estamos passando porque estamos, realmente, diante de uma oportunidade única. Se estamos vivenciando isso enquanto encarnados, cabe a nós entendermos que este progresso é necessário. Nosso Criador não nos quer mal, ele quer o nosso bem e nos dá as ferramentas para nos desenvolvermos. Sigamos juntos enfrentando essa noite escura de mãos dadas, na certeza de que o Sol do Cristo certamente vai aquecer as nossas almas no futuro”

(Conrado Santos)

A força de trabalho é drasticamente reduzida, e muitas operações simples são fornecidas pela inteligência artificial. Uma grande temporada global de demissões está chegando. O desemprego ocorre por motivos multifatoriais, e não apenas por causa da crise econômica.

Rafael Latorraca – Vai ser um grande desafio, mas não muito diferente de outras revoluções, como a industrial, por exemplo. Devemos estudar e aumentar a nossa capacidade de lidar com novas tecnologias, algo mandatório neste século e necessário ao nosso desenvolvimento. As sociedades que vão mais sofrer são as que têm um baixo índice de ensino. Temos visto surgir profissões e sabemos que muitas outras aparecerão até 2030. Existe um movimento que vai acontecer e, naturalmente, precisará haver um aceleramento do desenvolvimento intelectual da humanidade. Esse desenvolvimento trará a possibilidade de as pessoas dedicarem mais tempo ao ser humano, à transferência de conhecimento, buscando-se um equilíbrio do ponto de vista da desigualdade social. Deter o conhecimento só para nós não é mais suficiente, ele precisa ser compartilhado para que a gente possa desenvolver como sociedade e fazer parte de um mundo equilibrado. De que adianta eu viver num mundo em que eu detenha o conhecimento, mas à minha volta existem pessoas desesperadas por falta de emprego, conhecimento e que colocam em risco a segurança. O conhecimento acumulado ao longo de muitos séculos precisará agora ser colocado muito mais em prática pela coletividade. Surgirá uma necessidade de uma consciência social da qual esse conhecimento deverá transformar não só a nossa realidade, mas a realidade de todos.

A educação nunca mais vai voltar a ser igual. Torna-se cara a cara, mas tecnologicamente adaptável. Cada um é o que precisa. Estudar off-line e on-line será normal. Escolas e universidades são transformadas em um esquema híbrido para sempre. Volta ao esquema de contratação de pessoal altamente capacitado para ocupar cargos importantes, mas são aceitos candidatos sem formação universitária, para cargos de menor importância, que tenham a experiência necessária.

Walther Graciano Jr. – Todos os pontos colocados pela The Economist dizem respeito à educação. Quando a pandemia chegou e jogou tudo para o alto, você tinha aquela educação formal, na qual o aluno ia para a escola, cumpria uma rotina e era aprovado. De repente, tudo precisou mudar e ser adaptado. O gestor passa a ser a peça principal que determina como vai ser conduzida essa educação dentro da escola pública e na privada. Professores estão aprendendo e tendo novas respostas. E a família também. Os estudantes precisam de uma resposta rápida. Passam a ter mais autonomia e se tornarão um cidadão mais autônomo também. Estamos tendo a oportunidade de implementar estratégias didáticas inovadoras.

A transformação radical dos hábitos continua em 2021. A economia pessoal se contrai, novas formas de gerar transações comerciais são utilizadas, e as pessoas economizam mais. Uma alta porcentagem dos gastos da família vai para atividades que antes não eram remuneradas e vice-versa. A compra de itens como roupas elegantes é substituída por roupas casuais. A eletrônica continua sendo o produto mais apreciado e adquirido por mais um ano.

Conrado Santos – Temos aqui um roteiro bastante promissor, ainda tímido, mas mostra que estamos despertando para um consumo mais inteligente, que diz respeito ao nosso planeta e à nossa sobrevivência como espécie. Vários estudos mostram que se não mudarmos, a Terra vai esgotar, e é preciso mudar. Caminhamos para uma conscientização do que realmente precisamos, do que realmente é necessário. Após quase um ano de isolamento social, observamos que não precisamos de tantas coisas para a nossa vida. Estávamos em um processo em que o caos aconteceria, certamente. Na questão 705 de O livro dos Espíritos,os Espíritos são muito claros ao dizer que estamos sempre querendo mais do que o necessário, buscando o supérfluo. Falta comida no prato de muitos, e muita comida vai também para o lixo. A pandemia nos traz a chance de repensar tudo isso.

Devemos buscar a educação dos sentimentos, tirar o melhor das pessoas, talentos que trazem com a reencarnação. Temos muitas teorias educacionais, mas a principal foi a trazida por Jesus, a de deixar de lado o orgulho, a vaidade e o egoísmo. Só conseguiremos realizar a mudança interna com muito esforço e trabalho, porque não existe uma fórmula mágica para este renascimento que não seja esforço, trabalho, educação dos sentimentos, ou seja, a mentalidade cristã.

(Walther Graciano Jr.)

