Qual nosso papel no combate à violência contra as mulheres?

Quando a denúncia do anestesista filmado estuprando uma paciente sedada veio à tona, pipocaram nas redes sociais reflexões de quanto podemos já ter sido cúmplices com abusos contra mulheres, seja por ignorância, conveniência social ou por qualquer outro motivo que não nos cabe aqui elencar. O caso do médico, infelizmente, não é isolado. Todo os dias relatos de agressões, estupros, feminicídio, cárcere privado são divulgados. Mesmo em nossas vidas privadas, temos exemplos a compartilhar, particulares ou de familiares, conhecidos e amigos. Frases como “todo mundo conhece uma mulher assediada, mas nenhum homem tem um amigo assediador?” ou “em briga de marido se mete, sim, a colher” mostram que, mais do que apenas refletir sobre o tema, é urgente agir, dar um basta e ajudar a promover as mudança necessárias.

Como fazer a diferença

Daí surge a pergunta inevitável: como eu, individualmente, posso agir e fazer a diferença? Como ter e incentivar comportamentos que inibam agressões, desde uma piada de mau gosto até uma cumplicidade silenciosa? Como promover uma cultura de paz? Como avançar na conquista da igualdade de gêneros? Sabemos que a mudança individual é o ponto de partida para a transformação coletiva.

Em primeiro lugar, não podemos nos esquecer que muitos registros do Novo Testamento mostram o quanto Jesus Cristo sempre tratou as mulheres em igualdade em relação aos homens, expondo, dessa forma, o absurdo dos costumes da época. E inúmeros são os relatos de quanto Ele as defendeu contra agressões e situações de injustiça. Também o Espiritismo tem como base a igualdade dos gêneros masculino e feminino. Em nossa jornada evolutiva, já encarnamos como homens e mulheres inúmeras vezes, dependendo de nossas necessidades evolutivas. A questão n. 817 de O livro dos Espíritos nos lembra que o homem e a mulher são iguais perante Deus e têm os mesmos direitos, além de ambos possuírem a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir.

A igualdade feminina em nossa jornada evolutiva

Assim, como ponto de partida, temos a certeza de que devemos nos esforçar para colocar em prática nossas convicções cristãs-espíritas, independentemente de como seja o meio em que vivemos, ou mesmo os exemplos que possam ter sido colhidos com outras gerações, afinal de contas os nossos atos e comportamentos são de responsabilidade nossa.

Ainda com base na Doutrina, outro ponto que não podemos ignorar, apesar de muitas vezes esquecermos ou não nos parecer claro: estamos numa jornada evolutiva, ou seja, se olharmos com uma perspectiva histórica já avançamos muito na questão da igualdade feminina. Há, sim, muito a avançar ainda, especialmente quando olhamos a urgente questão de violência contra mulheres, mas as conquistas e os progressos são indiscutíveis nos campos social, político, econômico e jurídico. Mais uma vez, O livro dos Espíritos nos lembra na questão n. 779: “O homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente. Mas nem todos progridem simultaneamente e do mesmo modo. Dá-se então que os mais adiantados auxiliam o progresso dos outros, por meio do contato social”.

Indignação coletiva

É inegável que, atualmente, as barbaridades, como a do caso do anestesista, ganham notoriedade porque temos um acesso muito maior aos fatos, o que faz saltarem muito mais ao nossos olhos, ou seja, por mais que estejamos evoluindo, a impressão é que estamos cada vez pior, que regredimos, o que não é verdade. Entretanto, que bom que fatos como este nos causam desconfortos cada vez mais, mobilizam mais e mais pessoas, invadem as redes sociais. Esse é um sinal claro de que a indignação cresce a cada novo caso.

Quando observamos essa indignação coletiva, nos lembramos uma vez mais de Allan Kardec, que revela que em nossa jornada evolutiva, muitas vezes, é preciso que o mal atinja o seu pico para que a transformação se mostre urgente e gere a união coletiva para combatê-la. “Há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas. Quando, porém, um povo não progride tão depressa quanto deveria, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma” (O livro dos Espíritos, questão n. 783). Dentro dessa perspectiva histórica de progresso constante e inevitável, fica claro que a conquista da real igualdade dos gêneros na Terra depende da cooperação individual, da nossa mudança íntima.

Como devemos agir?

Por onde começar? Olhando francamente para dentro de nós mesmos. Se algo mexe conosco, nos faz sentir mal, incomoda, mudanças são necessárias. Passe a vigiar no seu dia a dia pequenos gestos, que podem parecer inofensivos: uma piada que inferioriza a mulher, um comentário jocoso entre conhecidos, padrões de desrespeito em relacionamentos sexuais e amorosos e muitos outros comportamentos que podem ser indícios de inferioridade moral.

Conscientemente, vamos fomentar o feminino em nossa existência. Kardec nos lembra, em O livro dos Espíritos: “Deus apropriou a organização de cada ser às funções que ele deve desempenhar. Se deu menor força física à mulher, deu-lhe ao mesmo tempo maior sensibilidade, em relação com a delicadeza das funções maternais e a debilidade dos seres confiados aos seus cuidados”.

Interromper o ciclo degradante da violência e do ódio

De forma geral, a belicosidade, a competitividade, a agressividade e a arrogância prevalecem em almas masculinas, enquanto a docilidade, o cuidado, o amor estão relacionadas ao feminino. Por que não deixá-las prevalecer em nós, independentemente de estarmos vivendo uma experiência como homem ou mulher? E a partir desse ponto de inflexão, mudarmos nossa maneira de nos indignar, promovendo uma autorreflexão e até mesmo reeducação de nossos comportamentos. Se a resposta for ainda a belicosidade, a agressividade, estaremos, de certa forma, ainda que inconsciente e sob a bandeira de uma causa justa e importante, sustentando a violência. É importante ressaltar que a não violência na resposta aos fatos não quer dizer, de forma alguma, conivência com o mal praticado, mas, sobretudo, a interrupção de um ciclo degradante em que a violência e o ódio só nutrem o despertar do mal em nós.