A saúde mental torna-se um tema recorrente, e grandes plataformas ajudam as pessoas a enfrentarem as situações de agressividade, solidão e angústia que vivenciaram durante o isolamento. Um dos grandes custos de 2020 foi a complicação de trabalhar em equipe novamente. Muito trabalhar, muito a repensar. As crises de liderança nas empresas serão mais comuns a cada dia.

Rafael Latorraca – Em termos de saúde mental, a verdadeira pandemia ainda se dará no decorrer desta década. São situações que estão se acumulando. As pessoas têm uma tendência a se gratificar de uma maneira imediata, o que atrofia a capacidade de tolerância e paciência. É um momento que pede para deixar de lado o individualismo e de se querer que tudo seja do nosso jeito e ceder em prol do bem coletivo. Todos os meus pacientes pioraram nessa pandemia, salvo pouquíssimas exceções. Indivíduos que gastavam quatro horas por dia no trânsito deram graças a Deus de estar trabalhando em home office, mas a maioria ficou sobrecarregada. Muitos que não tinham problemas começaram a ter. Alguns engordaram, outros tiveram insônia, outros se divorciaram. Tudo que estava tamponado aflorou. Máscaras caíram porque cada um enxergou a si mesmo. A consciência de todos vai continuar acusando algo que deverá ser trabalhado. A grande dificuldade vai ser encontrar um propósito, um sentido, porque torna-se insuportável não os ter. Muitos pacientes gaguejam quando questionados sobre o significado de suas vidas. Se não conseguem dar essa resposta é porque nunca se perguntaram, e isso tem um preço. Ter essas respostas é o que faz com que a gente se sinta vivo.

Os grandes problemas como educação, saúde, energia, segurança, política e destruição da classe média ganham destaque, e as soluções são desenvolvidas por empresas de tecnologia. Grande capital é investido para fazer o bem, enquanto os problemas globais são resolvidos. Empreendedorismo social no seu melhor com resultados financeiros muito substanciais.

Conrado Santos – Estamos encontrando uma destinação bastante efetiva e nobre para as riquezas. Precisamos desta pandemia para que bilhões de dólares fossem injetados em pesquisa para que rapidamente grandes cientistas e laboratórios tivessem todos os recursos disponíveis para poder avançarem de maneira séria. E na perseguição da vacina para o coronavírus, podemos encontrar outras possibilidades, outros remédios, outras vacinas. É uma forma maravilhosa de se empregar as riquezas. Com a pandemia veio a necessidade de se amparar os menos favorecidos por conta do desemprego, do isolamento social, e a maioria dos países teve de colocar recursos para distribuir para os menos favorecidos, salvar pequenas empresas. Onde estavam esses recursos antes? Eles foram colocados agora como um capital a ser destinado para salvar vidas e para fazer o bem. É uma alegria ver mobilizações de empresários. Estamos caindo em nós mesmos na certeza de que não só o nosso bem-estar é suficiente e que ele deve chegar também a mais pessoas, que o dinheiro deve circular de forma mais equilibrada, que a saúde e a ciência devem ter mais importância. Esperamos que os países ricos possam, de uma maneira muito clara, transferir essas riquezas para salvar as populações. Uma passagem do livro Pensamento e vida fala que o dinheiro não é a luz, mas ele sustenta a lâmpada.

O mundo está vendo este ano como um novo começo. Um renascimento. As pessoas vão repensar seus objetivos pessoais, de trabalho, saúde, dinheiro e espirituais. Grandes oportunidades estão surgindo para satisfazer todos esses requisitos e mudanças de pensamento. Um novo começo com valores mais reais. Muitos comportamentos são transformados e nunca mais voltarão. Acumular, consumir e viver pelo material vai para o lado negativo da conversa.

Walther Graciano Jr. – Devemos buscar a educação dos sentimentos, tirar o melhor das pessoas, talentos que trazem com a reencarnação. Temos muitas teorias educacionais, mas a principal foi trazida por Jesus, a de deixar de lado o orgulho, a vaidade, o egoísmo, com muito esforço e trabalho, porque não existe uma fórmula mágica para este renascimento que não seja esforço, trabalho, educação dos sentimentos e mentalidade cristã. Allan Kardec estabelece um roteiro para tudo isso no capítulo 17 de O Evangelho segundo o Espiritismo: “O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei da justiça, da caridade, na sua maior pureza interroga a sua consciência sobre os próprios atos, pergunta se não violou essa lei, se não cometeu o mal, se fez todo o bem que podia, se não deixou escapar voluntariamente uma ocasião de ser útil, enfim, se fez aos outros tudo aquilo que queria que os outros fizessem por ele”. Esse renascimento vai acontecer se houver a educação dos sentimentos e nós seguirmos esse roteiro.

 Fontes:

Nosso Lar, André Luiz/ Chico Xavier.

O Evangelho segundo o Espiritismo/Allan Kardec.

O livro dos Espíritos, Allan Kardec.

Pensamento e vida, Emmanuel/Chico Xavier.

The Economist.

Próximas Matérias

Quem faz?