Jesus, modelo e guia da humanidade

A doutora Marlene Nobre sempre destacava que a nossa transformação se dá por meio dos ensinamentos cristãos e que nunca podemos nos esquecer de que Jesus é o modelo e guia da humanidade. Em seu livro O clamor da vida, relembra: “O velho ditado de que ‘violência gera violência’ tem, finalmente, o seu mecanismo de ação demonstrado no sistema em rede, no qual estamos todos envolvidos: é impossível tocar em uma pequenina parte dessa teia sem que o conjunto receba o impacto”.

Isso significa que o combate à violência contra as mulheres não pode ser pautado em mais ódio, mais violência, em retribuição de agressões. Todos devemos, sim, sempre expor e combater situações de desigualdade e violência, mas sempre nos perguntando: o que essa violência tem a ver comigo? Como posso ajudar na difícil tarefa de cessar o mal para que não mais se repitam fatos como esses?

Educação e autoanálise

O mal é temporário, mas o bem é eterno. Ao pensarmos assim, temos que nos dedicar à semeadura profícua do que desejamos para o “Mundo Novo”, onde a violência não vai mais estampar os noticiários e onde mulheres e homens, independentemente de qualquer coisa, viverão de forma harmônica e fraternal. Essa semeadura começa com uma postura educativa, primeiramente, com uma autoanálise sobre o que pensamos, falamos e fazemos. Será que esses comportamentos influenciam ou sustentam qualquer tipo de violência? Será que em meu lar tenho dado exemplos de compreensão, amor e respeito para com aqueles que lá vivem comigo? Como eu costumo reagir a uma agressão no trânsito? Qual é a minha postura em rodas de conversa em que se dedica tempo à maledicência? Eu realmente respeito, considero e apoio as mulheres em meu ambiente de trabalho? Essas pequenas coisas, quando em desarmonia com a lei de amor, promovem fissuras de agressividade e violência que vão pouco a pouco expondo a animalidade que ainda existe em nós.

Ponto final no ciclo da violência contra mulheres

Temos que ser, sim, responsáveis para com as mudanças para as futuras gerações, começando hoje, aqui e agora um ciclo de não tolerância à violência contra as mulheres, combatendo a violência em todas as esferas. Por exemplo, até quando vamos alimentar em nossos meninos o estímulo às lutas e guerras com brinquedos?

Essa responsabilidade se estende às nossas atitudes e aos nossos exemplos no trabalho, entre amigos, com familiares. “Tenho aprendido com os Benfeitores Espirituais que a paz é a doação que podemos oferecer aos outros sem tê-la para nós mesmos. Isto é, será sempre importante renunciar, de boa vontade, as vantagens que nos favoreceriam, em favor daqueles que nos cercam. Em razão disso, seríamos todos nós, artífices da paz, começando a garanti-la por dentro de nossas próprias casas e dos grupos sociais a que pertençamos”, ensina Chico Xavier no livro Entender conversando.

Para finalizar esta reflexão, recorremos à nossa querida Marlene Nobre no livro O farol de nossas vidas: “primeiro vamos ver que é preciso conhecer-se pela autoanálise, que é um processo sistemático e permanente de autoeducação e remodelação do mundo íntimo […]. Em que momento eu agi erroneamente para com o meu semelhante? Como devo fazer para modificar a conduta? E aí se o nosso conhecimento do Espiritismo é sincero, e se nós queremos realmente produzir, nós deixamos de lado aqueles defeitos que nós temos e passamos a encarar a nossa renovação para valer. Nós nos esforçamos para melhorar a cada dia, a cada instante”.

Então, antes de reagirmos ao mal que nos entristece e até mesmo revolta com mais violência, vale a pena pararmos, refletirmos e observarmos o que podemos fazer de forma efetiva e transformadora para a extinção do mal em nós mesmos, na sociedade e nas próximas gerações. Para nos educarmos, vale refletir sobre a belíssima mensagem de Bezerra de Menezes, para lutarmos para a extinção do mal.

Mensagem de Bezerra de Menezes sobre a extinção do mal

Extinção do mal

Na didática de Deus, o mal não é recebido com a ênfase que caracteriza muita gente na Terra, quando se propõe a combatê-lo.

Por isso mesmo, a condenação não entra em linha de conta nas manifestações da Misericórdia Divina.

Nada de anátemas, gritos, baldões ou pragas.

A Lei de Deus determina, em qualquer parte, seja o mal destruído não pela violência, mas pela força pacífica e edificante do bem.

A propósito, meditemos:

o Senhor corrige a ignorância com a instrução;

o ódio com o amor;

a necessidade com o socorro;

o desequilíbrio com o reajuste;

a ferida com o bálsamo;

a dor com o sedativo;

a doença com o remédio;

a sombra com a luz;

a fome com o alimento;

o fogo com a água;

a ofensa com o perdão;

o desânimo com a esperança;

a maldição com a bênção.

Somente nós, as criaturas humanas, por vezes, acreditamos que um golpe seja capaz de sanar outro golpe. Simples ilusão. O mal não suprime o mal. Em razão disso, Jesus nos recomenda amar os inimigos e nos adverte de que a única energia suscetível de remover o mal e extingui-lo é e será sempre a força suprema do bem. (Anuário Espírita, 1968, Psicografia de Chico Xavier.)

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